Atendimentos por saúde mental no SUS sobem 50% entre crianças de 5 a 9 anos de 2023 a 2025; entenda
Apenas no ano passado, foram 1,2 milhão de atendimentos, segundo o governo de São Paulo
Os atendimentos ambulatoriais por questões de saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado de São Paulo entre crianças de 5 a 9 anos cresceram praticamente 50% entre 2023 e 2025. No ano passado, foram 1,2 milhão de atendimentos para tratar transtornos mentais e comportamentais em pacientes dessa idade — número maior do que o de qualquer outra faixa etária, inclusive de adolescentes.
Como base de comparação, o crescimento de atendimentos por saúde mental entre crianças e adolescentes de todas as faixas etárias (até os 19 anos) no mesmo período foi de 24,6%. Os dados são da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP).
As principais causas dos atendimentos ambulatoriais por questões de saúde mental entre as crianças de 5 a 9 anos são transtornos do desenvolvimento e deficiência intelectual ou atraso cognitivo mental, segundo a pasta. A alta reflete também o maior reconhecimento, por famílias e escolas, da importância da saúde mental.
Os atendimentos ambulatoriais reúnem todos os cuidados de saúde realizados sem necessidade de internação, como consultas com psicólogos e psiquiatras, terapia individual e em grupo, acompanhamento multiprofissional, prescrição e monitoramento de medicamentos e ações de acolhimento.
Já quando há necessidade de cuidados de alta complexidade, o paciente é encaminhado para internação em um hospital de referência. No caso das crianças, o recurso da internação psiquiátrica só é justificado se o paciente oferece risco para si mesmo, sugerindo se machucar, por exemplo, ou quando oferece risco para os outros, como um irmão menor, explica o psiquiatra infantil Gustavo Estanislau.
As internações de crianças de 5 a 9 anos também cresceram entre 2023 e 2025: a alta foi de 8%, próxima do aumento de 6,3% considerando todas as faixas etárias de crianças e adolescentes. Em 2025, foram 119 crianças de 5 a 9 anos internadas em equipamentos do SUS em São Paulo por questões de saúde mental.
O que explica o aumento
Por um lado, o aumento de atendimentos é positivo porque, em parte, deve-se a um ganho de conhecimento em saúde mental nas famílias e escolas, fazendo com que as pessoas busquem atendimento mais cedo, diz Estanislau.
"As pessoas têm tido menos vergonha de buscar atendimento para a saúde mental. Teve uma queda no estigma pela busca do psiquiatra e do psicólogo", cita o médico.
Por outro lado, a alta também levanta preocupações por ocorrer em um cenário favorável ao surgimento de problemas comportamentais ligados à saúde mental cada vez mais cedo. Estanislau comenta que o aumento do uso de telas afasta as crianças do brincar livre com outras crianças, o que prejudica o desenvolvimento de habilidades psíquicas, motoras e socioemocionais, além de favorecer o sobrepeso e a obesidade infantil.
"Esse mesmo excesso de tela tende a fazer com que a criança fique mais sensível à frustração e hiper-reativa ao tédio", afirma o médico.
"É bastante comum que a criança coma mal e durma mal, tenha insônia", problemas frequentes na vida adulta que estão passando a ser vistos também na infância e adolescência, relata o psiquiatra. "(Isso gera) um aumento no nível de estresse e (eles têm) pouca coisa para compensar esse estresse todo."
Há, inclusive, muitos casos de crianças e adolescentes inicialmente com suspeita de transtorno psicológico que, após uma investigação criteriosa, não apresentam qualquer diagnóstico. A confusão acontece porque eles estão em sofrimento, o que se traduz em problemas comportamentais transitórios devido ao estresse vivido em uma idade tão jovem.
Esse estresse pode ter várias raízes — desde um estilo de vida nada saudável e excesso de uso de telas até situações complexas da vida familiar, como divórcio ou brigas constantes dos pais.
Na faixa etária dos 5 aos 9 anos, as crianças também começam a adquirir algum nível de consciência da realidade familiar e absorvem problemas da casa, mas não conseguem lidar com isso. "Crianças menores tendem a sentir diretamente o sofrimento dos pais", afirma o médico. "Elas não têm recursos e jogo de cintura para lidar com um pai que está sendo agressivo, com uma mãe que está deprimida. Um adolescente de 14, 15 anos já consegue se adaptar um pouco melhor."
"Existe uma área cinzenta que são as crianças que apresentam problemas comportamentais e que não são caracterizados por um transtorno mental. A família está numa dinâmica muito complicada, a criança está em sofrimento", acrescenta. "Não é toda criança agitada que vai ter TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade)."
Autismo e TDAH
Entre os transtornos do desenvolvimento — uma das principais causas para os atendimentos entre crianças de 5 a 9 anos —, Estanislau cita o autismo e o TDAH, que não estão ligados a fatores externos como estresse, estilo de vida e uso excessivo de telas. Por isso, não há como desenvolver uma estratégia de prevenção desses quadros.
No caso do TDAH, por exemplo, estudos indicam que a prevalência do transtorno na população se manteve relativamente estável ao longo dos últimos anos — o que cresceu foi o número de diagnósticos.
Paralelamente, fatores como excesso de estímulos e de tempo diante de telas, privação de sono e estresse crônico afetam os mesmos circuitos cerebrais associados ao TDAH. Esses elementos não causam o transtorno, mas geram confusão pois podem levar pessoas sem o diagnóstico a manifestar sintomas semelhantes aos do déficit de atenção.
Já o TEA tem registros de crescimento na prevalência. Segundo o psiquiatra, isso se deve a fatores genéticos (hereditários) e à mudança no planejamento familiar. Há dados que demonstram que a idade avançada da mãe na gravidez — e algumas evidências sobre a idade do pai — pode aumentar o risco para autismo. Infecções durante a gestação e problemas no parto também elevam esse risco.
Para casos em que, de fato, há um transtorno psicológico, quanto mais cedo a criança recebe o diagnóstico e tem acesso a um tratamento com apoio multiprofissional, menores serão as consequências ao longo do seu desenvolvimento, já que o trabalho terapêutico inicial evita o agravamento dos sintomas, lembra Estanislau.
O diagnóstico tardio frequentemente leva a casos mais graves e complexos, inclusive de outros transtornos mentais como ansiedade e depressão — esses sim, diferentemente do TEA e do TDAH, são associados a fatores externos.
"Já atendi um menino com 16 anos que buscou atendimento por estar deprimido, mas que, se tivesse buscado uma pedagoga com 8 anos e não tivesse experimentado as dificuldades que teve na escola, talvez não tivesse desenvolvido o quadro de depressão", relata o psiquiatra infantil.
Entrada na escola evidencia problemas
A faixa etária dos 5 aos 9 anos marca o período em que as crianças entram no Ensino Fundamental. Até os 5 anos de idade, elas estão no Ensino Infantil, cuja dinâmica é mais leve e lúdica, sem exposição a grandes frustrações, explica Estanislau.
Com a entrada no Fundamental, elas passam a ter uma rotina mais rígida e um nível de cobrança maior por conta da alfabetização. "Tem um nível de estresse aumentando porque a criança começa a sentir a pressão de ter que se alfabetizar e aprender coisas que as outras estão aprendendo, podendo gerar mais risco para surgir um transtorno mental", diz o médico.
Como a criança passa a ser exposta a eventos em que pode ficar mais evidente quando ela não consegue se enquadrar, é também um momento em que um transtorno existente fica mais fácil de ser identificado pelos professores.
Necessidade de psicólogos e equipe multiprofissional
As portas de entrada para atendimento psicológico pelo SUS são as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), e há gargalos na oferta de cuidado. Segundo Estanislau, a rede de suporte ainda é pequena perto da demanda e existem poucos psiquiatras especializados no público infantil, especialmente em cidades do interior.
"Quando uma criança vai para a lista de espera no Caps infantil, ela até tem um pouco mais de recurso psicológico, mas às vezes não tem Caps infantil na cidade e não tem um psiquiatra infantil acessível, e uma criança com sintomas psicóticos tem que aguardar dois, três meses para ser avaliada por um psiquiatra", relata o especialista.
Ele também avalia que há um subaproveitamento de psicólogos, fundamentais para tratar quadros de saúde mental. "Faltam psicólogos na rede para fazer as triagens, dar suporte. Na grande maioria dos casos de saúde mental na infância e adolescência, a intervenção fundamental e inicial é o acompanhamento psicoterápico, não é com o psiquiatra", diz.
Além dos psicólogos, Estanislau cita a importância de equipes multidisciplinares com profissionais como terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e pedagogos.
"Se eu demorar até os 15 anos para descobrir que um adolescente tem transtorno de ansiedade social, por exemplo, e ele já tinha isso desde os 7 anos, ele vai precisar de um psiquiatra. Mas talvez, se quando criança ele tivesse acesso a um bom educador físico, uma professora de artes bem orientada, uma terapeuta ocupacional e até uma fonoaudióloga, eles teriam um papel fundamental para que essa criança não desenvolvesse o quadro nessa intensidade. Quanto mais cedo o transtorno é identificado, mais a rede como um todo pode ser utilizada e menos necessidade vai ter do psiquiatra", exemplifica o médico.
Onde buscar tratamento gratuito em São Paulo
• Caps
O SUS oferece atendimento por meio dos Caps, unidades especializadas no acompanhamento de transtornos mentais. Para acessar o serviço, é necessário passar por uma triagem em uma UBS, que fará o encaminhamento adequado.
• Hospital das Clínicas (HC)
O Instituto de Psiquiatria (IPq), parte do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, realiza atendimentos para transtornos de ansiedade infantojuvenil. Esse serviço também requer encaminhamento por meio da UBS.
• Escola Paulista de Medicina (Unifesp)
O Ambulatório de Psiquiatria Infantil da Unifesp atende crianças e adolescentes com problemas de saúde mental, incluindo ansiedade. O acesso é realizado via encaminhamento pela rede SUS.