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Peste: a doença medieval que nunca desapareceu

23 ago 2026 - 16h15
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Resumo
Responsável por devastar a Europa medieval, a peste, causada pela bactéria Yersinia pestis, ainda registra até 3 mil casos anuais no mundo, sobretudo em Madagascar e no Congo. Apresentando-se nas formas bubônica, septicêmica e pneumônica, a doença segue altamente letal se não tratada rápido com antibióticos. Embora uma nova pandemia seja improvável devido à higiene e à menor transmissão, o diagnóstico precoce e a vigilância contínua continuam sendo os maiores desafios para evitar mortes.

Responsável por matar 60% da população europeia na Idade Média, peste é rara hoje em dia, mas continua circulando em algumas regiões do mundo e ainda pode ser fatal sem diagnóstico e tratamento rápidos.Os primeiros sintomas que Paul Gaylord percebeu foram semelhantes aos de uma gripe. Dois dias antes, ele havia sido mordido por seu gato, que parecia visivelmente doente. Os médicos lhe receitaram antibióticos contra a doença da arranhadura do gato, uma infecção bacteriana que pode surgir após arranhões ou mordidas de felinos.

Pulgas são vetores da peste bubônica
Pulgas são vetores da peste bubônica
Foto: DW / Deutsche Welle

Mas os medicamentos não funcionaram. O estado de Gaylord piorou, ele foi internado na UTI e acabou entrando em coma. Não estava com gripe nem com a doença da arranhadura do gato: havia contraído a peste, uma enfermidade que normalmente associamos à Idade Média, e não ao moderno estado americano do Oregon, onde vivia.

Os sintomas inespecíficos e a raridade da doença atualmente representam um problema. A peste não perdeu nada de seu potencial letal. Gaylord sobreviveu por pouco e contou sua história ao jornal britânico The Guardian em 2014.

Três formas de peste

A peste é causada pela bactéria Yersinia pestis. Ela pode entrar no organismo humano por diferentes vias e se multiplicar rapidamente. A bactéria danifica tecidos em diversos órgãos, provoca hemorragias e, sem tratamento, pode levar à morte em quase 100% dos casos.

A forma mais comum é a peste bubônica, também chamada de peste negra. Nesse caso, as pulgas atuam como vetores. Ao picarem um roedor infectado por Yersinia pestis, podem transmitir a bactéria para humanos. O microrganismo se multiplica nos gânglios linfáticos, que incham de forma dolorosa.

Se o agente causador entrar diretamente na corrente sanguínea, por exemplo por meio da mordida de um mamífero infectado, pode ocorrer uma peste septicêmica, uma grave infecção do sangue.

Já na peste pneumônica, o patógeno chega aos pulmões por gotículas ou aerossóis emitidos por um animal ou uma pessoa infectada. Essa é a única forma da doença em que a transmissão direta entre seres humanos é considerada provável.

Pandemia medieval, doença rara atualmente

Segundo o Instituto Robert Koch (RKI), órgão responsável pelo controle de doenças na Alemanha, são registrados até 3 mil casos de peste por ano em todo o mundo.

Hoje, as regiões mais afetadas são a República Democrática do Congo, Uganda e, principalmente, Madagascar, onde ocorreu o último grande surto, em 2017. No país africano, entre 250 e 500 pessoas são infectadas anualmente. Casos também continuam surgindo ocasionalmente no oeste dos Estados Unidos.

Na Idade Média, porém, a situação foi muito diferente. Entre 1347 e 1353, a peste matou cerca de 25 milhões de pessoas. A doença deu origem a uma pandemia que durou aproximadamente 500 anos e eliminou cerca de 60% da população europeia.

Ainda assim, a bactéria não começou a infectar seres humanos apenas na Idade Média. Arqueólogos encontraram vestígios de Yersinia pestis em esqueletos com mais de 5.500 anos. Um estudo recente concluiu que a bactéria provavelmente é letal para humanos há muito mais tempo do que se imaginava.

Como a bactéria evoluiu

Ben Krause-Kyora, arqueólogo e bioquímico da Universidade de Kiel, na Alemanha, estuda a interação entre patógenos antigos e o sistema imunológico humano.

Segundo ele, uma das questões mais fascinantes é entender quais fatores de virulência permitiram que a peste deixasse de ser apenas uma doença de roedores para se transformar em uma pandemia devastadora para os seres humanos.

Pesquisas mostram que as variantes mais antigas da bactéria não possuíam certos genes necessários para a transmissão por vetores como as pulgas. É possível que, naquela época, a infecção ocorresse por outros meios, inclusive pelo consumo de roedores contaminados.

No final da Idade do Bronze ocorreu uma mudança decisiva: a bactéria desenvolveu o chamado gene ymt, que permitiu sua transmissão por pulgas. A partir daí, o patógeno passou por uma transformação rápida e profunda, abrindo caminho para os grandes surtos históricos.

De que forma ela desapareceu da Europa

Apesar das epidemias devastadoras do passado, a peste desapareceu da Europa após 1945, quando os últimos casos foram registrados na ilha francesa da Córsega.

Segundo Holger Scholz, biólogo molecular e chefe do Laboratório Nacional de Referência para Yersinia pestis do Instituto Robert Koch, a principal razão é que hoje não há, em geral, roedores infectados circulando dentro das casas europeias.

Na Idade Média, residências eram compartilhadas por pessoas e ratos, criando condições ideais para que as pulgas transmitissem a bactéria aos humanos.

Além disso, os ratos não costumam ser reservatórios ideais da doença, pois frequentemente adoecem e morrem. Já algumas espécies de roedores em outras regiões do mundo desenvolveram certa resistência e continuam servindo de reservatório natural para a bactéria.

Diagnóstico rápido pode salvar vidas

Holger Scholz e sua equipe trabalham com parceiros em áreas onde a doença continua endêmica, incluindo Madagascar. Um dos objetivos é melhorar a infraestrutura laboratorial para acelerar o diagnóstico da peste.

Isso é fundamental, porque a identificação precoce da doença continua sendo um dos maiores desafios. Scholz relata o caso de um jovem corredor nos Estados Unidos que foi mandado para casa com um diagnóstico de gripe. Ele morreu porque ninguém suspeitou que pudesse ser peste.

O problema é que os primeiros pacientes de um surto frequentemente morrem antes que o diagnóstico correto seja estabelecido e o tratamento seja iniciado.

Embora existam antibióticos eficazes contra a doença, em alguns lugares eles demoram dias para chegar aos pacientes. Esse atraso pode ser fatal, sobretudo nos casos de peste pneumônica, que pode matar em até 48 horas após o início dos sintomas.

A peste pode voltar a causar uma pandemia?

Apesar dos surtos ocasionais, Scholz considera extremamente improvável que a peste provoque uma nova pandemia mundial.

A bactéria não é transmitida com a mesma facilidade que vírus como o da gripe ou o SARS-CoV-2, causador da covid-19. Além disso, hoje existem recursos de combate muito mais eficazes do que na Idade Média, incluindo antibióticos e padrões modernos de higiene.

Um cenário mais preocupante seria o uso da bactéria como arma biológica após manipulação genética. Por isso, especialistas monitoram continuamente as diferentes cepas de Yersinia pestis. Técnicas modernas de análise genética permitem identificar a origem das amostras e até verificar se houve manipulação laboratorial.

Embora seja teoricamente possível que viajantes tragam a doença de volta à Europa, os especialistas consideram essa possibilidade extremamente remota. Ainda assim, a vigilância permanece essencial para evitar que casos isolados se transformem em surtos maiores.

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