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Peça emocionante usa sorvete como metáfora para falar de Alzheimer e viraliza no teatro

Estrelado por Vitor Rocha, o espetáculo Donatello emociona ao usar sabores de sorvete para falar de afeto, esquecimento e a luta contra o Alzheimer de forma leve e poética

18 jul 2026 - 18h22
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Há momentos raros no teatro em que a ficção se desmancha e dá lugar a uma conexão profundamente real com o público. É exatamente nessa fronteira delicada que se apoia 'Donatello', um monólogo musical escrito e estrelado pelo ator Vitor Rocha, sob a direção sensível de Victoria Ariante. A peça propõe um olhar corajoso, mas incrivelmente afetuoso, sobre o Alzheimer. Para isso, utiliza uma metáfora tão simples quanto dolorosa: a vida como um sorvete que, inevitavelmente, derrete sob o calor do tempo.

Descubra como a peça usa sabores de sorvete e interage com a plateia para falar sobre a fragilidade da memória
Descubra como a peça usa sabores de sorvete e interage com a plateia para falar sobre a fragilidade da memória
Foto: Canva Equipes/SHVETS production de Pexels / Bons Fluidos

O sabor como âncora contra o esquecimento

Longe de cenários grandiosos ou pirotecnias tecnológicas, a produção brilha pelo minimalismo. Com apenas uma mesa, uma cadeira, uma bicicleta e um pianista no palco, o espetáculo convida a plateia para uma conversa íntima e dolorosamente bonita.

A história acompanha a jornada de um menino que vê o avô enfrentar os primeiros sinais da doença neurodegenerativa. Nesse sentido, ao perceber que o avô já não se lembra de seu nome, mas ainda reage ao sabor dos sorvetes de amendoim e coco branco, o neto cria um plano de sobrevivência emocional: associar cada memória preciosa da família a um sabor de sorvete diferente.

"A premissa, embora poética, encontra respaldo na ciência ao explorar a estimulação sensorial como possível gatilho para a memória", analisou o jornal 'Folha de São Paulo'. Não se trata de um estudo médico, mas de uma investigação sensível sobre até onde o amor consegue ir para manter alguém presente.

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O público ajuda a escrever a peça a cada noite

Um dos pontos mais marcantes de 'Donatello' é que a barreira entre o ator e o espectador é quebrada antes mesmo do terceiro sinal. O próprio Vitor Rocha recebe o público no palco e recolhe bilhetes escritos em post-its com memórias trazidas pelas pessoas da plateia. Contudo, esses papéis não são meros adereços. O ator incorpora essas palavras de forma totalmente improvisada no texto e nas músicas durante a apresentação.

Assim, essa dinâmica de improviso espelha o próprio esforço cognitivo do avô para se manter ancorado na realidade: o ator precisa resgatar e integrar aquelas palavras em tempo real, vivenciando no palco a própria fragilidade da memória. Para amparar essa jornada, a trilha sonora é executada ao vivo pelo pianista Guilherme Gila, cujo piano funciona quase como uma voz invisível, flutuando e reagindo aos sentimentos do protagonista.

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Uma tradução poética para a dor do Alzheimer

Escolher contar essa história pelo olhar de uma criança que cresce ao longo dos anos foi a grande chave para trazer leveza ao tema. Em vez de focar na morbidez ou no peso clínico do Alzheimer, as crises do avô são descritas como viagens espaciais inspiradas em clássicos do cinema.

"Não se trata de uma romantização da doença, mas de uma estilização da dor para torná-la suportável", apontou a crítica do veículo. É um recurso que permite ao público chorar e sorrir, sem se sentir emocionalmente violado.

Em suma, Donatello não tenta oferecer respostas fáceis ou curas milagrosas para a dor da perda e do luto. O verdadeiro triunfo da peça está em criar um espaço de cura coletiva, um convite carinhoso para que cada um de nós aprenda a saborear as nossas próprias lembranças — e as pessoas que amamos — com toda a atenção do mundo, antes que o tempo as leve embora.

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Bons Fluidos
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