Olhos saudáveis, mas dificuldade para enxergar: como lesões no cérebro podem afetar a visão
Caso de Demi Lovato voltou a repercutir nas redes sociais e chama atenção para alterações visuais que podem ocorrer quando estruturas respon
Nas últimas semanas, imagens que simulam como Demi Lovato enxerga voltaram a circular nas redes sociais. A cantora, que passou pelo Brasil em setembro para apresentações no Rock in Rio e em São Paulo, convive com sequelas visuais desde a overdose sofrida em 2018. Na época, ela revelou ter sofrido três AVCs e um ataque cardíaco e, posteriormente, relatou ter ficado com pontos cegos na visão.
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O caso ilustra um fenômeno que a neuro-oftalmologia observa com frequência: lesões cerebrais, e não oculares, que causam perdas de visão. Mas por que uma lesão no cérebro, e não no olho, pode apagar partes do campo visual? A neuro-oftalmologista Dra Ana Cláudia Suzuki, do Hospital Sírio-Libanês, explica que enxergar depende de um trabalho conjunto entre os olhos e o cérebro. Os olhos captam a imagem e a transformam em um estímulo elétrico que é transmitido ao cérebro, até chegar ao córtex visual, onde é interpretada.
Sozinho, o olho não consegue enxergar. Com isso, é possível que uma pessoa tenha a estrutura ocular intacta e, ainda assim, apresente limitações visuais significativas.
"O que normalmente está acontecendo é uma alteração tanto nos nervos ópticos quanto nas vias ópticas, que funcionam como um cabo de transmissão da informação visual", afirma a Dra. Ana Cláudia. "Uma lesão em qualquer parte desse caminho pode causar diversos tipos de perdas visuais."
Os "pontos cegos" e outras alterações
Entre as causas mais comuns de lesões que afetam a visão estão traumatismos cranianos, tumores cerebrais, falta de oxigênio e irrigação sanguínea, entre outros. Quando a lesão atinge uma região do cérebro responsável pelo processamento visual, o paciente pode perder a visão ou parte do campo visual.
Os chamados "pontos cegos" são regiões da visão que deixam de enxergar. Mas, segundo a neuro-oftalmologista, eles não são o padrão mais comum em quadros de AVC. "O mais típico do AVC é perder pedaços maiores do campo visual, mais periféricos, na lateral de um lado ou do outro." Quando a lesão atinge o córtex visual, o paciente pode perder a visão de todo o lado direito ou esquerdo em ambos os olhos, uma condição chamada hemianopsia homônima.
Além da perda de campo visual, lesões cerebrais também podem causar embaçamento difuso, visão dupla, alterações no tamanho das pupilas, queda da pálpebra e, em casos mais extensos, a chamada cegueira cortical: quando o paciente está com os olhos intactos, mas o cérebro não processa mais nenhuma imagem. "A gente brinca que dá pra fazer um paralelo com uma câmera ligada a um computador: o olho capta a imagem, mas qualquer lesão no cabo ou no computador impede o processamento adequado."
Existe recuperação?
Segundo a especialista, isso depende do tipo da extensão e da causa da lesão. "Existem lesões que podem ter recuperação parcial ou completa, e geralmente quanto mais próximo do evento agudo, maior a chance dessa recuperação." Por isso, não existe um único prognóstico para alterações visuais provocadas por lesões cerebrais.
Enxergar não depende apenas de ter olhos saudáveis. Para que uma imagem seja percebida, ela precisa percorrer todo o caminho até o cérebro e ser processada por ele. Uma alteração em qualquer etapa desse percurso pode mudar a forma como uma pessoa enxerga.
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