O sucesso profissional não protege a saúde mental
Especialistas explicam por que sucesso profissional e estabilidade financeira não são suficientes para proteger a saúde mental e reforçam a importância do cuidado emocional
Existe uma ideia bastante difundida de que sucesso profissional e realização pessoal caminham juntos. No imaginário coletivo, alcançar reconhecimento, estabilidade financeira ou visibilidade seria suficiente para afastar o sofrimento emocional. No entanto, a ciência e a prática clínica mostram uma realidade diferente: transtornos mentais não fazem distinção entre profissões, cargos ou conquistas.
A ansiedade, a depressão e o esgotamento emocional podem surgir mesmo em momentos de ascensão profissional. Isso acontece porque a saúde mental é resultado de um conjunto de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Nenhuma conquista é capaz de imunizar uma pessoa contra o impacto do estresse crônico, de experiências traumáticas ou da sobrecarga emocional acumulada ao longo do tempo.
Nos consultórios, é comum encontrar pacientes que continuam entregando resultados, cumprindo compromissos e sendo vistos como exemplos de sucesso, enquanto enfrentam um intenso sofrimento de forma silenciosa. Muitos permanecem funcionando no chamado "modo sobrevivência", adiando o contato com as próprias emoções até que o corpo e a mente já não consigam sustentar esse ritmo.
Esse processo costuma ser ainda mais intenso quando a pessoa passa por situações de grande exposição, injustiça ou perda de controle sobre a própria história. Mesmo quando esses episódios são resolvidos, suas consequências emocionais podem permanecer por meses ou até anos, exigindo um processo de reconstrução interna.
Recentemente, o ator Phellipe Marques compartilhou publicamente que enfrentou ansiedade e depressão após viver um período de forte desgaste emocional provocado por uma acusação da qual foi posteriormente inocentado. Seu relato chama atenção porque evidencia algo muito frequente: o sofrimento nem sempre aparece durante a crise. Muitas vezes, ele se manifesta justamente quando a pressão diminui e a pessoa finalmente encontra espaço para entrar em contato com tudo o que vinha reprimindo.
Outro aspecto importante dessa discussão diz respeito aos homens. Ainda existe uma pressão cultural para que eles demonstrem força o tempo todo, evitando falar sobre medo, tristeza ou vulnerabilidade. Esse comportamento faz com que muitos procurem ajuda apenas quando o sofrimento já compromete o trabalho, os relacionamentos e a qualidade de vida.
A boa notícia é que existem caminhos para a reconstrução emocional. Além do acompanhamento psiquiátrico e psicológico, práticas que estimulam o autoconhecimento, a atenção plena e o desenvolvimento da consciência emocional podem contribuir para que a pessoa enfrente períodos difíceis com mais equilíbrio. No caso de Phellipe, ele relata que encontrou no budismo um importante apoio durante esse processo, desenvolvendo uma nova forma de lidar com seus pensamentos e emoções.
É importante lembrar que essas práticas não substituem o tratamento especializado quando há um transtorno mental instalado, mas podem funcionar como ferramentas complementares para fortalecer a saúde emocional e reduzir os efeitos do estresse cotidiano.
Talvez uma das maiores transformações proporcionadas por quem atravessa um processo de adoecimento psíquico seja justamente a mudança na forma de enxergar o sucesso. Depois de enfrentar momentos de intensa fragilidade, muitas pessoas passam a compreender que qualidade de vida, paz, equilíbrio e relações saudáveis têm tanto valor quanto qualquer conquista profissional.
Precisamos ampliar esse debate. Falar sobre saúde mental não significa incentivar a fragilidade, mas promover uma cultura de cuidado, prevenção e acolhimento. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. É um ato de responsabilidade consigo mesmo.
Histórias como a de Phellipe Marques cumprem um papel importante ao mostrar que ninguém está imune ao sofrimento emocional. Mais do que destacar uma experiência individual, elas ajudam a lembrar que cuidar da mente deve fazer parte da rotina de todos, independentemente da profissão ou do momento da vida.
Sobre a fonte
World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All, Organização Mundial da Saúde (OMS), 2022. O relatório destaca que os transtornos mentais podem afetar qualquer pessoa ao longo da vida, independentemente de condição socioeconômica, profissão ou nível de sucesso, e reforça que fatores como estresse prolongado, eventos traumáticos e dificuldades psicossociais aumentam significativamente o risco de adoecimento mental. A OMS também ressalta a importância do diagnóstico precoce, do acesso ao tratamento e da redução do estigma em torno da saúde mental.
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.
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