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'O que vem após a morte?': a trajetória de Alok contra a depressão e como ela despertou seu propósito

De fenômeno da música eletrônica a ativista social: como uma crise profunda de depressão levou o DJ Alok à Amazônia e transformou sua visão de sucesso e espiritualidade

22 mai 2026 - 07h21
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O topo das paradas musicais e o reconhecimento global parecem o cenário ideal para uma vida plena, mas para o goiano Alok Achkar Peres Petrillo o sucesso estrondoso não foi suficiente para afastar os fantasmas existenciais que o perseguiam. Criado em uma família de pioneiros da música eletrônica, ele enfrentou os primeiros episódios de depressão ainda na infância, por volta dos 10 anos de idade. Aquela sensação amarga e persistente costumava ser desencadeada por um questionamento complexo: o que acontece após a morte?

Conheça a jornada de Alok contra a depressão, seu encontro com povos indígenas e como ele ressignificou o sucesso criando o Instituto Alok
Conheça a jornada de Alok contra a depressão, seu encontro com povos indígenas e como ele ressignificou o sucesso criando o Instituto Alok
Foto: Reprodução/Instagram / Bons Fluidos

Os anos passaram, a fama internacional chegou, mas a angústia permaneceu. Em 2015, o músico atingiu o ápice de uma crise dolorosa e percebeu que o acúmulo material não preenchia o vazio no peito. Em entrevista, Alok relembrou o peso daquele momento. "Sempre tive depressão constante em minha vida. Em um momento, tive a maior crise entre todas. Fui induzido a acreditar que sucesso era ter popularidade, ganhos materiais. Mas quando conquistei tudo isso, percebi que não poderia ser o sentido da vida", revelou o DJ ao canal Ecoa.

A jornada na floresta e a desconstrução do sucesso

Foi no momento de maior vulnerabilidade que o produtor decidiu iniciar uma investigação pessoal pelo mundo atrás de respostas para a sua alma. A busca por alívio o levou até a Amazônia para conhecer a aldeia Yawanawá, no Acre, após uma jornada intensa que envolveu três voos, 13 horas de carro e outras 9 horas cruzando rios em uma canoa sob chuva. No meio do caminho, ele se deparou com manifestações e com a dura realidade de comunidades tradicionais desassistidas na marginalidade das rodovias.

Essa imersão na floresta e o contato posterior com realidades vulneráveis em Moçambique e Madagascar mudaram drasticamente sua perspectiva sobre o sofrimento humano e a espiritualidade. "Percebi que julgava muito a Deus com uma pergunta: se Ele existia, por que havia tanta miséria? Nessas viagens, vi que o miserável era eu. Todos estavam conectados ao divino, enquanto eu tinha tudo e não era grato por nada", desabafou ao Ecoa.

Ao observar a riqueza cultural e a conexão dos povos originários, o artista compreendeu que os yawanawás não compunham para competir em rankings comerciais, mas sim com o propósito nobre de curar. Essa transformação pessoal serviu de combustível para a sua própria recuperação e deu um novo rumo à sua carreira, ressignificando o peso da fama. À revista Velvet, ele declarou: "Fui pela primeira vez para uma aldeia indígena, tentando aliviar um pouco a aflição que eu tinha. A dor era insuportável. Foi ali que encontrei sentido. Entendi que quanto maior fosse minha carreira, mais gente eu poderia impactar. Foi a grande virada."

Do ativismo digital ao impacto real

Para estruturar e direcionar esse desejo de retribuição, o músico fundou o Instituto Alok, gerido por seu tio, Devam Bhaskar. A instituição atua de forma inteligente e sofisticada em causas essenciais, como a democratização do acesso à água potável no semiárido brasileiro, o combate ao racismo e o apoio direto às causas indígenas. O alcance das ações é global: os investimentos sociais já ultrapassaram a marca de R$ 12 milhões no continente asiático e alcançaram outros R$ 25 milhões em território nacional.

Até mesmo nos espaços virtuais de entretenimento o artista buscou imprimir suas vivências reais. Ao ser convidado para se transformar em um personagem jogável no videogame "Free Fire", ele escolheu a habilidade de cura como o superpoder do seu avatar digital. Para Alok, o ativismo e a música caminham juntos na missão de dar voz a quem precisa. "O instituto nasceu para materializar a vontade de ajudar quem já faz projetos maravilhosos. Estudo a questão financeira e a minha imagem, porque há causas que não precisam de recursos, precisam de visibilidade. Somos livres para apoiar o que toca meu coração", explicou o músico à Velvet.

O futuro é "ancestrônico"

Atualmente, aos 33 anos, o produtor une a ancestralidade à tecnologia em seus novos trabalhos, criando uma sonoridade que mistura cantos de povos originários com batidas eletrônicas em projetos que ele denomina como "nature tech". Toda a renda gerada por esses novos álbuns será revertida diretamente para as comunidades Yawanawá, Huni Kui e outras etnias envolvidas. Devolve, assim, o apoio e o conhecimento a quem lhe estendeu a mão nos momentos mais difíceis.

Alok defende um novo imaginário para o futuro, onde a alta tecnologia conviva em perfeito equilíbrio e respeito com o meio ambiente e as tradições milenares, enxergando os indígenas como os verdadeiros cientistas e protetores da Terra. "Os povos indígenas são os grandes guardiões das florestas. Não se trata apenas de Brasil, mas de um patrimônio da humanidade. A sabedoria milenar que eles carregam são guias para proteger a vida do planeta. É preciso estar atento às fontes de informação e não sermos omissos, nem levianos, em relação ao meio ambiente, às tradições milenares, aos povos originários, ao futuro", concluiu o artista em seu manifesto.

Bons Fluidos
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