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O mistério arqueológico em torno de 78 esqueletos sem cabeça

19 jun 2026 - 17h27
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Análises em sítio na Eslováquia sugerem que as cabeças foram removidas deliberadamente há cerca de 7 mil anos, mas os crânios nunca foram encontrados.À primeira vista, a cena remete a uma tragédia inimaginável. Em uma vala situada ao lado de um antigo assentamento neolítico em Vráble, na Eslováquia, foram encontrados 78 esqueletos humanos - sendo que apenas um conservava o crânio, o de uma criança. Arqueólogos escavam e estudam a área desde 2022.

Durante anos, descobertas desse tipo foram interpretadas como sinais de violência, guerra ou colapso social. No entanto, um novo estudo sugere que a realidade é mais complexa e, de certa maneira, mais enigmática.

O sítio tem cerca de 7 mil anos e pertenceu à chamada cultura da cerâmica linear, um dos primeiros grupos agrícolas da Europa Central. O assentamento foi ocupado entre 5250 e 4950 a.C. e chegou a abrigar mais de 300 residências, distribuídas em três bairros. Um desses setores era delimitado por um sistema de valas que se estendia por cerca de 1,3 quilômetro. Foi justamente nesse espaço que os restos foram encontrados.

O que aconteceu ali? Um massacre? Uma epidemia? Um sacrifício? As primeiras análises indicam uma interpretação diferente.

"As características mostram claramente uma manipulação intencional dos corpos", explica a antropóloga biológica Katharina Fuchs, da Universidade de Kiel e coautora do estudo publicado na revista Proceedings of the Prehistoric Society. E o que foi observado não aponta para decapitações violentas, mas para uma remoção deliberada dos crânios.

Mas onde estão as cabeças? Essa é a grande incógnita. Não foram encontrados fragmentos de crânios que possam ser associados aos corpos descobertos. "Atualmente, as cabeças são arqueologicamente invisíveis para nós", reconhecem os pesquisadores no estudo, o que trava qualquer tentativa de interpretação do achado arqueológico.

Crânios neolíticos

Uma hipótese plausível é a de que os crânios tenham sido preservados ou exibidos em outro local, uma prática já documentada em outros contextos neolíticos.

Em sítios arqueológicos no Oriente Médio, era comum a prática de remover os crânios de ancestrais venerados, recobri-los com gesso para reproduzir feições e exibi-los na comunidade. Segundo estudo publicado no site Live Science, há registros de variações dessa prática em lugares como Jericó, situada no que hoje é o território palestino da Cisjordânia, e em Çatalhöyük, na atual Turquia.

Para o principal autor do estudo, o arqueólogo Martin Furholt, da Universidade de Kiel, na Alemanha, é fundamental não projetar conceitos modernos sobre esses rituais. "Devemos supor que essas práticas estavam inseridas em contextos de significado completamente diferentes dos das sociedades modernas. É isso que torna sua interpretação tão difícil", afirmou.

Achados semelhantes — fossas comuns, restos em valas, corpos manipulados — aparecem em vários sítios do final da cultura da cerâmica linear e costumam ser interpretados como indício de um período de crise.

Mas a equipe de pesquisadores prefere uma leitura com mais nuances. "O depósito de cadáveres e partes de corpos pode ter feito parte de práticas mais complexas, significativas e recorrentes", afirma o coautor Nils Müller-Scheeßel.

Próximos passos

O trabalho no sítio arqueológico continua. As próximas etapas incluem análises de isótopos (estudo das diferentes formas de elementos químicos presentes em restos humanos, animais, vegetais ou em materiais arqueológicos) e de DNA para determinar a origem geográfica, a dieta e os vínculos de parentesco dos indivíduos. Os pesquisadores também vão conduzir estudos forenses mais detalhados sobre as marcas de corte. O projeto é financiado pela Fundação Alemã de Pesquisa desde 2025.

Longe de encerrar o debate, a descoberta abre novas questões sobre a forma como comunidades neolíticas concebiam a morte, o corpo e a memória de seus antepassados. Enquanto os pesquisadores seguem analisando os achados, Vráble se destaca como um sítio excepcional para compreender as práticas funerárias das primeiras comunidades agrícolas.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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