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O que acontece quando um ‘trintão’ vai à Disney pela 1ª vez

Ou então, o tamanho do seu desafio se você ainda tem esse ‘gap’ na vida e chegou a hora de realizar o sonho do seus filhos na terra da magia

27 mai 2015 12h00
| atualizado às 18h08
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(Túnel do tempo de um adolescente um pouco amargurado)

Nunca fui de família abastada. Quando garoto, sempre nutri um sentimento interno de “série B” pelo fato de o videogame dos meus amigos sempre ser de um modelo mais novo que o meu – enquanto ainda brincava de Alex Kidd no Master System, a maioria já “lupava” com o Sonic no Mega Drive, ou “saia na mão” com o Street Fighter da Nintendo. Antes que minha mãe encare isso como crítica, e meu falecido pai se sinta ofendido lá do céu, gostaria de deixar claro que agradeço muito mesmo. Afinal, lá pelos meus 13 anos desencanei de vídeo game, e pude me focar, mesmo sem tanto sucesso, no que realmente interessava na época: festas e as moças. E nunca mais perdi tempo também me reunindo com um monte de homem velho para jogar video game. Mas, enfim.

Foto: André Naddeo / Terra + Disney / Divulgação

Foi por volta dessa mesma idade, entre 13 e 14 anos, que eu confesso não ter conseguido evitar um “piti” básico de adolescente que bate o pezinho quando não consegue o que quer. Um belo dia na sala de aula da antiga oitava série (atual nono ano do ensino fundamental), eis que entra uma diretora para dizer que a escola promoveria uma excursão de formatura (do primeiro grau) para a Disney. Ao mesmo tempo, veio uma senhora com aquela camisa polo clássica vermelha da Stella Barros, pochete e boné, que começou a dar detalhes de como seria aquela incrível experiência e que deveríamos repassar aos nossos pais todos os detalhes – de segurança, itinerário e, claro, de pagamento.

“Manda ele tomar no c...”, disse para a minha mãe, batendo forte a porta do quarto, quando ela tentava me passar o telefone para eu falar com o meu pai. Ela não tinha grana. Meu pai, que tinha condição de vida (um pouco) melhor, era um ser humano amabilíssimo na mesma proporção em que ligava o interruptor de luz com um soco. Sempre o chamava de “mão de vaca”, mas é claro que eu não entendia muito bem ainda de URVs, e nem sabia claramente o que acontecia com o Brasil pré-plano Real. O fato é que eu não fui para a Disney.

Pior foi engolir a situação no Brasil quando as notícias começaram a chegar diretamente da terra do Tio Sam: a menina que eu estava a fim tinha sido “derrubada” por um rival de outra classe, outro turno – nós, da manhã, odiávamos a galera da tarde. Malditos! E eu ali, em São Paulo, tendo AULA.

Não precisei de terapia, a vida seguiu alegre, e posso dizer que me esbaldei bem na minha formatura seguinte, do antigo terceiro colegial – em melhor condição, minha mãe pagou minha formatura na não menos clássica “semana do saco cheio” em Porto Seguro, na Bahia. Teria as primeiras histórias para contar aos meus netos, enfim. O fato é que ficou um “gap”. Nunca fui à Disney. Nunca me interessei também. Tem até um amigo que planejava todas as suas férias praticamente para lá e, obviamente, ganhou do grupo o apelido de “Peter Pan”.

Nessas coisas que só a vida de “jornaleiro” te proporciona, porém, eis que 20 anos depois veio o convite. Antes do verão 2015 do hemisfério norte, a terra da magia me chamava para conhecer suas atrações, hotéis, visitar parques, ver novidades, enfim, viver esta experiência que eu não tive oportunidade A missão: transcrever isso em matérias jornalísticas. Tarde demais? Sei lá, mas eis o relato diário de um “trintão” na Disney World, my friends.

Senhores passageiros, preparem os ouvidos!

Foto: Disney Babbie / Divulgação


A primeira constatação de que você pode estar embarcando numa viagem em que, cedo ou tarde, se sentirá um “peixe fora d’água” vem logo na fila de embarque para Orlando, nos EUA. A quantidade de crianças e adolescentes é proporcional ao barulho que elas fazem. Como o meu anjo da guarda de voos longos é uma entidade que preza muito pelo meu bem-estar, claro que o bebê mais chorão da aeronave ficou bem atrás de mim.

De São Paulo até Orlando são cerca de nove horas. Fazendo uma matemática meia boca: por umas três horas, o projeto de ser humano soluçou de tanto chorar, espernear no meu ouvido. Outras duas horas, chutou incessantemente a minha poltrona. Nem o poderoso tablete com joguinhos foi páreo para essa fúria de birra. Claro que isso é comum, e acontece, o que me espanta é a falta de preocupação de alguns pais.

Este casal brasileiro, por exemplo, não tentava acalmar o pimpolho em nenhum momento. Tal pai, tal mãe. Davam a entender que, meu querido, você está indo para Orlando, terra das crianças, e deve estar preparado para isso, olhe ao seu redor, oras. Lembrei daqueles pais não sei de qual país que prepararam sacolas com doces e um recado aos passageiros de sei lá qual voo, uma vez que os filhos viajavam de avião pela primeira vez na vida. Era algo como: “pedimos perdão de antemão pelo choro de nossos filhos”. Educação, pois. Enfim.

Acabado e com parcos minutos reais de sono, desembarquei com outros colegas jornalistas em Orlando e a primeira coisa que chama a atenção: um aeroporto nos Estados Unidos ter anúncios no sistema de som em pleno e bom português. Nunca tinha visto isso em nenhum outro país que visitei – sequer em Buenos Aires. Pudera: até chegar à imigração e receber o carimbo de entrada no passaporte, todos os passageiros falavam a mesma língua do ponto de partida.

Quando você fecha um pacote com a Disney, e planeja ficar em um dos 25 hotéis da imensa rede do homem que idealizou Mickey Mouse e companhia, você tem direito a transporte exclusivo – conhecido como Disney Magical Express, por razões óbvias. Afinal, tudo diria respeito a magia daquele momento em diante. O busão é super confortável – e as crianças, dessa vez, mais calmas. TVs passam quiz que instigam desde o início a imaginação, também de adultos ainda receosos como eu – jamais passou pela minha cabeça, por exemplo, que o complexo todo emprega cerca de 70 mil pessoas, ou todos os habitantes da cidade de Jarnaúba, no norte de Minas Gerais, de acordo com o último senso do IBGE.

Também impressionou a animação do motorista. Com um sotaque-indiano-bala-na-boca, ele transbordava alegria ao anunciar as paradas em cada resort. Mandava a todo momento um “uhhhuuuu”, ao dizer que estávamos chegando ao nosso destino, o que prova que alguns trabalhos na vida, não importa se você não transou bem com sua mulher na noite anterior, ou se cefaleia está te consumindo o humor: é preciso sorriso no rosto. E ele garantiu isso. Ao entregar as bagagens, inclusive, que ele mesmo abre o compartimento do ônibus e te entrega com enorme cara de satisfação. 

Magic what?

A pulseira da alegria (ou da tristeza): com a Magic Band você insere eletronicamente com um chip seus ingressos e fast passes. E pode cadastrar seu cartão de crédito para pagamentos
A pulseira da alegria (ou da tristeza): com a Magic Band você insere eletronicamente com um chip seus ingressos e fast passes. E pode cadastrar seu cartão de crédito para pagamentos
Foto: Kent Phillips / Disney World

A instalação dos jornalistas ficou a cargo do suntuoso Animal Kingdom Lodge, um resort no melhor estilo africano (como a maioria dos hotéis cinco estrelas, são temáticos, o que ajuda a encantar ainda mais crianças e adolescentes, tá bom, e eu também) com um carta de vinhos fantástica e única da terra do Mandela, me garantiu uma fonte da equipe logo na chegada. Hummm.

Só que nada é mais importante na Disney, meus amigos, do que uma pulseira chamada Magic Band. É a tecnologia em função do entretenimento: com um chip personalizado, você não só abre a porta do seu quarto, como entra nos parques, faz o cálculo dos seus fast-passes (mas pode chamar de fura-fila) e ainda pode cadastrar o seu cartão de crédito para pagar tudo com um sensor e o seu pulso. Sorte a minha que deu algum problema no caixa da recepção e não conseguiram cadastrar minha bandeira na minha Magic Band. Melhor assim. Menos gastos. 

Good morning, America. America?

Tinha ouvido alguém falar de um papo de safari no hotel enquanto me dirigia ao meu quarto, após um rápido jantar, mas o sono era tamanho que não só abstraí tal situação como capotei de sono após o banho. No primeiro dia oficial como um “trintão feliz na Disney”, logo vi uma máquina de café o quarto. Ou melhor, de “chafé” americano. Era de graça, todavia. O susto mesmo foi a varanda.

Que os americanos são megalomaníacos? Óbvio, quem não sabe. Que eles são os mentores do show business encantador? Idem. Mas quando na sua vida você imaginaria que ao esticar as pernas e acordar para a vida, com uma singela xícara de café nas mãos, se depararia com duas girafas praticando seus respectivos desjejuns ali, próximas e visíveis até para uma selfie? Surreal.

O nome Animal Kingdom não só se justificava – depois fiquei sabendo que o resort também tinha zebras, dentre outros animais espalhados – como trazia a primeira mensagem de que os caras sabem como encantar uma criança. Imagina você nesse hotel, com seus filhos, e acorda para o café da manhã com duas girafas bem ao lado da sua varanda, logo no primeiro dia? A molecada pira o cabeção, claro. O problema é se elas insistirem em querer descer, tocar nas girafas e você ter que explicar que “não, não pode”. Enfim, por hora, não é um problema que eu pense muito. Por hora. 

A "típica" cena matinal: acordar, café na mão e se deparar com duas simpáticas girafas
A "típica" cena matinal: acordar, café na mão e se deparar com duas simpáticas girafas
Foto: André Naddeo / A "típica" cena matinal: acordar, café na mão e se deparar com duas simpáticas girafas

A magia (e alguns hábitos)
 

Magic Kingdom ao fundo, fundado em 1971, recebe milhões de turistas por ano
Magic Kingdom ao fundo, fundado em 1971, recebe milhões de turistas por ano
Foto: André Naddeo / Terra

E lá vamos nós para o primeiro parque desta aventura: o clássico Magic Kingdom, aquele do castelo, dos fogos de artifício, etc. Uma imensa área construída em 1971, que você leva uns dois dias pelo menos para conhecer. Mas apenas alguns minutos para chegar, dependendo de onde estiver hospedado, claro, utilizando uma balsa ou os monotrilhos que parte de resorts mais próximos, como do famoso Grand Floridian.

Fundamental você se organizar para o seguinte: fast pass. Repetindo: fast pass. Ou fura (imensas) filas. Quando você compra o seu ingresso (US$ 105 adultos e US$ 99 crianças. Ou então US$ 335 e US$ 295, respectivamente, por um passe de cinco dias para todos os parques Disney), automaticamente a sua Magic Band te dá direito a três fast passes, que devem ser programados para um determinado horário (uma hora, entre 16h e 17h, por exemplo) pela internet, ou melhor ainda, no aplicativo que você pode baixar no seu celular. Depois de utilizar os três, você ainda pode programar mais uma entrada “VIP” em quiosques pelo parque.

Não é novidade para ninguém americano está longe de ser um povo saudável – os wafles em formato de orelhinhas do Mickey são fofos. Tão fofos que possuem trocentas calorias gordurosas logo no pontapé inicial do dia. O mesmo vale para bacon, ovos mexidos a Deus dará, salsichas etc. Enfim, mas até aí, é o estilo dos caras. O que me assustou mesmo foi a quantidade imensa de pessoas circulando com esses carrinhos motorizados, mas que poderiam ser muito bem chamados de “cúmulos da preguiça”, já que carregam pessoas sem qualquer tipo de deficiência física. Têm sobrepeso? Muito. Mas deixar de andar é a solução? Enfim.

Aliás, falando em carrinhos, chama a atenção obviamente a quantidade imensa de crianças, bebês, claro, mas eu confesso que nunca na minha vida tinha visto ou ouvido falar em “estacionamento de carrinhos de bebês”. Caramba. Isso que é organização. O “stroller parking”, no inglês, bomba muito. O dia inteiro. Melhor assim. É o que a maioria dos pais fizeram quando vão entrar para falar com o Mickey. Sim, meu amigo, se ir a Paris e não visitar a Torre Eifflel beira a blasfêmia, o mesmo vale para a Disney e seu principal personagem.

Um dos grandes espaços para o estacionamento de carros de bebê do Magic Kingdom, cena que repete em outros parques
Um dos grandes espaços para o estacionamento de carros de bebê do Magic Kingdom, cena que repete em outros parques
Foto: André Naddeo / Terra

Imagine um Papai Noel que funciona 365 dias por ano, e que causa uma fila, pasmem, de 75 minutos (no momento em que estive no parque) para você ir lá, trocar uma ideia, bater uma foto? A quantidade de crianças na fila dá o tom de que é óbvio que vale. É uma pessoa mesmo sob a fantasia. Uma pessoa baixinha. Com um daqueles aparelhos que deixam a voz no estilo Daft Punk da vida, sabe? “Vocês querem tirar uma foto”, diz o pequeno Mickey, em português mesmo. Sim, ele (ou eles) falam várias línguas para atender tantas nacionalidades.

Outro espanto da magia foi saber ainda que mães e pais desembolsam até US$ 200 (valor não abatido do ingresso no parque) para a sua filha se transformar numa legítima princesa, com cabelos, unhas, maquiagem, fantasia, arco no cabelo etc. Eis o nome do salão: Bibbidi Bobbidi Boutique. E elas ficam de costas para o espelho até estarem prontas. A julgar pela fila, sempre ela, e a cara de satisfação das garotinhas, ficou claro que foi bem gasto.

Descobri também que todo o santo dia tem a Festival of Fantasy Parade, às 15h, religiosamente. Resumidamente, o Carnaval particular com carros alegóricos bolados na cabeça do sábio Disney. Esse ano, além dos clássicos Donald, Branca de Neve, etc, espaço novo para as princesas Elsa, e Anna. Para o Olaf também.

É a onda Frozen! Que vai ganhar uma atração especial, aliás, dentro do parque no ano que vem, provavelmente. Vale segurar bem forte a mão das crianças nessa hora. Principalmente se elas avistarem antes do desfile começar um carrinho vendendo aquelas mini-máquinas de fazer bolas de sabão. Ah, americanos, tão sagazes na arte de fazer dinheiro. E transformar adultos em crianças.

#selfieMickey #comumpoucodevergonha
#selfieMickey #comumpoucodevergonha
Foto: André Naddeo / Terra

Foi como eu me senti quando olhei para a próxima atração do dia: Splash Mountain. Automaticamente, me transportei para a minha infância paulistana. Você tem mais ou menos uns trinta anos? Morou em São Paulo e região? Considera que teve uma infância feliz? Então, você com certeza já passou a noite em claro esperando o dia seguinte, com dor de barriga de ansiedade para ir ao Playcenter Ah, saudoso Playcenter.

Depois de montanhas-russas e afins, a maior diversão certamente era sair como um “pinto molhado” do nosso Splash tupiniquim. Era uma longa espera na fila para se molhar, em suma. Quando vi que a ala masculina dentro do carrinho começou a tirar a camisa, nem pensei duas vezes. Só fiquei com vergonha de botar a mão para fora e molhar todo mundo como fazia, erroneamente, no Brasil. Achei que já era demais para o trintão que ainda se reacostumava com o mundo de faz de conta. E toma conta de você.  

Splash 2015 x Splash anos 90: a mesma sensação adolescente (e idiota?) de entrar numa montanha-russa para se molhar
Splash 2015 x Splash anos 90: a mesma sensação adolescente (e idiota?) de entrar numa montanha-russa para se molhar
Foto: Walt Disney / Divulgação

O repórter André Naddeo viajou a Orlando a convite da Disney World

(No próximo capítulo: o frenesi dos fogos de artifício, ensinando americanos a pegar Jacaré em parque aquático, e muito mais)

Fonte: Terra
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