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Deixando sexo de lado: assexuais falam sobre preconceito

'Nova' orientação sexual deve desmistificar seu status de doença e quebrar tabus

22 jun 2015 16h34
| atualizado em 23/6/2015 às 16h47
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Foto: iStock / Getty Images

J.J. tem 31 anos, é casada, mas não gosta de sexo. "Como assim?" é um das primeiras perguntas que muitos fazem. A partir dessa trama, começam a traçar razões do por que ela não gosta. Seria tímida? Não encontrou a pessoa certa? Ou é extremamente religiosa?

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Nenhuma das alternativas. J.J. faz parte de uma pequena parte da população que se considera assexual, ou seja, que não tem interesse em fazer sexo e podem chegar a nem ter interesse em um relacionamento amoroso.

Bandeira que representa a assexualidade
Bandeira que representa a assexualidade
Foto: Wikipedia / Reprodução

Ainda considerada um tabu, a definição desta orientação sexual é nova, tendo sido criada no início dos anos 2000, segundo Elisabete Regina Baptista de Oliveira, pedagoga. Porém, apesar da denominação ser recente, assexuais sempre existiram e começaram a emergir graças à internet.

Segundo a pedagoga, a internet foi propulsora do movimento, pois possibilitou que as pessoas encontrassem outras que também não tinham interesse por sexo. Ao colocar um “a” na frente da palavra “sexualidade” firmou-se uma bandeira daqueles que não se identificavam com a cultura sexualizada. E foi em 2001 que surgiu, nos Estados Unidos, a primeira e maior comunidade de assexuais, a Asexual Visibility and Education Network (AVEN), ou, Visibilidade Assexual e Rede de Educação (em tradução livre), que atualmente conta com mais de 70 mil integrantes em seus fóruns de discussão.

“Então com as redes sociais, tudo isso que que veio ao longo dos anos 2000 possibilitou que essas pessoas que se encontravam isoladas no mundo inteiro, de repente, pensassem que não estavam sozinhas... De acordo com a troca de experiências delas, a AVEN começou a fazer uma categorização e percebeu que havia uma variedade muito grande entre pessoas assexuais”, explica a pedagoga.

J.J. se descobriu assexual aos 22 anos, quando perdeu a virgindade. Vinda de família religiosa, conta que sempre foi fácil esperar para ter relações sexuais, comportamento que não notava nas amigas. Porém, afirma que se sentiu frustrada consigo mesma quando perdeu a virgindade. “Achei muito sem graça... Perguntei onde estava tudo aquilo que as pessoas diziam. (Achei) estranho e invasivo, não gostei de ter que dividir meu corpo daquele jeito”, relata.

Oliveira explica que o desinteresse dos assexuais pelo sexo pode variar:

“A pessoa que não sente atração nem romântica, nem sexual, é chamada de arromântica. E os outros que sentem atração romântica, porém, não sexual, são chamadas românticas”, explica.

Assim como existem categorias como heterossexualidade e homossexualidade, dentro do campo da assexulidade existem os homoromânticos, heteroromânticos, biromânticos e panromânticos.

Foto: Terra

No caso de J.J., ela se considera heteroromântica, ou seja, sente atração romântica por pessoas do gênero oposto. Porém, apesar de ter sido criada em um cenário religioso, ela não é celibatária.

Segundo o estudante e militante assexual Khalyl Ribeiro, de 21 anos, “as pessoas acabam confundindo muito o celibato com a assexualidade, que são coisas totalmente diferentes”. No caso do celibato, a pessoa se compromete a não realizar atividades sexuais por algum motivo, ou princípio, como por exemplo no caso dos padres da Igreja Católica. Khalyl explica que a diferença do assexual é que essa “ausência” de sexo vem da falta de desejo.

A pedagoga Elisabete Regina Baptista de Oliveira relata que a descoberta da assexualidade acontece, normalmente, na pré-adolescência e na adolescência. E que por falta de informação, muitos formulam hipóteses do por que são diferentes. “Alguns pensavam que era apenas timidez, ou poderia ser pelo fato deles serem religiosos... Mas no geral, acabavam por chegar na hipótese da homossexualidade. Ou eles mesmos chegavam nessa hipótese ou era uma coisa trazidos pelos colegas em forma de bullying”.

Por falta de informação, muitos assexuais tendem a se sentirem sozinhos e deslocados. Segundo o psicólogo Breno Rosostolato, “o assexual sofre muito porque a sociedade não os olha como se fossem naturais... O preconceito leva as pessoas a rotularem e intervirem na vida de outras. Vivemos uma ‘sexolatria’, sempre tentando erotizar as pessoas”.

Ele explica que o maior problema enfrentado pelos assexuais é não serem reconhecidos como pessoas com autonomia. Em seguida, podem enfrentar muitas dificuldades para encontrar um parceiro que entenda o desinteresse deles em relações sexuais.

“Cada caso é um caso, cada um vai sentir essa opressão, esse preconceito de uma forma diferente. Mas pode ocorrer uma depressão, uma melancolia, uma apatia, elas vão se fechando. É triste porque são situações que partem de uma segregação, de um preconceito”, ele conta.

Mas afinal, assexualidade é uma doença?

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM na sigla em inglês), guia utilizado para diagnosticar e classificar os transtornos mentais, cataloga a assexualidade como Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo. Porém, especialistas se preocupam com patologização do que se é categorizado como uma orientação sexual.

“A assexualidade é uma realidade e está longe de ser uma doença. Essa diferença é uma expressão legítima da pessoa e isso tem que ser respeitado, é o princípio da autonomia e do respeito”, afirma o psicólogo Breno Rosostolato.

A psicóloga Débora Pissarra explica que se a sexualidade não aparece da forma como se conhece, por relações sexuais, sua energia pode estar convertida para o estudo, para o trabalho, para outras áreas.

Rosostolato acrescenta que a assexualidade não significa não sentir prazer, “quer dizer que ela tem prazer com outras coisas... Os assexuais reconhecem que a vida não ter que ser centrada no prazer sexual”.

Mas segundo Pissarra, o desejo sexual do assexual pode, por algum motivo, ter parado em um estágio infantil, por isso não sentem interesse no sexo. “A criança se apaixona, mas não está desenvolvida para ter algo a mais”, exemplifica.

Rosostolato já refuta esta visão: “dizer que o prazer delas é infantilizado não faz sentido para o meu ponto de vista. A gente sempre tenta explicar o que é a assexualidade baseado em fatos, pesquisas, mas quanto mais fazemos isso, mais deslegitimamos essas pessoas e suas vivências. (A assexualidade) é a identidade da pessoa.”

Relacionamentos

Assexuais romântico podem se apaixonar normalmente e também ter relações sexuais, como no caso de J.J.

Ela conta que conversou com o marido sobre sua orientação sexual e que eles convivem em harmonia, “ele não é assexual, mas é muito tranquilo com esse lance de sexo, por isso tem dado certo”.

Segundo o psicólogo Breno Rosostolato, “o assexual sofre muito porque a sociedade não os olha como se fossem naturais"
Segundo o psicólogo Breno Rosostolato, “o assexual sofre muito porque a sociedade não os olha como se fossem naturais"
Foto: Carol Rossetti / Facebook / Reprodução

Porém, ela também relata que há um lado negativo em sua assexualidade:

“Meu marido é super compreensivo, mas existe uma cobrança imensa da minha parte, e isso me faz sofrer. Já cheguei a arrumar as minhas coisas e dizer que eu ia embora porque não achava justa aquela situação. A ideia de começar uma relação sexual, me causa angústia. Não consigo gostar.”

Larissa Pinho, de 18 anos, também é assexual e mantém um relacionamento com um garoto sexual.

“Comecei a namorar com alguém que eu gosto bastante e que, por acaso, é sexualmente ativo. Ele já sabia da minha assexualidade quando mostrou interesse em mim e sabia também da enorme possibilidade de nunca termos uma intimidade maior do que simplesmente dormirmos juntos. Mas me sinto bastante confortável para fazer sexo com ele, mesmo não sentindo atração nenhuma”, ela relata.

O caso de Larissa não é único. Ela é conhecida como demissexual, uma ramificação da assexualidade, como explica a pedagoga Elisabete Regina Baptista de Oliveira

“São pessoas capazes de sentir atração sexual somente quando apaixonadas, envolvidas em um relacionamento amoroso, o que inclui muita confiança, estabilidade.” Porém, ela afirma que essas experiências se mostram bem espaçadas e acontecem em ocasiões raras, “é diferente da pessoa que só transa por amor, que poderá ter vários amores ao longo da vida. O demissexual não”, frisa.

Preconceito e tabu

O militante Khalyl Ribeiro acredita que a assexualidade ainda seja um tabu porque é uma realidade que foge dos padrões atuais que pregam o sexo como sinônimo de felicidade, uma regra: “a assexualidade vem para contrariar tudo aquilo que a gente já conhece, que vemos na biologia, que é a reprodução, na Bíblia, que fala em casar, ter uma família, é uma coisa que vem e que bate de frente com isso. Então é uma coisa que choca, que vai contra tudo aquilo que a sociedade nos impõe”.

O psicólogo Breno Rosostolato completa, “se você não transa, foge dos padrões e já classificado como doente. Tudo que é questionador desses padrões é tachado como anomalia.”.

Para contornar a situação, Ribeiro acredita que a solução é uma maior visibilidade do grupo e a aumentar as informações sobre o assunto.

Mas em seus estudos, Oliveira atenta que os grupos de assexuais presentes nas redes sociais do Brasil são diferentes dos militantes dos Estados Unidos, pois não demonstram muito interesse em se comprometer com a causa de forma contínua. “Lá (nos EUA) a gente vê as comunidades florescendo, as pessoas querem se envolver, mas aqui não percebi isso durante a pesquisa. As pessoas não querem o compromisso de se reunir, por exemplo, no mundo real”.

Para ela, além de mais informações para que as pessoas ao redor dos assexuais entendam essa orientação sexual, é preciso dar mais visibilidade à causa, sendo mais ativo também fora das redes, como acontece nos EUA. “Nos EUA eles vão na Parada do Orgulho LGBT, tentam educar a população, vão na televisão, mostram a cara, trabalham em prol da visibilidade e sempre falam da assexualidade como orientação sexual, tão legítima como a hétero, homossexualidade”.

Como completa Rosostolato, “se reconhecer é uma construção de si mesmo como pessoa, e uma descontrução ao mesmo tempo dos padrões da sociedade”.

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Fonte: Terra
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