Formigamento nas mãos: celular pode ser o responsável
Estudo de 2026 associa hábitos de uso do smartphone à compressão do nervo ulnar; entenda
O uso prolongado do celular com os cotovelos flexionados pode comprimir o nervo ulnar, causando formigamento nos dedos mindinho e anelar. Ignorar esse sintoma inicial pode levar à perda de força, dormência crônica e necessidade de cirurgia para evitar sequelas permanentes. Especialistas alertam que o tratamento precoce evita procedimentos invasivos por meio de fisioterapia e ajustes posturais, como afastar a tela do rosto, alternar as mãos e evitar apoiar os cotovelos em superfícies rígidas.
Ortopedista explica por que ignorar o "choquinho" nos dedos pode levar à perda de força e, em casos avançados, à cirurgia
Você está deitado no sofá, celular na mão, cotovelo dobrado. Depois de algum tempo, começa a sentir um formigamento nas mãos. Você estica o braço, mexe a mão, a sensação desaparece e a vida segue. Parece uma daquelas coisas tão banais que dificilmente virariam motivo para marcar uma consulta médica.
Só que, quando isso começa a se repetir, vale prestar atenção.
O formigamento no dedo mindinho e em parte do anelar corresponde justamente ao território do nervo ulnar, aquele mesmo responsável pelo famoso "choquinho" que sentimos quando batemos a parte interna do cotovelo. E alguns hábitos muito atuais, como passar horas segurando o celular com o braço dobrado, trabalhar com o cotovelo apoiado na mesa ou até dormir com o braço atrás da cabeça, podem manter esse nervo sob tensão ou compressão por períodos prolongados.
A relação entre smartphone e o problema já começa a aparecer também na literatura científica. Um estudo publicado em 2026 no Journal of Clinical Medicine comparou 50 pacientes com síndrome do túnel cubital confirmada por exame e submetidos à cirurgia com outras 50 pessoas sem sinais da neuropatia. Os pesquisadores encontraram associação entre determinados padrões de uso do smartphone e a compressão do nervo ulnar no cotovelo, embora ressaltem que se trata de uma associação e que outros fatores também podem contribuir para o problema.
Para o ortopedista Leonardo Zanesco, especialista em ombro e cotovelo, o primeiro aviso costuma ser justamente aquele que muita gente ignora. "O formigamento que vai e volta é o aviso. Quando a dormência ou a fraqueza ficam constantes, o nervo já está sofrendo de verdade e o tratamento não deve ser adiado."
O celular não é o único vilão
O problema não está simplesmente em usar o celular, mas na posição em que permanecemos enquanto fazemos isso. O nervo ulnar passa pela região posterior e interna do cotovelo e pode ficar tensionado quando mantemos o braço flexionado durante muito tempo. "O nervo ulnar não foi feito para passar horas com o cotovelo totalmente dobrado. O celular colado no rosto e a noite inteira com o braço dobrado por trás da cabeça são os dois grandes inimigos modernos desse nervo", explica Zanesco.
No computador, a dinâmica pode ser diferente. Passar horas com a parte interna do cotovelo apoiada sobre a mesa ou o braço da cadeira pode provocar compressão direta. À noite, dormir repetidamente com o cotovelo muito flexionado também prolonga a tensão sobre o nervo justamente durante várias horas seguidas. Outro estudo, publicado em 2024 na revista científica Cureus, ajuda a dimensionar como sintomas desse tipo podem aparecer mesmo entre jovens. Entre 30 participantes saudáveis, de 20 a 25 anos, 70% relataram sensação de formigamento ou dormência durante o uso do celular. A amostra é pequena e não permite afirmar que 70% dos usuários de smartphones tenham problemas no nervo ulnar, mas os pesquisadores também observaram associação entre maior tempo de uso e alterações em parâmetros de condução do nervo.
Quando o formigamento deixa de ser "bobeira"
No começo, o padrão pode ser traiçoeiro justamente porque passa. O braço fica em determinada posição, os dedos formigam, a pessoa se movimenta e tudo parece voltar ao normal.
A preocupação aumenta quando esse intervalo de normalidade começa a desaparecer. Dormência persistente, perda de força ou de destreza da mão indicam um comprometimento mais avançado. "Nem todo dano ao nervo tem volta. O melhor momento para tratar é enquanto o formigamento ainda vai e volta. Depois que a fraqueza se instala, parte da função pode ser perdida para sempre", alerta o ortopedista.
Isso acontece porque a recuperação de um nervo lesionado pode ser lenta e imprevisível. Por isso, esperar que o problema se torne insuportável para procurar ajuda pode significar perder justamente a janela em que o tratamento tende a ser mais simples.
Descobriu cedo? Nem sempre é preciso operar
A boa notícia é que sentir um formigamento ocasional não significa automaticamente que alguém precisará de cirurgia.
Quando o problema é identificado no início, o tratamento costuma começar pela mudança dos hábitos que estão mantendo o nervo sob tensão e pela fisioterapia. Entre os recursos utilizados estão exercícios específicos de excursionamento, que promovem o deslizamento suave do nervo ao longo de seu trajeto. "Descoberto cedo, o problema costuma se resolver sem bisturi: exercícios que fazem o nervo deslizar e pequenos ajustes de hábito mudam completamente a evolução do quadro", afirma Zanesco.
Também entram nessa mudança evitar permanecer longos períodos com o cotovelo muito dobrado, não apoiar continuamente a região interna do cotovelo e observar a posição dos braços durante o sono.
E quando é preciso operar?
A cirurgia passa a ser considerada quando o tratamento conservador, realizado adequadamente por alguns meses, não apresenta resposta satisfatória. O tempo de espera, no entanto, depende da gravidade. Diante de perda de força, por exemplo, a avaliação tende a ser mais urgente.
Durante o procedimento descrito pelo especialista, o nervo é descomprimido e reposicionado para a região anterior do cotovelo, diminuindo a tensão provocada pelos movimentos repetidos de flexão.
Mas existe uma diferença importante entre impedir que o problema continue avançando e recuperar aquilo que o nervo já perdeu. "A cirurgia alivia a dor e freia a doença. Mas quanto de função o nervo vai recuperar, nenhum cirurgião pode prometer e é exatamente por isso que esperar demais é a pior estratégia."
Pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença
Não é necessário abandonar o celular ou transformar a mesa de trabalho em um laboratório de ergonomia. Para quem ainda apresenta sintomas leves, mudanças bastante simples podem ser suficientes.
A primeira é afastar um pouco o smartphone do rosto para diminuir a flexão exagerada do cotovelo e alternar a mão que segura o aparelho. No computador, cadeira e teclado devem permitir uma posição confortável sem manter a região interna do cotovelo constantemente pressionada. Também vale observar aquela posição aparentemente confortável no sofá ou na cama, com o braço dobrado durante horas. "Afastar o celular do rosto, alternar a mão que segura o aparelho e ajustar cadeira e teclado: quando o quadro é leve, essas mudanças simples podem resolver 100% do problema", orienta o especialista.
O celular provavelmente não vai sair das nossas mãos tão cedo. O ponto, portanto, não é transformar o aparelho em vilão, mas perceber o que o corpo está dizendo enquanto o utilizamos. Se o mindinho começou a formigar repetidamente, talvez aquele "choquinho" não seja tão bobo quanto parece.
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