Aterosclerose pode surgir aos 20 anos e aumentar o risco de infarto no futuro
Estudo mostra que placas de aterosclerose podem surgir ainda na juventude e reforça a importância de cuidar da saúde cardiovascular desde cedo
Um estudo publicado no New England Journal of Medicine revelou que a aterosclerose pode iniciar silenciosamente aos 20 anos, atingindo 1 em cada 13 jovens e quase metade dos homens aos 40. A formação de placas nas artérias é assintomática e acelera com o envelhecimento, impulsionada por fatores genéticos e estilo de vida. Especialistas alertam que a descoberta precoce não é uma sentença de infarto imediato, mas reforça a necessidade de prevenção e controle de riscos desde o início da vida adulta.
A aterosclerose costuma ser associada ao avanço da idade e a problemas cardiovasculares que aparecem depois dos 50 ou 60 anos. Mas uma nova pesquisa mostra que as alterações nas artérias podem começar muito antes disso: em alguns casos, ainda no início da vida adulta, quando a pessoa não apresenta qualquer sintoma.
Um dos maiores estudos já realizados sobre o desenvolvimento inicial da aterosclerose identificou placas nas artérias de participantes com pouco mais de 20 anos. Conforme a idade avança, a frequência aumenta de maneira expressiva. Por volta dos 40 anos, aproximadamente metade dos homens e 30% das mulheres avaliadas já apresentavam algum sinal da doença.
O trabalho acompanhou 16.808 adultos de 18 a 70 anos que nunca haviam sofrido infarto, AVC ou obstruções arteriais conhecidas. Apresentados no Congresso Europeu de Cardiologia, realizado no fim de agosto em Munique, na Alemanha, os resultados também foram publicados no periódico científico New England Journal of Medicine.
Entre os participantes de 18 a 29 anos, 8,7% dos homens e 6,7% das mulheres tinham pelo menos uma artéria com placa. Na prática, isso significa que aproximadamente um em cada 13 jovens dessa faixa etária já apresentava alterações relacionadas à aterosclerose.
O dado surpreendeu até especialistas justamente por mostrar como esse processo pode começar cedo. E existe outro ponto importante: quem tem aterosclerose em estágio inicial pode passar anos (ou mesmo décadas) sem perceber.
A aterosclerose pode avançar sem causar sintomas
A ausência de sinais aparentes é uma das características que tornam a aterosclerose especialmente preocupante. Nenhuma das pessoas incluídas na pesquisa apresentava sintomas cardiovasculares. As alterações foram descobertas por meio de exames de imagem.
Os pesquisadores analisaram diferentes regiões do sistema circulatório. Os voluntários realizaram ultrassonografias tridimensionais das carótidas, localizadas no pescoço, e das artérias femorais, na região da virilha. Também passaram por angiotomografia das coronárias, responsáveis por levar sangue ao coração.
Os exames permitiram observar como a presença de placas se torna mais comum conforme os anos passam. Dos 30 aos 39 anos, elas estavam presentes em 34,6% dos homens e 21,3% das mulheres. Aos 40, a proporção já chegava a aproximadamente metade dos homens e três em cada dez mulheres.
Nas faixas etárias mais avançadas, encontrar artérias totalmente livres dessas alterações tornou-se uma exceção. Entre 60 e 70 anos, somente 1,9% dos homens e 8,1% das mulheres não apresentavam placas detectáveis.
Além de se tornarem mais frequentes, as alterações também ganharam extensão com a idade. Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), explica ao g1: "As placas passaram a atingir mais regiões. Deixaram de aparecer apenas nas carótidas e foram identificadas também nas femorais e, posteriormente, nas coronárias".
Outro achado importante é que o volume dessas placas não aumenta necessariamente em um ritmo constante. A progressão pode acelerar com o envelhecimento, tornando a prevenção desde cedo ainda mais relevante.
Afinal, o que é aterosclerose?
A aterosclerose é uma doença crônica que afeta as artérias. De maneira simplificada, ela envolve o depósito de colesterol e um processo inflamatório na parede desses vasos. Ao longo do tempo, formam-se placas capazes de reduzir o espaço disponível para a passagem do sangue.
Um dos elementos envolvidos nesse processo é o LDL, popularmente conhecido como colesterol "ruim". Ele é, na realidade, uma lipoproteína cuja função é transportar colesterol pelo organismo.
Quando existem muitas partículas de LDL circulando no sangue, aumenta a possibilidade de que elas atravessem a camada interna das artérias e permaneçam acumuladas ali. O organismo reage a essa presença, desencadeando uma resposta inflamatória que contribui para a formação e o crescimento da placa.
O problema tende a acontecer quando se combinam níveis elevados de colesterol e danos ao endotélio, a camada delicada que reveste internamente os vasos sanguíneos. Uma vez comprometida essa barreira, partículas de LDL conseguem penetrar na parede arterial, onde podem sofrer alterações e estimular a ação do sistema imunológico.
Com o passar dos anos, esse processo inflamatório pode tornar algumas placas instáveis. Caso uma delas se rompa, o contato de seu conteúdo com o sangue pode favorecer a formação de um coágulo capaz de bloquear a circulação. Quando isso acontece em uma coronária, pode ocorrer um infarto; se a obstrução atingir a circulação cerebral, existe risco de AVC.
Por que a doença pode começar tão cedo?
Não existe uma única explicação. O surgimento da aterosclerose depende de uma combinação entre predisposição genética e fatores relacionados ao estilo de vida. Algumas pessoas apresentam uma tendência hereditária maior a alterações no colesterol e à formação de placas. Quando essa predisposição se soma a hábitos prejudiciais à saúde cardiovascular, o processo pode ser acelerado.
Entre os fatores capazes de favorecer danos aos vasos estão hipertensão, diabetes, obesidade - especialmente o acúmulo de gordura visceral -, tabagismo e exposição à poluição atmosférica.
O cigarro é um bom exemplo de como a aterosclerose não depende simplesmente da ingestão de gordura. As substâncias presentes na fumaça podem lesionar o revestimento das artérias e facilitar os processos que levam à formação das placas.
Há evidências, inclusive, de que alterações muito iniciais relacionadas ao acúmulo de gordura nas artérias podem começar ainda durante a vida intrauterina, influenciadas por condições maternas.
Encontrar uma placa aos 20 anos significa que a pessoa terá um infarto?
Não. A descoberta de aterosclerose em um adulto jovem não significa que um evento cardiovascular seja iminente. "A chance de esse jovem ter um infarto logo após o diagnóstico é praticamente nula, desde que ele passe a cuidar dos fatores de risco", diz Mattar.
O ponto de atenção está no futuro. Quando uma pessoa apresenta placas, mas ainda não desenvolveu sintomas ou complicações, fala-se em aterosclerose subclínica. A alteração existe, porém ainda não se manifestou clinicamente. "Não é uma sentença", ressalta Mattar. "É um sinal de que a pessoa precisa se cuidar mais, com metas mais rígidas de colesterol, controle da glicemia e da pressão."
Sem controle dos fatores de risco, a tendência é que novas placas apareçam e as existentes aumentem ao longo dos anos. Alguns comportamentos podem acelerar ainda mais esse processo, entre eles o uso de esteroides anabolizantes, determinados hormônios e drogas estimulantes.
O estudo também mostrou que a aterosclerose dificilmente fica limitada a um único ponto do organismo. Entre os participantes que apresentavam placas nas coronárias, mais de 80% também tinham alterações nas carótidas ou nas femorais. A análise também mostrou que observar exclusivamente as carótidas pode não revelar todos os casos: 18% das pessoas com aterosclerose apresentavam placas somente nas artérias femorais.
A aterosclerose aparece antes nos homens
Outro aspecto observado foi a diferença entre homens e mulheres. De acordo com os resultados, os homens tendem a desenvolver aterosclerose entre cinco e dez anos mais cedo. Uma das explicações está na ação hormonal. Antes da menopausa, o estrogênio exerce efeitos protetores sobre o sistema cardiovascular feminino. Conforme seus níveis diminuem durante o climatério, essa proteção também se reduz e o risco cardiovascular das mulheres aumenta.
Entre os 40 e os 60 anos, portanto, os cuidados com pressão arterial, colesterol, glicemia e demais fatores de risco tornam-se ainda mais importantes para elas. Depois dos 60, a diferença de risco entre os sexos tende a diminuir.
A terapia hormonal pode ser considerada em determinadas situações, desde que não existam contraindicações e que a decisão seja individualizada com acompanhamento médico. O momento de início também precisa ser avaliado pelo profissional responsável.
É preciso fazer exames de imagem aos 20 anos?
Apesar dos resultados chamarem atenção, eles não significam que todo jovem deva procurar imediatamente uma angiotomografia ou ultrassom das artérias. "A cada dez exames pedidos nessa idade, talvez só um apontasse alguma placa. Seria oneroso demais e não mudaria a conduta, porque os fatores de risco precisam ser investigados de qualquer forma", pondera Mattar.
Para a população em geral, a estratégia mais importante é começar cedo a acompanhar fatores que podem passar despercebidos, como colesterol elevado, hipertensão e alterações da glicose.
Também entram nessa prevenção hábitos já conhecidos, mas decisivos para a saúde cardiovascular: manter uma alimentação equilibrada, reduzir o consumo de gordura saturada e excesso de sódio, praticar pelo menos 150 minutos de atividade física por semana, não fumar e evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
Há situações, porém, que merecem uma avaliação individualizada. Jovens com histórico familiar importante de doença cardiovascular precoce - como pai, mãe ou avós que sofreram infarto cedo - podem precisar de uma investigação mais detalhada, de acordo com a orientação médica.
Caso seja identificada uma carga significativa de aterosclerose, o controle do LDL pode se tornar mais rigoroso e, dependendo do caso, medicamentos como as estatinas podem fazer parte do tratamento.
Prevenção pode começar décadas antes do infarto
Os participantes da pesquisa eram da Espanha e da Dinamarca. Por isso, os números encontrados não podem simplesmente ser aplicados à população brasileira, que possui características genéticas, sociais e comportamentais diferentes.
Ainda assim, os resultados trazem uma mensagem que ultrapassa fronteiras: doenças cardiovasculares que costumam se manifestar na meia-idade ou na velhice podem começar a ser construídas silenciosamente décadas antes.
E é justamente aí que existe espaço para prevenção. Mesmo quando há predisposição genética, fatores como tabagismo, sedentarismo, excesso de peso, alimentação, pressão arterial e colesterol podem influenciar a velocidade com que a doença avança.
Em vez de esperar que o coração dê algum sinal de alerta, portanto, cuidar das artérias desde a juventude pode ser uma das maneiras mais importantes de diminuir o risco cardiovascular no futuro.
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