Flexibilidade do corpo é importante para a longevidade, diz estudo
Pesquisa brasileira acompanhou adultos por mais de uma década e encontrou uma associação entre menor flexibilidade corporal e maior risco de morte precoce
Você consegue abaixar para amarrar o tênis sem "brigar" com a lombar? Seu quadril abre com facilidade? E os ombros, alcançam uma boa amplitude quando você estica os braços acima da cabeça? Perguntas simples como essas têm tudo a ver com uma capacidade física muitas vezes subestimada: a flexibilidade - e ela pode estar mais conectada à saúde a longo prazo do que parece.
Uma pesquisa feita no Brasil e publicada no Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports acompanhou homens e mulheres de meia-idade por mais de uma década e encontrou uma associação clara: pessoas com menor flexibilidade corporal apresentaram maior risco de morrer mais cedo, quando comparadas às que tinham melhor amplitude de movimento.
O que o estudo observou - e por que chamou atenção
O trabalho foi conduzido pela Clínica de Medicina do Exercício (Clinimex), no Rio de Janeiro, em colaboração com instituições do Reino Unido, Estados Unidos, Finlândia e Austrália. Ao todo, foram avaliadas 3.139 pessoas entre 46 e 65 anos.
Depois de um acompanhamento médio de 12 anos, 302 participantes morreram. Os pesquisadores então fizeram ajustes estatísticos e excluíram mortes por covid-19 e causas externas, como acidentes e violência. O resultado se manteve: quanto menor a flexibilidade, maior o risco de mortalidade.
Na comparação entre extremos, homens com índices baixos apresentaram 1,87 vez mais risco de morte; entre as mulheres, o risco foi ainda maior: 4,78 vezes, sempre em comparação com participantes que tiveram bons resultados no teste.
O que é flexibilidade, afinal?
Flexibilidade não é "ser elástico" no corpo inteiro, nem um talento reservado a quem faz dança ou yoga. Na definição adotada pelos pesquisadores, trata-se da amplitude máxima de movimento de uma articulação - ou seja, o quanto uma região do corpo consegue dobrar, esticar, girar e se mover sem restrições.
E um detalhe importante: ela pode variar de uma parte do corpo para outra. É possível ter ombros soltos e quadril rígido, por exemplo. O próprio autor do estudo, o médico Claudio Gil Araújo, lembra que isso é comum até mesmo em atletas, já que diferentes modalidades exigem mobilidade em áreas específicas.
Flexibilidade diminui com o tempo (e cedo)
Outro ponto que pesa na discussão é o envelhecimento natural da elasticidade do corpo. Araújo explica que a flexibilidade é um dos atributos que começam a cair muito cedo na vida: "é uma das pouquíssimas variáveis que a gente começa a perder logo depois de nascer". E reforça o quanto esse declínio pode ser rápido: "Uma criança de 2 anos chega praticamente ao pico de flexibilidade. Depois, a tendência é só piorar".
Em outras palavras: se a flexibilidade já vem caindo desde cedo, a meia-idade vira uma fase estratégica para perceber o quanto o corpo está perdendo mobilidade - e o que ainda dá tempo de recuperar.
Como a flexibilidade foi medida no consultório
Para avaliar os participantes, a equipe utilizou o Flexitest, método criado por Araújo durante seu doutorado na UFRJ, nos anos 1980. O exame observa 20 movimentos, envolvendo sete articulações: tornozelo, joelho, quadril, tronco, punho, cotovelo e ombro.
Não há aparelhos sofisticados: um profissional avalia cada movimento e atribui uma nota de 0 a 4. Depois, esses pontos são somados, formando um índice global de flexibilidade, que pode ser comparado com valores esperados para a idade.
O próprio Araújo descreve como funciona a escala: "A nota dois é a média, dada para a maioria das pessoas. Um representa uma amplitude um pouco menor, e três, um pouco maior". Nos extremos, ele explica: "O zero é raro, porque significa que aquele indivíduo não possui praticamente nenhuma mobilidade naquela articulação. Já o quatro é algo muito acima, uma flexibilidade digna de integrantes do Cirque Du Soleil."
Por que uma coisa teria a ver com a outra?
A pesquisa não prova que "ficar mais flexível" automaticamente aumenta anos de vida, e os autores reconhecem isso. Ainda assim, existem hipóteses plausíveis para a relação observada. Uma delas envolve autonomia e segurança. Pessoas mais rígidas tendem a ter mais dificuldade para se mover bem, preservar independência e manter uma rotina ativa. Isso pode aumentar quedas, dores, medo de se machucar e, com o tempo, reduzir ainda mais o movimento - criando um ciclo que se retroalimenta.
Também vale considerar que flexibilidade pode refletir um conjunto maior de saúde física: articulações com boa mobilidade, musculatura funcional, menos dor limitante, mais disposição para caminhar, treinar, trabalhar e viver a rotina com menos barreiras.
O que fazer na prática para não "enferrujar"
- Mantenha o corpo em movimento: caminhar, pedalar, correr, dançar - o que fizer sentido para você;
- Inclua força na rotina: musculação e exercícios resistidos ajudam a preservar massa muscular, articulações e independência;
- Trabalhe mobilidade: alongamentos, yoga, pilates e exercícios de amplitude podem ser especialmente úteis para quem sente encurtamentos e travas;
- Interrompa longos períodos sentado: levantar por 3 a 5 minutos a cada hora já ajuda a "acordar" o corpo.
No fim, a mensagem do estudo é mais ampla do que "ser flexível": é sobre manter o corpo capaz, móvel e funcional. Flexibilidade não é só estética de alongamento - é liberdade de movimento. E isso, ao que tudo indica, conversa diretamente com qualidade de vida (e, talvez, com a quantidade de vida também).