Anitta e a maternidade: quando o 'não' também é uma escolha que merece consciência
Para a neurocientista Telma Abrahão, decisões sobre ser mãe podem revelar tanto liberdade genuína quanto mecanismos de proteção emocional ligados à infância
Anitta voltou a provocar reflexões ao falar com franqueza em uma entrevista sobre maternidade. A cantora afirmou que nunca teve o desejo de ser mãe, não congelou óvulos e que essa decisão sempre fez parte de sua trajetória pessoal. "Não tenho nenhuma vontade de ser mãe. Nunca tive esse sonho, não congelei óvulos. Mas, se um dia acontecer, não serei contra", disse ela à revista Veja Rio.
A declaração, que rapidamente ganhou repercussão, escancara um tema cada vez mais presente no debate contemporâneo: o direito da mulher de dizer 'não' à maternidade sem culpa, julgamento ou explicações. Para a neurocientista e especialista em desenvolvimento infantil Telma Abrahão, esse movimento representa um avanço importante, mas também abre espaço para reflexões mais profundas. "Compreendo e respeito profundamente o fato de nem toda mulher desejar ser mãe, e isso não a torna menos mulher, menos completa ou menos digna", afirma.
Segundo ela, o ponto central não está em querer ou não querer filhos, mas em entender a origem dessa decisão. A especialista explica que, do ponto de vista neuroemocional, muitas escolhas da vida adulta são influenciadas por experiências precoces. "Existe em nós um anseio por vínculo, pertencimento e continuidade, mas esse desejo pode se manifestar de muitas formas, não necessariamente pela maternidade biológica", diz. "O problema é quando esse impulso é silenciado por dores da infância, como negligência emocional, medo de repetir padrões ou ausência de referências seguras de cuidado."
Telma compartilha, inclusive, uma vivência pessoal para ilustrar o tema. "Eu mesma, por muito tempo, não quis ter filhos. Só depois de um mergulho profundo na minha própria história percebi que aquele 'não' vinha do medo, das marcas da infância e da falta de referência de uma maternidade acolhedora."
A escolha
Para ela, a fala de Anitta ajuda a tirar o debate do campo do julgamento e levá-lo para o da consciência. "Quando escuto uma mulher dizendo que não quer ser mãe, o que me vem não é crítica, mas curiosidade e compaixão. Essa decisão é livre e consciente ou é uma resposta automática a traumas não elaborados?", provoca.
A neurocientista reforça que toda escolha é legítima, desde que seja consciente. "Quando não revisitamos nossa história com honestidade, podemos acabar vivendo em função de uma ferida que nem sabemos que está aberta. Especialmente quando falamos de gerar, cuidar e amar."
Em tempos em que mulheres públicas como Anitta usam sua voz para romper expectativas sociais, especialistas apontam que o verdadeiro avanço está menos em dizer 'sim' ou 'não' à maternidade, e mais em garantir que essa decisão venha de um lugar de autonomia, e não de dor silenciosa.
*Fonte: Márcia Stival Assessoria