Filhos mais velhos possuem o QI mais alto? Veja o que diz a ciência
Pesquisas indicam que primogênitos podem apresentar desempenho intelectual um pouco superior, mas ordem de nascimento não molda a personalidade
Será que os filhos mais velhos realmente apresentam desempenho intelectual superior ao dos irmãos mais novos? É o que afirma uma pesquisa publicada em 2007 na revista Science. O estudo em questão analisou informações de mais de 240 mil homens na Noruega. Ademais, identificou que os primogênitos marcaram, em média, de 2 a 3 pontos a mais no quociente de inteligência (QI) em comparação com os caçulas.
Os pesquisadores Petter Kristensen e Tor Bjerkedal, responsáveis pela investigação, ressaltaram que essa diferença não tem origem biológica. O fator determinante, segundo eles, estaria no ambiente familiar. Durante os primeiros anos, o filho mais velho recebe maior atenção dos pais, o que favorece estímulos intelectuais exclusivos. Além disso, por interagir com adultos com mais frequência nesse período, ele pode desenvolver certas habilidades cognitivas de maneira mais consistente.
Outro ponto destacado é o papel que o primogênito geralmente desempenha dentro da família. Ao assumir pequenas responsabilidades cedo e servir como referência ou até mesmo "educador" dos irmãos menores, o filho mais velho exercita competências que podem se refletir em um leve refinamento intelectual.
Ordem de nascimento e personalidade: mito ou realidade?
Embora a diferença de QI seja considerada modesta, os resultados reacenderam debates antigos. Eles falavam sobre como a ordem de nascimento poderia influenciar não apenas a inteligência, mas também a personalidade. Esse padrão de pensamento remonta a Francis Galton, que em 1874 observou que muitos cientistas eram primogênitos, e ao psicólogo austríaco Alfred Adler, no início do século XX.
Adler defendia que os filhos mais velhos, ao serem "destronados" pelo nascimento de irmãos, tornavam-se mais responsáveis, perfeccionistas e ansiosos, além de desenvolver características ligadas à liderança. Já os caçulas seriam criativos e espontâneos, enquanto os do meio tenderiam a ser conciliadores e estáveis emocionalmente. Com o tempo, esses paradigmas ganharam espaço em livros e no senso comum. Primogênitos eram vistos como sérios e conscientes, filhos do meio como mediadores e caçulas como expansivos e divertidos.
O que dizem estudos mais recentes
Apesar da popularidade dessas crenças, pesquisas mais amplas derrubaram a ideia de que a ordem de nascimento molda diretamente a personalidade. Em 2015, dois grandes estudos - envolvendo milhares de americanos, britânicos e alemães - não encontraram diferenças significativas em traços como abertura, extroversão, amabilidade, consciência e estabilidade emocional.
Ainda assim, ambas as análises identificaram uma pequena vantagem cognitiva a favor dos filhos mais velhos em testes de QI. Outro estudo, realizado com 377 mil estudantes nos Estados Unidos, chegou à mesma conclusão: o efeito sobre inteligência existe, mas é sutil, enquanto o impacto sobre a personalidade é praticamente inexistente.
O que a ciência conclui
As evidências atuais sugerem que a ordem de nascimento tem impacto mínimo na formação de traços de personalidade. Esses aspectos estão mais ligados a fatores culturais, sociais, genéticos e contextuais. No entanto, a leve vantagem intelectual dos primogênitos permanece um consenso científico.
A explicação mais aceita é a de que, por receberem atenção concentrada dos pais nos primeiros anos e desempenharem o papel de "tutores" para os irmãos mais novos, os filhos mais velhos reforçam seu próprio aprendizado. Em outras palavras, a ciência mostra que a ordem de nascimento pode ter influência sobre a inteligência, mas não dita quem seremos em termos de personalidade.