Enxaqueca: 7 verdades que todo paciente deve saber
Especialista revela conceitos que mudaram a forma de compreender e tratar a doença, incluindo o papel da cafeína, dos analgésicos e dos tratamentos preventivos
A enxaqueca afeta milhões e é cercada por mitos que dificultam seu controle. O neurologista Tiago de Paula explica que, com tratamento adequado, crises podem ser prevenidas, devolvendo qualidade de vida. Ele destaca a importância de evitar gatilhos como cafeína e automedicação, além de adotar abordagens preventivas, como aplicação de toxina botulínica para descronificar a dor.
Especialista explica mitos e verdades sobre a enxaqueca e como o tratamento correto melhora a qualidade de vida
A enxaqueca afeta milhões de brasileiros e figura entre as principais causas de incapacidade no mundo. Ainda assim, muitos conceitos sobre a doença permanecem cercados por mitos. O que faz com que pacientes convivam durante anos com crises frequentes, excesso de medicamentos e restrições desnecessárias no dia a dia. A boa notícia é que o conhecimento sobre a doença evoluiu significativamente nas últimas décadas, mostrando que a enxaqueca é um distúrbio neurológico complexo, mas que pode ser controlado quando diagnosticado e tratado corretamente. O neurologista Tiago de Paula, especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC), reúne abaixo alguns dos principais conceitos que todo paciente deveria conhecer para entender melhor a doença e recuperar sua qualidade de vida.
O cérebro do paciente com enxaqueca é hiperexcitável
"O cérebro de quem tem enxaqueca funciona de forma diferente. Ele apresenta uma maior sensibilidade aos estímulos do ambiente e do próprio organismo, o que chamamos de hiperexcitabilidade cerebral", explica o neurologista. Isso significa que situações que passariam despercebidas para a maioria das pessoas, como uma luz muito intensa, um cheiro forte, noites mal dormidas, estresse, alterações hormonais ou até alguns alimentos e medicamentos, podem desencadear uma cascata de eventos no sistema nervoso capaz de culminar em uma crise de enxaqueca.
"Essa característica não significa que o cérebro esteja 'mais ativo'. Mas sim que ele responde de maneira mais intensa e tem um limiar menor para iniciar uma crise", explica. "Se uma pessoa não trata a enxaqueca, tem uma vida muito intensa, está sempre exposta a estímulos, sofre com grande estresse e não dorme direito, ela tende a sofrer com crises mais frequentes e mais graves. Mas não podemos colocar as pessoas em uma bolha, por isso a doença deve ser tratada", ressalta o neurologista.
Fatores ambientais podem ajudar ou piorar a doença
A enxaqueca tem um componente genético, mas existem vários fatores de risco para o agravamento da doença. "Alguns deles são os chamados fatores de risco modificáveis. Ou seja, coisas sobre as quais as pessoas podem ter algum controle, como tabagismo, obesidade, restrição de sono e uso excessivo de medicamentos e estimulantes. Infelizmente, alguns outros fatores de risco são considerados não modificáveis, como histórico familiar de enxaqueca e ser do sexo feminino. As mulheres manifestam mais quadros de enxaqueca do que os homens, cerca de três vezes mais, segundo estudos populacionais. As oscilações do estrogênio (na menstruação, ovulação, gravidez e menopausa) afetam a excitabilidade neuronal e a liberação de neurotransmissores, como serotonina e CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina) e isso acaba por potencializar mais a doença nas mulheres", explica Tiago.
A cafeína ajuda a tornar a doença crônica
Para quem convive com enxaqueca, se afastar da cafeína é fundamental, segundo o médico. "A cafeína modifica a forma como o cérebro responde aos estímulos relacionados à dor. O cérebro do paciente com enxaqueca já apresenta uma tendência maior a reagir de maneira intensa a luzes, sons, odores e alterações hormonais. Quando há consumo frequente de cafeína, essa reatividade aumenta ainda mais, dificultando que o cérebro retorne ao seu funcionamento normal", explica.
O problema é que a cafeína não está presente apenas no café. "Embora o café seja a principal fonte de cafeína na alimentação, muitos pacientes continuam ingerindo a substância por meio de produtos considerados inofensivos. Entre os principais exemplos estão: chocolates, especialmente os com maior concentração de cacau; chás estimulantes, como chá-preto, chá-verde, chá-mate e chá branco; refrigerantes à base de cola e de guaraná, inclusive as versões zero açúcar; bebidas energéticas; analgésicos que contêm cafeína na composição; cremes anticelulite; e cremes para a região dos olhos e olheiras", enumera o especialista. "Muitas vezes a pessoa está evoluindo muito bem no tratamento, começa a usar um creme anticelulite ou um creme para a área dos olhos com cafeína e volta a apresentar piora das crises", afirma o neurologista.
Analgésicos de venda livre, além de não tratar, pioram a doença
De acordo com o médico, o tratamento adequado é fundamental para a redução do risco de progressão da doença. "O risco de enxaqueca crônica aumenta quando as pessoas têm três ou mais dias de crises de enxaqueca por mês e, principalmente, quando utilizam muitos remédios de crise que cronificam a doença pela cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Esses medicamentos, como analgésicos e anti-inflamatórios de venda livre, não tratam a doença e, quanto mais remédios você toma, menos eles funcionam e mais dor você sente. É um quadro conhecido como cefaleia por uso excessivo de medicamentos. Além disso, esses remédios podem prejudicar a eficácia dos tratamentos de primeira linha", alerta o médico.
Tratamentos preventivos são essenciais
O especialista explica, de forma didática, que o disparo de uma crise de enxaqueca faz um caminho neuronal e, quanto mais frequente esse caminho é feito, mais forte ele fica, por isso um tratamento efetivo atua na redução da frequência desse caminho e não no fim deste, que seria a crise de dor. "Explicando de forma alegórica, quanto mais frequentemente o caminho é percorrido, mais fácil é para o cérebro encontrá-lo na próxima vez e maior a probabilidade de o cérebro percorrer o caminho da crise de enxaqueca novamente. Tentar deixar as plantas crescerem sobre o caminho pode evitar que ele se torne maior com o tempo. Isso deve incluir tratamentos preventivos, que visam reduzir o número de crises e aumentar a quantidade de tempo que o cérebro passa fora do caminho das crises de enxaqueca", explica o médico.
O Botox é aplicado de maneira diferente e ajuda a descronificar a enxaqueca
Embora seja o mesmo princípio ativo usado na estética, o objetivo e a forma de aplicação são completamente diferentes. No tratamento da enxaqueca, apenas a toxina botulínica tipo A é aprovada, sendo aplicada com foco no bloqueio nervoso, e não muscular. "Na estética, a ideia é relaxar o músculo. Na enxaqueca, buscamos bloquear o nervo. O efeito estético que pode surgir, especialmente na região da testa, é apenas um efeito colateral do tratamento neurológico", esclarece o especialista.
"A toxina botulínica age no neurônio sensitivo, impedindo a liberação de vesículas que transmitem o estímulo doloroso ao cérebro. Quando interrompemos esse processo repetidamente, o cérebro começa a desfazer o caminho da dor que havia aprendido - e que culminava na dor. É por isso que, ao longo do tratamento, a frequência das crises diminui", explica o neurologista Tiago.
Os gatilhos perdem força quando a doença é tratada
"Durante muito tempo, o tratamento da enxaqueca ficou baseado em evitar tudo o que pudesse desencadear uma crise. O problema é que isso pode restringir profundamente a vida da pessoa", explica o médico. "O objetivo hoje é controlar a doença para que o cérebro fique menos sensível aos estímulos. Quando a enxaqueca está bem tratada, muitos gatilhos perdem força e o paciente consegue voltar a tomar uma taça de vinho ocasionalmente, comer determinados alimentos, viajar, frequentar ambientes iluminados ou aproveitar momentos de lazer sem viver com medo constante de uma nova crise", enfatiza o médico. "Em outras palavras, tratamos a enxaqueca para devolver qualidade de vida e autonomia ao paciente, e não para colocá-lo em uma bolha de restrições", finaliza.
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