Entenda como deve funcionar o uso pediátrico do Mounjaro no Brasil
Anvisa liberou medicamento para jovens com diabetes tipo 2. Especialistas explicam quando o remédio é indicado, os riscos e a relação da doença com a obesidade infantil.A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a ampliação do uso da tirzepatida, comercializada como Mounjaro, para o tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes de 10 a 17 anos no Brasil.
A decisão leva para o público pediátrico um medicamento já difundido entre adultos, inclusive fora das indicações originais, e acende o debate sobre o avanço de terapias até então vetadas a um público mais jovem.
A aprovação ocorre em um cenário de aumento da obesidade infantil, um dos principais fatores associados ao desenvolvimento do diabetes tipo 2. Diferentemente do tipo 1, que tem origem autoimune, o tipo 2 está, na maioria dos casos, ligado ao excesso de peso, à resistência à insulina e a fatores como alimentação e sedentarismo.
No Brasil, ainda não há um número fechado de casos nessa faixa etária. Uma estimativa da Sociedade Brasileira de Diabetes, baseada em estudos populacionais, indica que cerca de 3,3% dos jovens podem ter a doença - o equivalente a cerca de 200 mil crianças e adolescentes. "É bastante coisa. E isso vem aumentando muito mais. É uma doença mais grave nas crianças, por isso a importância [do tratamento]", afirma Ana Luiza Lelot, endocrinologista pediátrica do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo.
Segundo ela, o avanço do diabetes tipo 2 acompanha o aumento do excesso de peso entre os mais jovens. "Hoje, cerca de uma em cada três crianças e adolescentes já tem excesso de peso, e a projeção é que esse número chegue a 50% até 2035. É um cenário preocupante, principalmente em países subdesenvolvidos", diz.
A especialista destaca ainda que as duas condições caminham juntas. "A obesidade eleva em 60% o risco de você ter diabetes tipo 2. A maioria dos pacientes com a doença tem excesso de peso."
Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2026, da World Obesity Federation, cerca de 6,6 milhões de crianças entre 5 e 9 anos vivem com sobrepeso ou obesidade no país. Entre os jovens de 10 a 19 anos, esse número chega a 9,9 milhões, totalizando aproximadamente 16,5 milhões de brasileiros de 5 a 19 anos acima do peso.
Como o medicamento age
A tirzepatida atua de forma diferente de terapias anteriores ao combinar dois mecanismos em um só tratamento. Em vez de agir sobre apenas um hormônio, o medicamento estimula simultaneamente receptores ligados a duas incretinas, substâncias produzidas pelo intestino que ajudam a regular a glicose e o apetite.
Na prática, isso favorece uma resposta metabólica mais eficiente, ajudando a controlar o açúcar no sangue e contribuindo também para a redução de peso, um fator importante no diabetes tipo 2.
Esse efeito é especialmente relevante em crianças e adolescentes, grupo em que o desequilíbrio metabólico pode surgir cedo e evoluir ao longo da vida.
Para especialistas, o avanço da diabetes nessa faixa etária exige diagnóstico mais precoce e abordagem estruturada. "Não é mais uma doença restrita a idosos. Hoje, vemos cada vez mais adolescentes com diabetes tipo 2, muitas vezes já com complicações, após anos de obesidade", afirma a endocrinologista pediátrica Hana Moniz, do Hospital Vitória, no Rio de Janeiro.
Quando o tratamento é indicado para crianças e adolescentes
Segundo os médicos, o tratamento não é a primeira abordagem recomendada para lidar com a doença. A tirzepatida foi aprovada para casos de diabetes tipo 2 e tende a ser considerada principalmente quando não há controle adequado com terapias já consolidadas, como metformina, insulina ou outros análogos hormonais.
"A criança precisa preencher critério, tem que de fato ter diabetes. O uso indiscriminado realmente é algo que a gente tem visto muito entre adultos e a ideia é que isso não se reflita na adolescência. A ideia é que a gente use para tratar quem precisa mesmo", diz Moniz.
Resultados de estudos clínicos ajudam a explicar o interesse pelo medicamento nessa faixa etária. Um ensaio internacional publicado na revista The Lancet mostrou que a tirzepatida levou a uma redução significativa dos níveis de glicose no sangue em adolescentes com diabetes tipo 2, além de queda no índice de massa corporal.
As médicas ressaltam que o diagnóstico precoce é fundamental, especialmente diante de sinais como aumento de sede e fome, mal-estar, infecções de repetição na pele e candidíase.
De acordo com Lorena Lima Amato, endocrinologista pela Faculdade de Medicina da USP, o diabetes tipo 2 costuma surgir com mais frequência na puberdade, quando fatores hormonais se somam ao excesso de peso e à predisposição genética.
Nesses casos, o tratamento medicamentoso pode ajudar no controle da glicemia, na redução do índice de massa corporal e na prevenção de complicações precoces.
Tirzepatida não é bala de prata, alertam médicos
Ainda assim, Amato reforça que a tirzepatida não é uma solução isolada para o diabetes tipo 2. "Não é cura e não substitui acompanhamento nutricional, atividade física e mudanças no estilo de vida", afirma.
Moniz concorda: "É um medicamento potente, com resultados promissores, mas não substitui mudanças de estilo de vida nem deve ser usado de forma indiscriminada", pontua a endocrinologista pediátrica.
Como qualquer tratamento, o uso pode causar efeitos adversos. Os mais comuns, de acordo com a endocrinologista pediátrica Louise Cominato, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia regional de São Paulo, são desconfortos gastrointestinais, como náuseas, diarreia ou constipação.
No caso da obesidade sem diabetes, a tirzepatida ainda não tem indicação formal no Brasil. Hoje, medicamentos como liraglutida e semaglutida são os que possuem aprovação para adolescentes a partir dos 12 anos, sempre como complemento à dieta, atividade física e dentro de protocolos específicos.
Fatores de risco para diabetes são múltiplos
O avanço do diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes está ligado a um conjunto de fatores que se sobrepõem e não a uma causa isolada. Especialistas apontam que genética, hábitos de vida e condições sociais ajudam a explicar o aumento dos casos nos últimos anos.
Para Moniz, o ambiente atual tem favorecido o crescimento da obesidade nesta faixa etária."A gente vive hoje em um contexto que estimula esses quadros. Crianças têm menos espaços seguros para brincar, passam mais tempo em telas e têm uma rotina muito menos ativa do que há algumas décadas", afirma. Segundo ela, o sedentarismo e o uso excessivo de dispositivos eletrônicos estão entre os principais fatores por trás dessa mudança.
A alimentação também tem papel nesse cenário. O aumento do consumo de produtos ultraprocessados, mais baratos e amplamente disponíveis, contribui para o ganho de peso precoce. "Esses alimentos acabam sendo mais acessíveis do que opções saudáveis, especialmente em populações de menor nível socioeconômico, o que aumenta o risco de obesidade e, a longo prazo, de diabetes", explica Lelot.
Além disso, outros elementos do cotidiano influenciam o desenvolvimento da doença. Privação de sono, horários irregulares e alterações no padrão de descanso também estão associados a mudanças no metabolismo e ao aumento do peso.
Outros tratamentos disponíveis
Apesar do avanço com o Mounjaro, o tratamento do diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes é estruturado em etapas e não depende de uma única medicação.
"Existem três camadas principais: prevenção, tratamento clínico e, em situações selecionadas, tratamento farmacológico para obesidade", explica Amato.
A base continua sendo a mudança de estilo de vida, com alimentação adequada, prática de atividade física, sono regular e acompanhamento multiprofissional. Quando há diagnóstico da doença, o tratamento no sistema público prioriza essas medidas associadas ao uso de metformina e, se necessário, insulina.
"Isso funciona em muitos casos, mas o diabetes tipo 2 em jovens costuma evoluir mais rápido, o que pode exigir outras abordagens", afirma Amato.
A terceira frente envolve o uso de medicamentos mais recentes, especialmente em quadros selecionados. No Brasil, adolescentes com obesidade já contam com aprovações regulatórias para fármacos como liraglutida e semaglutida. Agora, para casos de diabetes tipo 2 a partir dos dez anos, soma-se a tirzepatida. "Mas aprovação regulatória não significa acesso amplo pelo SUS", ressalta Amato, indicando que a disponibilidade dessas terapias ainda é limitada na rede pública.
Nos últimos anos, as opções terapêuticas têm aumentado, aproximando-se do que já existe para adultos. Medicamentos da classe das incretinas, como os análogos de GLP-1, passaram a ser estudados e incorporados em situações específicas. "Até pouco tempo, as opções eram basicamente metformina e insulina. Agora, essas novas medicações vêm sendo avaliadas primeiro para diabetes e depois também para obesidade", diz Cominato.
A aprovação brasileira não é isolada. Agências reguladoras internacionais nos EUA e na Europa já haviam liberado o uso do medicamento para esse público. "O Brasil não é o primeiro, mas está entre os países que acompanharam relativamente cedo essa ampliação de indicação", afirma Amato.
Ela ressalta, no entanto, que a liberação não deve ser interpretada como solução simples. "Não é uma 'caneta de emagrecimento' para qualquer criança, nem resolve sozinho a epidemia de obesidade infantil", diz.
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