Demência no Brasil: como a alimentação pode proteger o cérebro
Especialistas explicam como a alimentação influencia a saúde cerebral e pode ajudar a prevenir ou retardar a demência
O Relatório Nacional sobre a Demência alerta que até 2050, quase 6 milhões de brasileiros podem ser diagnosticados com a condição. Contudo, 45% dos casos poderiam ser evitados com mudanças de hábitos, incluindo alimentação. Dietas como Mediterrânea, DASH e MIND são importantes aliadas na proteção do cérebro e na prevenção de doenças neurodegenerativas. 🍇🥦
O envelhecimento saudável do corpo e da mente começa pelo que você coloca no prato
Um alerta para todos nós: até 2050, quase 6 milhões de brasileiros serão diagnosticados com demência. A projeção faz parte do Relatório Nacional sobre a Demência, publicado em 2024. Atualmente, estima-se que cerca de 8,5% da população já convive com a condição — número possivelmente subnotificado nos sistemas de saúde.
O que torna tudo mais urgente é que, no mesmo relatório, foi constatado que 45% dos casos poderiam ser evitados ou retardados por meio de mudanças de hábito. Como a demência é multifatorial, ela é diretamente influenciada por condições como hipertensão, diabetes, obesidade e sedentarismo. É exatamente aí que a nutrição entra como peça-chave: adotar mudanças alimentares conscientes é um dos passos mais fundamentais para combater esses fatores de risco e blindar o cérebro. Por isso, a Revista Malu conversou com dois especialistas sobre como a nutrição influencia o envelhecimento cerebral. Confira!
Nutrição para a mente
A relação entre alimentação e envelhecimento cerebral deixou de ser uma hipótese para se tornar uma das áreas mais sólidas da neurociência nutricional. "Hoje sabemos que a dieta influencia diretamente mecanismos envolvidos no desenvolvimento das principais doenças neurodegenerativas, incluindo Alzheimer e outras formas de demência", destaca Verônica Dias, nutricionista integrativa e farmacêutica do Instituto Nutrindo Ideais.
Isso acontece porque a saúde cerebral depende de um conjunto de nutrientes que atuam na proteção dos neurônios, na comunicação entre as células nervosas e na prevenção de processos inflamatórios e oxidativos. Entre os principais, destacam-se:
- Ácidos graxos ômega-3: Gorduras saudáveis encontradas principalmente em peixes, sementes e oleaginosas. O DHA e o EPA são essenciais por serem componentes estruturais das membranas neuronais.
- Vitaminas do complexo B (B6, B12 e ácido fólico): Desempenham um papel fundamental na manutenção da função cognitiva. Pois participam do metabolismo da homocisteína (substância no sangue que, quando elevada, está associada a um maior risco cardiovascular e cognitivo).
- Minerais e Antioxidantes: Outros nutrientes importantes incluem a vitamina D, a colina (essencial para a formação de neurotransmissores), o magnésio, o zinco, o ferro e as vitaminas C e E. Além deles, os polifenóis (compostos bioativos com ação antioxidante e anti-inflamatória) presentes em frutas vermelhas, cacau, café, chá-verde e azeite de oliva são indispensáveis.
"Esses compostos ajudam a reduzir o estresse oxidativo (desequilíbrio causado pelo excesso de radicais livres que danificam as células) e a inflamação cerebral, fatores intimamente relacionados ao envelhecimento cognitivo", complementa Wellington Douglas Rocha Rodrigues, nutricionista no ambulatório de Reumatologia Pediátrica da Unifesp e coordenador do curso de Nutrição das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).
Escolhendo a dieta
Existem três dietas 'padrão-ouro' quando se fala em manter a saúde do cérebro. A nutricionista Verônica Dias esclarece quais são elas:
- Dieta Mediterrânea: Continua sendo a mais estudada. "Ela é caracterizada pelo alto consumo de vegetais, frutas, azeite de oliva extravirgem, peixes, leguminosas, oleaginosas e baixa ingestão de alimentos ultraprocessados. Diversos estudos associam esse padrão alimentar a uma menor atrofia cerebral, melhor desempenho cognitivo e menor risco de doença de Alzheimer."
- Dieta DASH: Apresenta benefícios importantes, especialmente por melhorar fatores cardiovasculares que impactam diretamente o cérebro, como hipertensão, inflamação vascular e disfunção endotelial. "Vale lembrar que o cérebro depende de um fluxo sanguíneo adequado para receber oxigênio e nutrientes. Portanto, proteger o sistema cardiovascular é também proteger a saúde cerebral."
- Dieta MIND: É a que tem se destacado mais recetemente. Ela combina características da Dieta Mediterrânea e da DASH, mas com foco específico em neuroproteção. "Seus pilares incluem vegetais verdes-escuros, frutas vermelhas, azeite de oliva, peixes, oleaginosas e alimentos ricos em compostos antioxidantes e anti-inflamatórios."
Se você não sabe por onde começar, o primeiro passo é sempre buscar um nutricionista ou nutrólogo para estruturar um plano alimentar adequado, que leve em conta todo o seu histórico.
Quando se fala em se alimentar bem, uma regra de ouro que ajuda muito é: 'Descasque mais, desembale menos', ou seja, dê preferência para a comida de verdade e fuja de ultraprocessados. "Os padrões alimentares mais protetores são aqueles que reduzem a neuroinflamação, preservam a sensibilidade à insulina, favorecem a saúde vascular, alimentam uma microbiota intestinal diversa e fornecem compostos capazes de proteger os neurônios contra o estresse oxidativo. Por isso, mais importante do que seguir uma dieta da moda é adotar um padrão alimentar sustentável, rico em alimentos naturais e densos em nutrientes", orienta Verônica.
Não é só para prevenir a demência
Claro que repensar a alimentação antes de algum sintoma aparecer é fundamental, mas Wellington esclarece que, mesmo para quem já convive com os sintomas, mudanças na dieta são essenciais para retardar o avanço do quadro. "Embora algumas alterações estruturais possam ser irreversíveis, a boa notícia é que o cérebro mantém certa capacidade de adaptação ao longo da vida. É o fenômeno conhecido como neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de criar novas conexões e reorga-
nizar suas funções."
Essas melhorias na dieta, em conjunto com a prática regular de atividade física, sono adequado e estímulos cognitivos, podem melhorar significativamente a função cerebral, a memória, a atenção e a qualidade de vida, mesmo em indivíduos que apresentaram hábitos inadequados durante anos. "Quanto mais precoce for a intervenção, maiores tendem a ser os benefícios", conclui o especialista.
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