"Eu não sentia absolutamente nada": biólogo de 43 anos descobriu câncer silencioso durante exame de rotina
Especialistas reforçam a importância dos exames preventivos para o diagnóstico de doença no rim, que avança sem sinais
Aos 43 anos, o biólogo Alexandre Vaz recebeu uma notícia que mudaria completamente sua vida. Sem sentir qualquer sintoma e mantendo uma rotina saudável, com prática regular de atividade física, ele descobriu um tumor de quase três centímetros no rim direito durante um exame de rotina.
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Em 2018, Alexandre procurou atendimento médico para investigar alterações relacionadas à gordura no fígado. Como parte da avaliação, foi submetido a um ultrassom abdominal. O exame, solicitado inicialmente para acompanhar o quadro, acabou revelando algo inesperado: um tumor no rim.
“Eu não sentia absolutamente nada. Fazia atividade física, corria, bebia água normalmente. Minha urina era normal. Não tinha nenhum sintoma”, relembra. A descoberta precoce foi determinante para o sucesso do tratamento e reforça uma das principais mensagens defendidas pelos especialistas: exames simples podem salvar vidas.
A história de Alexandre ilustra uma das principais características do câncer de rim: o silêncio. Considerado um dos tumores urológicos mais silenciosos, o câncer renal costuma não apresentar sintomas nas fases iniciais e, em muitos casos, é descoberto por acaso, durante exames de rotina ou avaliações realizadas por outras razões.
Esse é o cenário de uma doença que afeta principalmente homens entre 50 e 70 anos e que tem no tabagismo seu principal fator de risco. O alerta ganha ainda mais importância neste 18 de junho, quando é celebrado o Dia Mundial de Conscientização do Câncer de Rim.
Entre 2021 e 2024, o câncer de rim foi responsável por 12.414 mortes no Brasil, segundo dados do Painel de Monitoramento da Mortalidade do Ministério da Saúde. Do total, 7.900 óbitos ocorreram entre homens e 4.514 entre mulheres, confirmando que a doença atinge cerca de duas vezes mais o público masculino.
A tendência é de crescimento. Projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a incidência do câncer renal pode crescer cerca de 79,5% no Brasil até 2050, impulsionada principalmente pelo envelhecimento populacional e pela exposição a fatores de risco como tabagismo, obesidade e sedentarismo.
Tumor costuma não apresentar sintomas
Segundo o nefrologista Bruno Piubelli, a ausência de sintomas é uma das principais características do câncer de rim. "O grande problema é que, na maioria das vezes, o câncer de rim permanece silencioso até estágios mais avançados. O paciente pode não sentir absolutamente nada", explica.
Quando surgem sinais, eles geralmente indicam uma doença mais avançada. Entre os sintomas estão sangue na urina, dores lombares, perda de peso, febre persistente, anemia, cansaço excessivo e inchaço nas pernas.
A presença de sangue na urina, conhecida como hematúria, merece atenção especial. "Sempre que um paciente apresenta sangue na urina, é necessário investigar. Pode ser uma pedra nos rins ou um cisto, mas também pode ser um câncer", alerta o especialista.
De acordo com Bruno, a maioria dos diagnósticos acontece de forma acidental, durante exames de rotina realizados por outras razões.
"Muitas vezes o paciente faz um exame de sangue, ultrassom, uma tomografia ou uma ressonância por outro motivo e acaba descobrindo um nódulo no rim. Quando investigamos, identificamos que se trata de um câncer."
Tabagismo dobra o risco do câncer de rim
Embora fatores como obesidade, hipertensão arterial, diabetes e histórico familiar também aumentem o risco da doença, o cigarro continua sendo o principal vilão.
"O tabagismo tem uma relação muito forte com o câncer de rim e também com o câncer de bexiga. Entre pessoas que já possuem outros fatores de risco, quem fuma pode ter até o dobro de chance de desenvolver a doença", destaca Bruno.
O especialista explica que o risco está relacionado tanto ao tempo de exposição quanto à quantidade de cigarros consumidos ao longo da vida. Embora a interrupção do hábito reduza gradualmente os danos ao organismo, ex-fumantes ainda podem apresentar risco aumentado em comparação com pessoas que nunca fumaram.
Diagnóstico precoce aumenta chances de cura
Quando identificado precocemente, o câncer de rim apresenta altas taxas de cura. Em muitos casos, a cirurgia para retirada do tumor é suficiente para resolver o problema. "Se o câncer está localizado e não há sinais de metástase ou invasão de outros órgãos, a remoção cirúrgica pode ser o tratamento definitivo. O prognóstico costuma ser muito bom", afirma o nefrologista.
Dependendo do tamanho e da localização do tumor, o procedimento pode envolver apenas a retirada do nódulo ou, em alguns casos, do rim afetado. A avaliação é realizada por um urologista.
Após o tratamento, os pacientes continuam sendo acompanhados periodicamente para monitorar possíveis recidivas. Alexandre conhece bem essa rotina. Oito anos após a cirurgia, ele continua realizando exames regularmente. "Mesmo sabendo que estou curado, toda vez que vou fazer uma tomografia, ressonância ou ultrassom, dá aquela preocupação de o médico encontrar alguma coisa novamente, mas continuo realizando meus exames anualmente", relata.
Exames simples podem salvar vidas
Para o especialista, a principal mensagem é a importância dos exames preventivos. Além dos exames laboratoriais de rotina, o ultrassom abdominal é considerado uma ferramenta acessível e eficaz para detectar alterações ainda nas fases iniciais.
"São exames simples, relativamente baratos e capazes de fornecer muitas informações sobre a saúde. Muitas vezes conseguimos identificar um nódulo precocemente e encaminhar o paciente para tratamento antes que a doença avance", explica Bruno.
Para reduzir os riscos, os médicos recomendam abandonar o cigarro, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente, controlar o peso corporal e acompanhar doenças como hipertensão e diabetes.
Ao olhar para trás, Alexandre acredita que a decisão de realizar exames preventivos foi fundamental. "As pessoas dizem que foi um achado, mas eu acredito que foi uma oportunidade que Deus colocou na minha vida. Se eu tivesse esperado mais tempo, talvez o câncer pudesse ter se espalhado. Por isso eu digo para todo mundo: façam seus exames de rotina. Eles podem salvar."
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