Script = https://s1.trrsf.com/update-1768488324/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Emagrecedores: especialistas defendem controle maior

Compartilhar
SIMONE SARTORI

Há cerca de um ano o cabeleireiro Josh Rodrigues, 32 anos, foi a um médico endocrinologista com o objetivo de perder peso. Com 1.73m e 75kg, o seu Índice de Massa Corporal (IMC) indicava que ele havia ultrapassado o nível considerado adequado. Na consulta, embora orientado a fazer atividades físicas e a mudar seus hábitos alimentares, o cabeleireiro considerou que o remédio seria a única fórmula para conseguir emagrecer.

"Passei metade da minha vida fazendo reeducação alimentar e, mesmo assim, sempre tinha a restrição de não poder comer alguma coisa. O remédio, além de eliminar peso, me deu mais disposição e resolveu meu problema de insônia", afirma. A sibutramina está na lista da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que apresentou em fevereiro proposta de retirada dos inibidores de apetite do mercado brasileiro. Curiosamente, a insônia é um dos possíveis efeitos colaterais do medicamento.

Anvisa quer proibir venda

A venda da sibutramina é controlada e, desde março de 2010, só pode ser vendida com a apresentação da receita azul B2. A embalagem também mudou de tarja vermelha para preta. Uma fiscalização rigorosa na venda e controle maior na distribuição de receituário são os principais argumentos de médicos, endocrinologistas e nutrólogos sobre a intenção da Anvisa, que realizou no dia 23 de fevereiro uma audiência pública para discutir a proibição dos inibidores de apetite (anfepramona, mazindol, femproporex e sibutramina). A proposta foi "bombardeada" por especialistas, que consideram a decisão um retrocesso no tratamento da obesidade no Brasil.

"Comércio ilícito"

A endocrinologista Claudia Cozer, diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), cita um levantamento da Anvisa para justificar que a fiscalização na prescrição de receitas, neste momento, é mais importante que a proibição da venda dos inibidores.

"Segundo um levantamento da Anvisa, os endocrinologistas estão em 5º lugar entre os que mais prescrevem moderadores de apetite. Tem oftalmologista, dermatologista na nossa frente. Talvez restringir o receituário para algumas especialidades seria uma alternativa para controlar o uso abusivo e irregular. Essa proposta da Anvisa é um estímulo ao comércio ilícito", diz Claudia Cozer. Questionada sobre quem seriam os maiores prescritores de remédios para emagrecer no Brasil, a Anvisa respondeu que "esta informação não está disponível".

Membro do Departamento de Endocrinologia do Hospital de Clínicas de São Paulo e da Abeso, o médico Márcio Mancini também critica a proibição dos remédios e vê no controle da distribuição de receitas uma alternativa para o consumo exagerado de inibidores de apetite no País. De acordo com a Anvisa, só em 2009, foram vendidos 3t de anfepramona, 1,8t de sibutramina, 1t de femproporex e 2kg de mazindol.

"O abuso é tanto do prescritor quanto de quem havia a receita. A Anvisa sabe muito bem onde estão essas receitas, porque fiscaliza e porque dá essa numeração. Se uma clínica vai na Vigilância Sanitária e pede 10 mil números de receituário, alguma coisa está estranha. Se existe abuso, existe abuso no fornecimento da numeração para fazer o talonário de notificação de receita também", acredita.

Do outro lado da corrente, o cardiologista Marcelo Ferraz Sampaio, doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, chefe do Laboratório de Biologia Molecular do Instituto Dante Pazzanese e vice-diretor clínico do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, se manifesta a favor da proibição dos inibidores de apetite, mas defende que o controle deve ser maior do que o praticado atualmente.

"Na maioria das vezes, quem precisa emagrecer são pessoas que têm outros fatores de risco para doenças cardíacas (pressão alta, diabetes, por exemplo). Por isso, essa medicação não pode ficar à disposição de qualquer profissional para prescrição. O que defendemos é uma proibição geral com amplo estudo em sequência e, depois, uma liberalização baseada nesses critérios", afirma o cardiologista.

O que preocupa os médicos, contra ou a favor da proibição dos medicamentos, é o caráter estético que se confunde com a real necessidade de tratar a doença. "Quem deve receber esses remédios são os pacientes com obesidade, sobrepeso e doenças associadas a esse excesso de peso. O Brasil, porém, tem quase uma tradição de automedicação, e isso também é um responsabilidade da Anvisa", afirma o endocrinologista Márcio Mancini, membro do Departamento de Endocrinologia do HC e da Abeso.

Sibutramina para "dar um 'up'"

A assistente de vendas Elizabeth Martins, 28 anos, afirma que não tem mais dificuldades para manter o peso, porém, ela nunca foi ao médico para tentar emagrecer. O uso de sibutramina se deu "por conta própria", há cinco anos, na tentativa de eliminar cerca de 12kg extras. Ela afirma que descobriu o medicamento com base em pesquisas na internet e na experiência de amigas.

Para Elizabeth, o resultado da automedicação foi "satisfatório", mesmo com as mudanças de humor e sintomas de estresse e de depressão. "Além de emagrecer, eu tomava para dar um 'up'", diz ela, que parou de tomar a sibutramina há cerca de um ano. Com 1.60m e atuais 60kg, o seu Índice de Massa Corporal (IMC) é de 23,4 e é considerado sobrepeso, de acordo com a tabela indicada pelo Ministério da Saúde.

Segundo o médico-chefe do Centro de Toxicologia do Hospital de Clínicas, Anthony Wong, a favor da retirada dos inibidores do mercado brasileiro, a obesidade é caracterizada por fatores psicológicos, culturais ou sociais e hormonais e hereditários. "A pessoa come além do que pode e precisa comer para satisfazer a compulsão. Além do problema hereditário, há o problema hormonal, que pode ser consequência ou causa. Em nenhum desses casos é necessário o tratamento com anorexígenos para controle", garante.

Wong afirma que os problemas cardiovasculares não representam o maior risco para quem consome inibidores de apetite, mas sim os psiquiátricos e neurológicos. Segundo ele, um estudo do HC mostra que o uso de anfetaminas e remédios anorexígenos (para emagrecer) é a segunda maior causa de internações psiquiátricas por substância química, só perdendo para o álcool. "O uso de anfetaminas leva à dependência física psíquica, produz paranoias e transtornos graves", diz.

Pressionada, Anvisa adia decisão

A Anvisa adiou no dia 23 de fevereiro, em audiência, a decisão final sobre a proposta de proibir os inibidores de apetite no País e se dispôs a ampliar o debate após críticas dos especialistas. Mas não definiu data para a decisão. "Neste momento, a Anvisa está reunindo as informações necessárias e os dados apresentados por diversos setores para que possa ser tomada a melhor decisão. O documento divulgado pela Anvisa foi elaborada na esfera técnica da agência", informa a Anvisa por meio de sua assessoria. A agência também rebate um eventual aumento de casos de obesidade em caso de proibição dos medicamentos no Brasil.

Sobre a reivindicação dos médicos por um controle maior na prescrição dos medicamentos e fiscalização na venda, a Anvisa diz que sua proposta é discutir a "segurança" dos inibidores de apetite. "A discussão proposta pela Anvisa não é sobre o controle e sim sobre a segurança destes medicamentos. Os dados científicos que mostram a desvantagem na relação risco-benefício destes produtos estão sendo avaliados dentro de um cenário de consumo adequado e orientado. O que os estudos apontam é que, mesmo com o uso adequado e controlado, estes medicamentos são desvantajosos".

Foto: Getty Images
Fonte: Terra
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra