Da depressão ao próprio negócio: empresária descobriu autismo após anos de desafios
Eliane Dalla Vecchia enfrentou dificuldades financeiras, começou a vender produtos pela internet e construiu seu próprio negócio; anos depois, o diagnóstico de autismo trouxe uma nova compreensão sobre sua trajetória
Após superar a depressão e graves crises financeiras vendendo cosméticos importados pela internet sem estoque inicial, a empresária Eliane Dalla Vecchia fundou sua própria marca nacional de beleza. Em 2025, ela recebeu o diagnóstico tardio de autismo, o que trouxe autoconhecimento sobre sua trajetória e revelou como traços da neurodivergência, como hiperfoco e identificação de padrões, impulsionaram suas soluções nos negócios, apesar dos constantes desafios de comunicação e adaptação social.
Uma trajetória que começou com a venda de bombons e artesanato acabou se transformando em um negócio de alcance nacional no setor de beleza. Mas, entre uma coisa e outra, a empresária Eliane Dalla Vecchia atravessou dificuldades financeiras, enfrentou uma depressão, precisou encontrar maneiras de recomeçar e, anos depois, recebeu um diagnóstico que mudou a forma como enxergava a própria história.
Em 2025, Eliane descobriu ser autista. O diagnóstico tardio a ajudou a compreender características que a acompanharam durante boa parte da vida, incluindo sua maneira direta de se comunicar, a atenção intensa aos detalhes, o hiperfoco e a facilidade para identificar padrões. A descoberta também trouxe uma nova perspectiva sobre os obstáculos que enfrentou ao longo da carreira - inclusive aqueles que, durante muito tempo, ela não sabia nomear.
Antes do sucesso, uma fase marcada pela depressão
Nascida em Goiânia e criada em uma família simples, Eliane começou a empreender ainda jovem, vendendo bombons e peças de artesanato. Mais tarde, formou-se em marketing e logística e chegou a trabalhar como funcionária de uma empresa.
Em 2012, porém, sua vida profissional e pessoal passou por uma mudança profunda após enfrentar uma depressão. As dificuldades chegaram também à vida financeira e, segundo a empresária relatou à Forbes em 2023, houve momentos em que precisou contar com a ajuda de pessoas próximas até mesmo para se alimentar.
Curiosamente, uma oportunidade começou a surgir durante esse período. Ao ajudar uma amiga a procurar pela internet artigos de decoração para uma festa infantil, Eliane percebeu que diversos produtos poderiam ser comprados diretamente de fornecedores chineses por preços baixos.
"Como não dormia por conta da depressão, eu ficava conversando com os chineses a madrugada inteira e aquele negócio me chamou a atenção", contou. O interesse rapidamente se transformou em uma possibilidade de renda. Mas existia um obstáculo importante: ela não tinha dinheiro para formar um estoque.
Do Facebook ao próprio negócio
Sem dinheiro para investir em estoque, Eliane encontrou uma saída nas vendas pela internet. Ela anunciava maquiagens importadas no Facebook e, com o pagamento antecipado das clientes, conseguia comprar os produtos e obter uma margem sobre cada venda.
"Eu percebi que tinha muita maquiagem à venda nesses sites, então eu comecei a vender esses produtos no Facebook", contou. "Eles custavam R$ 10, eu vendia por R$ 20 e explicava que o produto iria chegar em dois meses na casa das clientes."
Com o crescimento da procura, Eliane ampliou a operação e passou a vender para diferentes regiões do Brasil. A popularização dos batons líquidos trouxe uma nova oportunidade e a aproximou de fabricantes nacionais. "Em seis meses, estava chegando mais de uma tonelada de batom na minha casa e deu muito certo."
Depois de ganhar experiência no atacado e enfrentar problemas trabalhando com produtos de terceiros, ela decidiu dar o passo seguinte e criar sua própria marca de cosméticos, transformando a alternativa de renda que havia encontrado em meio a um período difícil em um negócio próprio.
Diagnóstico de autismo trouxe uma nova leitura sobre a própria trajetória
Mais de uma década depois daquele recomeço, Eliane passou por outra descoberta importante. Em 2025, recebeu o diagnóstico de autismo já na vida adulta. A partir daí, algumas características que anteriormente poderiam ser interpretadas apenas como traços de personalidade passaram a fazer sentido dentro da neurodivergência.
Uma delas está relacionada à comunicação. Eliane tende a se expressar de maneira objetiva e literal, especialmente no ambiente profissional. Uma instrução que, para ela, representa simplesmente uma informação direta pode ser interpretada por outras pessoas como excessivamente fria ou rígida.
A dificuldade não está necessariamente no que deseja comunicar, mas nas convenções sociais que frequentemente acompanham as conversas - algo que pode exigir um esforço adicional de pessoas autistas.
Ao longo da vida, Eliane também relata ter se esforçado para reproduzir determinadas formas de interação social, inclusive conversas informais que não surgiam naturalmente para ela. Esse processo de adaptação constante consumia energia e contribuía para períodos intensos de esgotamento. O diagnóstico permitiu que ela passasse a compreender essas experiências por uma perspectiva diferente.
Características que também influenciaram sua maneira de empreender
Ao mesmo tempo em que algumas características trouxeram desafios, outras estiveram presentes justamente nos momentos de expansão profissional.
Eliane identifica em si uma grande capacidade de reconhecer padrões, aprofundar-se rapidamente em assuntos que despertam seu interesse e buscar soluções pouco convencionais. O hiperfoco também faz parte desse funcionamento: quando um tema desperta sua atenção, ela consegue dedicar grande intensidade ao aprendizado e à resolução de problemas.
Olhando para sua trajetória, é possível encontrar essas características em diferentes momentos - desde as madrugadas conversando com fornecedores estrangeiros até a busca por alternativas quando não tinha recursos para comprar estoque ou quando percebeu uma demanda que não estava sendo atendida.
Isso não significa que o autismo, por si só, determine habilidades ou dificuldades. O transtorno do espectro autista se manifesta de maneiras diferentes em cada pessoa. No caso de Eliane, porém, o diagnóstico ofereceu ferramentas para compreender particularidades que estiveram presentes durante toda a sua vida.
Autoconhecimento depois de anos tentando se adaptar
O diagnóstico tardio de autismo em mulheres não é uma experiência incomum. Algumas conseguem atravessar infância e vida adulta desenvolvendo estratégias para esconder ou compensar características associadas ao espectro, processo frequentemente chamado de mascaramento.
No ambiente profissional, isso pode significar observar e reproduzir comportamentos sociais esperados, preparar mentalmente interações ou gastar uma quantidade significativa de energia tentando interpretar códigos implícitos. Para Eliane, entender seu próprio funcionamento trouxe uma nova maneira de olhar para a mulher que começou vendendo produtos pela internet em meio a uma das fases mais difíceis de sua vida.
Sua história não segue uma trajetória linear de superação. Houve dificuldades financeiras, problemas de saúde mental, obstáculos profissionais e desafios de comunicação que continuaram existindo mesmo depois do crescimento do negócio. Mas há um fio que atravessa diferentes capítulos dessa trajetória: a capacidade de encontrar alternativas diante de situações que pareciam não oferecer muitas saídas.
Da venda de bombons e artesanato à criação de um negócio próprio no setor de cosméticos, Eliane construiu sua carreira enquanto também aprendia sobre si mesma. E o diagnóstico recebido tantos anos depois não mudou quem ela era - mas ajudou a dar nome e contexto a características que sempre estiveram presentes em sua história.
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