Cosméticos com cheiro e cara de doce: a estratégia de marketing que virou válvula de escape
De maquiagens inspiradas em sobremesas a embalagens com apelo sensorial, marcas transformam rituais de autocuidado em mimos e pequenas indulgências
Milkshakes, chantilly, brigadeiro, torta de limão e glazed donuts. Basta rolar o feed das redes sociais para perceber que os cosméticos do mercado de beleza estão cada vez mais parecidos com a vitrine de uma confeitaria sofisticada.
Vídeos destacando texturas aveludadas, fragrâncias açucaradas e embalagens "apetitosas" viralizam diariamente. No entanto, mais do que uma escolha estética passageira, essa tendência revela uma mudança profunda na forma como consumimos cosméticos. O produto deixa de vender apenas ativos tecnológicos e passa a oferecer uma experiência sensorial e lúdica.
A estratégia do "mimo" e do luxo acessível com cosméticos
Na opinião dos especialistas entrevistados pela revista 'Elle', o uso de doces nas campanhas visuais — consagrado por marcas globais como a Rhode, de Hailey Bieber — ativa gatilhos emocionais de desejo e recompensa.
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Conexão com a infância: A associação entre doces e merecimento nasce cedo. O cosmético saboroso funciona como o "docinho" após um dia cansativo.
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Luxo acessível: Desde o século XIX, a delicadeza dos doces é usada pela publicidade para vender um estilo de vida sofisticado por um preço viável.
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Experiência sensorial: Textura, aroma e embalagem transformam a rotina de cuidados em um pequeno ritual de prazer pessoal.
Nesse sentido, ao posicionar um hidratante em cenários açucarados, as marcas transformam a compra. O produto deixa de ser visto como um gasto fútil e ganha o status de um merecido presente.
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A contradição: indulgência sem calorias na era do hipercontrole
Por outro lado, pesquisadores e críticos de cultura apontam uma forte tensão por trás desse fenômeno. O boom dos produtos com aroma de sobremesa coincide com uma era de hipercontrole do corpo, impulsionada por dietas ultrarrestritivas e pelo uso crescente de medicamentos para perda de peso.
Para a pesquisadora Iza Dezon, em um contexto de privação alimentar, os cosméticos doces funcionam como uma válvula de escape psicológica. "Existe um interesse por esses cheiros e gostos como oportunidade de sentir indulgência sem necessariamente transformar isso em alimentação", disse à revista.
A crítica de beleza Jessica DeFino, por sua vez, reforçou, ao site 'Beauty Matter', esse olhar provocativo, destacando que produtos com temática de comida oferecem uma forma alternativa de consumir o prazer do doce sem quebrar os padrões estéticos impostos pela sociedade.
Em suma, a tendência das sobremesas na beleza prova que um simples gloss de chocolate vai muito além da maquiagem: é uma ferramenta sofisticada de marketing que conversa diretamente com os nossos desejos, memórias e contradições culturais.
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