'Viver a Vida' evidencia intromissão da mãe na vida do filho
Patricia Zwipp
Ingrid, personagem de Natália do Vale na novela global Viver a Vida, não poupa esforços para fazer com que os filhos Miguel e Jorge, vividos por Mateus Solano, tenham a vida que imaginou para eles. Dá palpite em tudo, critica suas decisões sem parar e tenta afastá-los das namoradas que não a agradam. Já chegou a dizer que "mãe pode tudo". Os gêmeos ficam insatisfeitos, não seguem as suas vontades e as brigas são constantes.
pais "dominadores"
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Mães que se intrometem excessivamente também são assunto nas telonas. No filme Minha Mãe Quer Que Eu Case, de 2007, Daphne (Diane Keaton) decide encontrar o namorado ideal para sua caçula, Milly (Mandy Moore), cuja vida amorosa é repleta de desilusões. Sem pedir a opinião da jovem, coloca um anúncio em um site de relacionamentos e seleciona um pretendente. Quando a armação é descoberta, a reação da filha obviamente não é das melhores: fica extremamente magoada e sem falar com Daphne.
O longa A Sogra, de 2005, por sua vez, conta a história da mãe Viola (Jane Fonda), que acabou de ser demitida do emprego e não quer perder também o filho, Kevin (Michael Vartan). Por isso, faz de tudo para separá-lo de Charlotte (Jennifer Lopez), sua nova parceira.
Situações como essas não são exclusividades da ficção. A bancária Erika Morais, de 26 anos, se irrita com a mãe porque ela reclama sempre de suas atitudes e quer saber de sua vida detalhadamente. Todos os namoros e empregos têm ao menos uma pitada de intromissão dela, segundo a jovem. "Uma vez, estava esperando uma resposta de emprego extremamente importante. Quando a moça ligou, minha mãe perguntou de onde era, quanto era o salário, perguntas que nem eu teria coragem de fazer. Passei em todas as etapas e, misteriosamente depois dessa ligação, que só soube quando vi o nome e o telefone em uma agenda dias depois, ninguém me ligou mais. Perguntei quem era e ela disse que uma doida estava me procurando. E o pior: ela que me contou que fez essas perguntas", disse.
Erika disse que já discutiu muito, mas hoje percebe que é o jeito da mãe e não conseguiria mudá-lo. "Preciso respeitar e também impor os meus limites. Eu amo minha mãe, mas sei que serei totalmente independente somente quando sair de casa."
Pais
Não são apenas as mães que podem ganhar a fama de "abelhudas". Alguns pais recebem esse rótulo. "Tradicionalmente, a mãe é que teria mais esse tipo de atitude, porque a mulher é educada para cuidar. No entanto, isso está mudando, porque elas conquistaram espaço no mercado de trabalho. Muitos casos hoje são relacionados aos pais", afirmou o psicólogo e psicoterapeuta Antonio Carlos Amador Pereira, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC)/SP.
Esse é o caso de M.C., 25. Não considera que o pai tenha lhe prejudicado de alguma forma, mas as suas intromissões atrapalham a convivência, principalmente por ser teimoso e dificilmente aceitar a opinião alheia.
O seu comportamento passou a incomodar quando M. começou a dar os primeiros passos para sua independência, ao ingressar no mercado de trabalho. "Quando era adolescente, pensava às vezes: 'OK, ainda não tenho muita moral nem capacidade para peitá-lo'. Mas ficando mais velha, comecei a argumentar. Nisso surgiram alguns estresses, mas também soluções." A sua maior meta agora é ter condições financeiras para sair de casa e viver longe das "asas" do pai.
Na novela Caminho das Índias, da TV Globo, era o indiano Opash (Tony Ramos) quem dava "pitaco" na vida dos seus descendentes, até por conta da cultura daquele país retratada na história. Chegou a separar Raj (Rodrigo Lombardi) da brasileira Duda (Tania Khalill), porque a moça não tinha a mesma cultura e religião.
Comportamento
Os motivos que levam pais e mães a quererem participar mais do que deveriam da vida da prole podem ser os mais variados. Entre eles estão excesso de zelo e apego, gostar de controlar tudo, ter sido criado da mesma forma, querer que faça o que não conseguiu, dificuldade em aceitar que as crianças cresceram.
Muitas vezes, nem percebem, mas se prejudicam com esse comportamento. "Preocupar-se com o filho é absolutamente normal, mas viver em função dessa preocupação, não. A pessoa acaba se anulando e vive menos plenamente", disse Pereira. "É essencial aprender a cuidar de si, fazer coisas boas para si. Se não consegue isso, a terapia pode ser um meio de ajuda para identificar as alternativas positivas."
Dependendo de como é o relacionamento em casa, os jovens podem se tornar passivos, rebeldes, dependentes. Existe a possibilidade ainda de alguns terem dificuldade de se relacionar ou apresentarem baixa autoestima. Afastar-se dos pais também é um dos resultados possíveis.
Quando o assunto em questão é crítica, o psicólogo ressaltou que são necessárias, quando não extrapolam na dose. "O problema é o excesso delas. Se a pessoa só critica e não dá espaço para nada, pode fazer com que o outro tenha medo de errar, se torne muito sensível a críticas." Sugestões são bem-vindas quando há espaço para se pensar sobre elas e, então, agir da maneira que achar melhor.
Limites
A frase "as pessoas devem criar os filhos para o mundo" se encaixa perfeitamente ao assunto. Segundo Angélica Capelari, professora de psicologia da Universidade Metodista de São Paulo, a participação dos pais é maior quando os filhos são crianças, porque estão aprendendo a ter informações para optar. Conforme crescem, esse envolvimento deve diminuir, para que possam fazer suas escolhas e, inclusive, "quebrar a cabeça".
Na opinião de Pereira, relacionamentos ruins pedem conversas francas. Se não resolvem, muitas vezes a situação só apressa o ato natural dos filhos saírem de casa.