Invisíveis na sala de aula: por que a superdotação ainda é ignorada nas escolas do Brasil
Ideia de que o aluno superdotado só tira nota alta atrasa a identificação e gera frustração, ansiedade e isolamento emocional
Associciar a superdotação unicamente a estudantes com boletins impecáveis ou desempenho extraordinário em todas as matérias é um dos maiores erros da educação moderna. No Brasil, milhares de crianças com altas habilidades passam anos sendo ignoradas no ambiente escolar justamente por não se encaixarem nesse estereótipo.
Dados do Censo Escolar revelam que menos de 44 mil estudantes estão identificados na educação básica em todo o país — um número absurdamente baixo que evidencia o subdiagnóstico, especialmente entre meninas, alunos da rede pública e crianças com dupla excepcionalidade.
Quando a superdotação se confunde com indisciplina
Primeiramente, em muitos casos, é importante ressaltar que a superdotação manifesta-se por meio de uma curiosidade voraz, pensamento criativo e raciocínio acelerado em temas de interesse. Por outro lado, a falta de estímulo adequado para esse ritmo de aprendizagem costuma gerar tédio, desatenção e até comportamentos tidos como "indisciplinados".
"Ainda existe a ideia de que a superdotação é sinônimo de notas altas e facilidade em tudo. Na prática, encontramos crianças extremamente inteligentes que sofrem justamente porque suas características não são reconhecidas. Quando isso acontece, elas podem desenvolver frustração, ansiedade, baixa autoestima e desmotivação", alerta a psiquiatra Fabricia Signorelli, especialista em transtornos do neurodesenvolvimento pela Unifesp.
Nesse sentido, a especialista reforça que o incômodo do aluno é frequentemente mal interpretado: "Nem sempre uma criança com altas habilidades será aquela que apresenta as melhores notas ou o comportamento esperado pela escola. Então, muitas vezes, o desinteresse por determinadas atividades, a inquietação ou os questionamentos constantes são interpretados de forma equivocada, quando podem estar relacionados à falta de estímulos adequados", explica.
Quem mais sofre com o subdiagnóstico?
A dificuldade em mapear e acolher os estudantes com altas habilidades atinge grupos específicos de forma ainda mais severa:
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Meninas: Costumam mascarar o próprio potencial intelectual para se adaptar socialmente aos grupos de convivência.
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Rede pública: Enfrenta escassez de avaliações multidisciplinares e de programas de enriquecimento curricular.
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Dupla excepcionalidade: Ocorre quando a superdotação vem acompanhada de TDAH ou autismo (TEA). As barreiras do transtorno acabam encobrindo o alto potencial cognitivo.
O que muda com o diagnóstico correto
Por fim, diagnosticar a superdotação não é um rótulo para criar privilégios, mas sim uma ferramenta para garantir equidade pedagógica e saúde mental.
"Identificar significa garantir que cada criança tenha acesso aos estímulos de que realmente precisa. Quando a escola e a família compreendem esse perfil, é possível oferecer desafios compatíveis com seu potencial, favorecer o desenvolvimento socioemocional e reduzir o risco de sofrimento psicológico", conclui.
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