Hikikomori: entenda o fenômeno que faz jovens se isolarem do mundo
Fenômeno descrito inicialmente no Japão envolve isolamento social extremo e pode fazer jovens passarem meses ou até anos praticamente sem sair de casa
O hikikomori é um fenômeno de isolamento social extremo que leva jovens a passarem meses ou anos confinados em casa, substituindo a vida presencial pela internet. Sem diagnóstico psiquiátrico formal, o quadro decorre de pressões sociais, traumas, bullying ou transtornos associados. O uso intenso de telas atua como fuga e agravante do problema. O tratamento requer apoio psicoterapêutico e suporte familiar empático, priorizando o acolhimento gradual em vez da pressão para forçar o retorno social.
Ficar alguns dias em casa, recusar um convite ou preferir momentos sozinho faz parte da vida e, por si só, não representa um problema. Existe, porém, uma diferença enorme entre gostar de ficar em casa e praticamente desaparecer da convivência social.
Em situações extremas, adolescentes e adultos jovens podem passar meses (e até anos) praticamente restritos ao próprio quarto ou a outro ambiente da casa. Escola, trabalho, encontros com amigos e atividades presenciais deixam de fazer parte da rotina, enquanto boa parte do contato com o mundo acontece por meio da internet.
Esse padrão de isolamento intenso ficou conhecido como hikikomori, termo surgido no Japão que pode ser traduzido livremente como "isolado em casa". Inicialmente associado à sociedade japonesa, o fenômeno deixou de ser visto como uma questão exclusivamente cultural e passou a ser observado também em outros países.
O assunto, inclusive, ganhou espaço no congresso Encéphale 2026, realizado em janeiro, na França. "É uma situação grave. No Japão, chega a atingir de 1% a 2% dos adolescentes. No restante do mundo, ainda não há uma estimativa epidemiológica bem estabelecida", explica o psiquiatra Alfredo Maluf, do Einstein Hospital Israelita, ao Estadão.
Hikikomori é uma doença?
Apesar de ser chamado popularmente de "síndrome de hikikomori", o fenômeno não possui uma categoria diagnóstica própria em importantes manuais utilizados na área da saúde mental, como a Classificação Internacional de Doenças (CID) e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).
Na prática clínica, compreender o que está por trás do isolamento é uma parte fundamental da avaliação. Isso porque o comportamento pode surgir sozinho ou acompanhado de outros transtornos.
Os casos costumam ser divididos em hikikomori primário e secundário. No primeiro, o isolamento intenso aparece sem que outra condição psiquiátrica explique o comportamento. No segundo, há associação com quadros como depressão, ansiedade, fobia social, esquizofrenia ou transtornos do neurodesenvolvimento.
Ou seja, não basta perceber que alguém passa muito tempo no quarto para concluir que se trata de hikikomori. É necessário avaliar duração, intensidade, prejuízos provocados pelo afastamento e possíveis condições associadas.
O que faz um jovem se isolar dessa maneira?
Não existe uma única explicação. O isolamento extremo pode resultar da combinação de aspectos emocionais, sociais, familiares e comportamentais. Baixa autoestima, dificuldade para estabelecer vínculos, experiências traumáticas na infância e histórico de bullying estão entre os fatores relacionados ao fenômeno. Conflitos e dificuldades nas relações familiares também podem fazer parte desse contexto.
Em alguns casos, características associadas ao transtorno do espectro autista (TEA) ou ao transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) também podem estar presentes e contribuir para dificuldades de interação social.
Pressões externas merecem atenção especial. Cobranças relacionadas ao desempenho escolar, futuro profissional, relacionamentos e expectativas sociais podem se tornar particularmente difíceis para alguns jovens.
Nesse cenário, afastar-se do mundo pode funcionar inicialmente como uma tentativa de escapar de situações que provocam sofrimento, frustração ou sensação de inadequação. Aos poucos, porém, aquilo que começou como uma forma de proteção pode tornar a retomada da vida social cada vez mais difícil.
E qual é o papel das telas?
Quando se fala em jovens isolados dentro de casa, celulares, computadores e videogames aparecem quase imediatamente na discussão. Mas a relação não é tão simples quanto dizer que a internet provoca o hikikomori.
O uso excessivo das telas pode funcionar tanto como parte do problema quanto como consequência dele. Uma pessoa que já se afastou das relações presenciais naturalmente pode passar muito mais tempo conectada. Afinal, é por meio da internet que ela encontra entretenimento, informação e, muitas vezes, as poucas interações sociais que ainda mantém.
Por outro lado, o uso intenso do ambiente digital também pode favorecer comportamentos de dependência e tornar ainda mais difícil lidar com experiências fora das telas.
Segundo Maluf, esse padrão pode vir acompanhado de irritabilidade, ansiedade e menor tolerância às frustrações do cotidiano. Por isso, olhar apenas para a quantidade de horas passadas na internet pode esconder uma questão mais importante: o que aquele jovem deixou de fazer porque está isolado?
Os sinais podem começar discretamente
O hikikomori não necessariamente surge de um dia para o outro. Em muitos casos, o afastamento acontece progressivamente. Primeiro, o jovem pode começar a recusar encontros. Depois, perde o interesse por atividades que exigem sair de casa. A rotina de sono pode se inverter, o tempo conectado aumenta e a convivência presencial diminui cada vez mais.
Entre os comportamentos que merecem atenção estão o abandono gradual de atividades sociais, afastamento da escola ou do trabalho, irritabilidade, alterações importantes no sono, recusa persistente de contato presencial e aumento expressivo do tempo passado no ambiente virtual.
A chamada desadaptação social é apontada pelo psiquiatra como um dos principais sinais de que o isolamento deixou de ser apenas uma preferência e começou a provocar prejuízos reais na vida.
Esse é um ponto importante porque uma pessoa introvertida, por exemplo, pode preferir programas tranquilos e poucos amigos sem deixar de estudar, trabalhar, cuidar de si ou manter relações significativas. No hikikomori, o afastamento alcança outro nível e compromete áreas importantes da rotina.
Pressionar a pessoa a sair do quarto pode piorar a situação
Diante de alguém que praticamente interrompeu a vida social, familiares podem acreditar que insistir para que a pessoa saia de casa, encontre amigos ou "volte à vida normal" seja a melhor solução. Mas a recuperação tende a exigir um processo muito mais cuidadoso.
O tratamento é definido de acordo com as necessidades de cada pessoa e com a presença ou não de outros transtornos. A psicoterapia pode ocupar um papel importante, incluindo abordagens como a terapia cognitivo-comportamental. Medicamentos também podem ser indicados quando existem sintomas ou condições associadas que justifiquem seu uso.
A participação da família é outro elemento relevante, mas não no sentido de obrigar o jovem a retomar imediatamente todas as atividades que abandonou. "Além disso, o envolvimento da família é peça-chave no processo. Estratégias baseadas no acolhimento, e não na pressão, tendem a ser mais eficazes para reconstruir vínculos e estimular, gradualmente, a retomada da vida social", orienta o médico.
Mais do que simplesmente "tirar alguém do quarto", portanto, é necessário compreender o sofrimento que levou aquela pessoa a se fechar para o mundo. Quando o isolamento começa a comprometer estudo, trabalho, autocuidado e relações, procurar ajuda profissional pode ser o primeiro passo para que essa reconexão aconteça de maneira segura e possível.
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