Férias escolares: por que as mães são as maiores afetadas?
O problema não são as férias, mas a pressão para dar conta de tudo ao mesmo tempo que acaba causando a sobrecarga materna
As férias escolares, ao contrário do que parece, podem ser um período exaustivo para muitas mães, envolvendo acúmulo de tarefas e desgaste emocional. Segundo a psicóloga Tattiana Aserra, a sobrecarga e a culpa impactam a saúde mental e reforçam a ideia de que ser mãe não deve significar a anulação da própria identidade. ❤️
Culpa, excesso de responsabilidades e perda da própria identidade estão entre os principais desafios vividos pelas mães
As férias escolares costumam ser retratadas como um período de descanso, viagens e tempo em família. Mas, para muitas mães, o recesso dos filhos representa exatamente o oposto: uma rotina ainda mais intensa, marcada por acúmulo de tarefas, culpa e a sensação de que nunca estão fazendo o suficiente além de muitas levarem os filhos junto no trabalho durante as férias.
Conciliar trabalho, cuidados com as crianças, organização da casa, atividades de lazer e, ao mesmo tempo, corresponder às expectativas sociais de ser uma "boa mãe" pode transformar as férias em um período de grande desgaste físico e emocional.
Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Tattiana Aserra, o que pesa não é apenas o aumento das demandas práticas, mas a carga emocional que acompanha esse período.
"Durante as férias, muitas mães continuam trabalhando, mas também assumem a responsabilidade de entreter os filhos, criar memórias, organizar passeios e garantir que as crianças aproveitem o recesso. É como se precisassem exercer várias jornadas simultaneamente, sem autorização para descansar", afirma.
A falsa necessidade de escolher entre ser mãe e ser mulher
Para a especialista, um dos maiores conflitos da maternidade contemporânea nasce da ideia de que a mulher precisa escolher quem será em cada momento.
"Existe uma falsa necessidade de escolha. Como se trabalhar significasse abandonar os filhos, ou cuidar das crianças significasse abrir mão completamente de si mesma. Essa lógica fragmenta a identidade feminina e produz sofrimento constante."
Segundo Tattiana, essa divisão faz com que muitas mulheres sintam culpa em qualquer cenário.
"Se trabalha, sente culpa por não estar presente. Já se para de trabalhar, sente culpa pela carreira. Se tira um tempo para si, acredita que está sendo egoísta. Se dedica exclusivamente aos filhos, muitas vezes deixa de reconhecer quem era antes da maternidade."
Quando sobra apenas a mãe
A neuropsicóloga explica que um dos efeitos mais silenciosos da maternidade é a perda gradual da identidade individual.
"Muitas mulheres deixam de ser vistas — e passam também a se enxergar — apenas como mães. Aos poucos desaparecem os espaços destinados aos próprios desejos, aos projetos pessoais, ao descanso e até às relações sociais. Quando isso acontece por muito tempo, é comum surgir a sensação de que aquela mulher deixou de existir."
Essa percepção tende a ficar ainda mais evidente durante as férias escolares, quando as demandas dos filhos aumentam e o tempo pessoal diminui.
"Não é raro ouvir mães dizendo que esperam o fim das férias para conseguir respirar novamente. Isso não significa falta de amor pelos filhos. Significa apenas que ninguém consegue sustentar uma rotina de cuidado permanente sem também ser cuidado."
Integrar as identidades também é cuidar da saúde mental
Para a especialista, o caminho não está em tentar equilibrar perfeitamente todos os papéis, mas em integrar as diferentes identidades que fazem parte da vida da mulher.
"A mulher não deixa de existir quando se torna mãe. Ela continua sendo profissional, companheira, filha, amiga e, principalmente, uma pessoa com necessidades próprias. A saúde mental melhora quando essas identidades convivem, em vez de competirem entre si."
Ela ressalta que cuidar de si não representa abandono dos filhos. "Uma mulher não precisa desaparecer para ser mãe e para que os filhos cresçam bem".
"Descansar, pedir ajuda, dividir responsabilidades e reservar momentos para si não diminuem a maternidade. Pelo contrário. Quanto mais inteira essa mulher consegue permanecer, mais saudável tende a ser sua relação com os filhos."
Sinais de que a sobrecarga materna merece atenção
Segundo Tattiana Aserra, alguns comportamentos indicam que a carga emocional ultrapassou o limite saudável:
- Sensação constante de exaustão, mesmo após dormir.
- Irritabilidade frequente com situações pequenas.
- Culpa permanente por qualquer decisão.
- Sensação de que deixou de existir além da maternidade.
- Perda do interesse por atividades que antes davam prazer.
- Dificuldade para pedir ou aceitar ajuda.
- Choro fácil, ansiedade ou sentimento de incapacidade.
"Uma mãe não precisa desaparecer para que os filhos cresçam bem. Crianças também aprendem quando observam uma mulher que cuida de si, respeita seus limites e entende que amor não significa anulação. A maternidade não deve apagar a identidade feminina, mas fazer parte dela", conclui a psicóloga e neuropsicóloga Tattiana Aserra.
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