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Como as chuteiras rosa na Copa levantam questões sobre moda, masculinidade e futebol

Dados de busca, relatos de marcas e leitura cultural ajudam a entender por que a cor se tornou fenômeno nos campos

30 jun 2026 - 12h07
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Casemiro usa chuteiras da Adidas, marca que lançou a edição Road to Glory das novas Predator e F50 para a Copa do Mundo 2026
Casemiro usa chuteiras da Adidas, marca que lançou a edição Road to Glory das novas Predator e F50 para a Copa do Mundo 2026
Foto: Adidas/Divulgação / Estadão

As chuteiras cor-de-rosa se tornaram um marco nesta Copa do Mundo. Desde o primeiro dia do Mundial, a cor aparece nos pés da maioria dos atletas de diferentes seleções e patrocinados por marcas concorrentes. A coincidência — ou não — segue despertando curiosidade e interesse fora dos campos. Só no Brasil, as buscas por "chuteira rosa da Copa" cresceram 1450% desde o início do torneio, com picos nos dias dos jogos da seleção brasileira na primeira fase.

Nike, Adidas, Puma e New Balance apostaram em modelos rosa para seus principais atletas, criando uma unanimidade estética em um ambiente comumente marcado pela diferenciação entre marcas. Poucos jogadores fogem da tendência, como Messi, que usa uma chuteira branca e azul da Adidas, e Cristiano Ronaldo, com um modelo dourado exclusivo da Nike. Para a maioria dos demais atletas, porém, a escolha não é pessoal. Embora as chuteiras sejam um dos poucos itens em que os jogadores podem exibir a marca de seus patrocinadores individuais, os contratos costumam exigir o uso dos modelos fornecidos pelas fabricantes.

As marcas apontam razões semelhantes para a escolha nesta Copa. Procurada pelo Estadão, a Adidas afirmou que o rosa é uma das cores mais visíveis em campo e que a tonalidade une desempenho, visibilidade e autoexpressão. A Nike destacou que cores ousadas fazem parte do DNA da linha Mercurial e que o tom vibrante adotado nesta edição da Copa traduz energia, velocidade e ousadia. Já a Puma relaciona a escolha ao legado de lançamentos anteriores da marca e ao impacto visual gerado pelas cores intensas nas transmissões esportivas.

Estratégia de cor e disputa por atenção

A escolha do rosa entre marcas concorrentes ganha outra interpretação quando observada a partir da lógica do mercado esportivo e do atual momento do futebol.

"Quando clubes, seleções, atletas e marcas esportivas incorporam o rosa em uniformes, campanhas ou produtos, eles contribuem para ampliar o repertório de significados associados ao masculino e à masculinidade não tóxica, o que é importante também pensarmos", complementa a coordenadora acadêmica.

Apesar de avanços recentes, o futebol ainda é marcado por episódios recorrentes de machismo e homofobia. Um relatório divulgado pela CBF em 2023, com base em levantamento do Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+, apontou aumento de 76% nos casos de homofobia no futebol brasileiro em 2022, em comparação ao ano anterior.

Embora hoje a cor rosa possa ser popularmente associada ao universo feminino, ligada à ideia de afeto, doçura e delicadeza, essa leitura nem sempre existiu. A professora de moda da ESPM Panamericana explica que a associação entre o rosa e a feminilidade só começou a se consolidar a partir da década de 1940, impulsionada pela indústria da moda, pelo mercado infantil, pela publicidade e por estratégias de segmentação do consumo.

Em séculos passados, o rosa aparecia com frequência no vestuário masculino, assim como saias e vestidos. "Aquilo que hoje parece uma convenção natural é, na verdade, resultado de processos históricos e culturais relativamente recentes", afirma Andreia.

Considerando o contexto de marketing, comportamento, sociedade e história do futebol, o destaque das chuteiras cor-de-rosa nesta Copa do Mundo poderia ser entendido como um questionamento aos padrões — ainda que, na prática, esteja inserido em contratos, estratégias de marca e decisões da indústria.

Na avaliação de Andreia, esse movimento revela uma mudança maior do que a escolha de uma cor. "A popularização do rosa vai além de uma tendência cromática. Ela pode ser compreendida como um indicador das mudanças nas formas de expressão das identidades contemporâneas, refletindo uma sociedade que tende a aceitar maior diversidade estética, comportamental e simbólica", conclui.

Estadão
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