Caso Orelha: especialista alerta para falhas na formação emocional de jovens
Neurocientista explica como a falta de empatia e limites pode se manifestar em comportamentos violentos na adolescência
A morte brutal do cachorro comunitário Orelha, em Santa Catarina, gerou comoção nacional e reacendeu um debate profundo sobre violência, empatia e formação emocional de crianças e adolescentes. O animal, conhecido e cuidado por moradores da região, foi agredido e morto por adolescentes, em um episódio que provocou indignação nas redes sociais e repercussão em todo o país.
Para a neurocientista Telma Abrahão, especialista em desenvolvimento infantil e escritora best-seller, o choque coletivo diante do crime não pode se limitar à indignação momentânea. "O Brasil parou para chorar a morte do Orelha, mas o que realmente deveria nos tirar o sono é o que está sendo cultivado no coração dos adolescentes que fizeram isso. Precisamos olhar para além do crime e enxergar o vazio emocional que ele revela", afirma.
Segundo a especialista, a capacidade de sentir a dor do outro, humana ou animal, não é inata, mas construída ao longo do desenvolvimento. "A neurociência mostra que empatia não nasce pronta. Ela é ensinada, regada diariamente pelo vínculo, pelo exemplo e, principalmente, pelos limites. Quando um adolescente é capaz de torturar um ser indefeso, isso aponta para uma falha grave nesse processo", explica Telma.
Limites aos filhos
Ela alerta que a ausência de limites não deve ser confundida com liberdade. "Onde falta o limite amoroso, nasce a indiferença. A falta de limites não é liberdade, é abandono moral. Quando não ensinamos uma criança a respeitar um animal, estamos falhando em ensiná-la a respeitar um ser humano", diz.
Para Telma, casos como o de Orelha não podem ser tratados como episódios isolados. "Esses jovens não brotaram do nada. Eles são frutos de uma cultura que evita o 'não', que transforma a dor do outro em entretenimento e que se omite diante da formação do caráter. A violência começa no silêncio da omissão", pontua.
A neurocientista destaca que o respeito à vida é um aprendizado cotidiano, construído dentro de casa. "A base da saúde mental e do caráter se forma no dia a dia: na presença, no exemplo, no amor e em limites respeitosos que ensinam que toda vida é sagrada. Uma criança que não aprende a sentir a dor de um animal dificilmente honrará a vida de um ser humano", reforça.
Reflexão importante após o caso Orelha
Ao final, Telma Abrahão propõe uma reflexão direta às famílias: "Que tipo de humanidade estamos plantando dentro de casa? Nossos filhos estão aprendendo compaixão e respeito ou estão aprendendo que o mundo gira em torno dos próprios desejos, custe o que custar? O Orelha se foi, mas a lição precisa ficar. A educação é o único antídoto contra a barbárie!".
Para a especialista, o futuro não se constrói apenas nas escolas, mas nos gestos cotidianos. "O futuro do mundo está na mesa do jantar, na forma como ensinamos nossos filhos a tratar quem não pode se defender", conclui.
*Fonte: Assessoria Márcia Stival