Cotas para negros podem gerar preconceito, afirmam fashionistas
A última novidade do São Paulo Fashion Week está causando polêmica no mundo da moda. É que nem todos concordam com o acordo feito entre o Ministério Público do Estado de São Paulo e a empresa Luminosidade Marketing & Produções, organizadora do evento. A idéia é de que as grifes escalem para o casting dos desfiles pelo menos 10% de modelos negros, afrodescendentes e indígenas nas passarelas, como forma de promover a inclusão social. O
Terraentrou em contato com vários estilistas e de agências de modelo, mas quase ninguém quis se pronunciar sobre a questão.
» Chat: tecle sobre o assunto
» vc repórter: mande fotos
e notícias
O estilista Jefferson Kulig, que apresenta suas coleções na semana de moda paulista, topou falar sobre o assunto. Ele acredita que a proposta pode ter efeito contrário. "A recomendação me parece uma imposição e a própria imposição gera preconceito. Isso (inclusão) deve ser abordado de um modo subliminar, inteligente e não tão agressivo", opina. O profissional ainda não sabe se a seguirá. "Depende da disponibilidade das modelos na época do casting."
Anderson Baugartner, dono da agência Way Model, tem opinião semelhante. "É mais ou menos combater um preconceito com outro". O empresário, que afirma não saber a porcentagem de modelos negros, afrodescendentes e indígenas no seu casting, supõe que o pedido possa levar a situações indesejadas. "Se o estilista escolher uma modelo negra apenas por isso, a menina vai ficar sabendo e gera um desconforto. Pode prejudicar o desfile se o estilista escolher alguém fora da sua proposta, seja loira, ruiva ou negra. Por exemplo, se procura um perfil mais brasileiro, não adianta nada colocar uma garota loira e com sardas."
O Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi assinado ontem entre o Ministério Público de São Paulo e a Luminosidade, dirigida por Paulo Borges. De acordo com comunicado divulgado nesta quarta pelo Ministério, de acordo com o TAC a empresa se compromete a adotar uma série de providências para estimular a inclusão social dos modelos no mundo da moda.
A Luminosidade terá de sugerir, por dois anos, a todas as grifes participantes do evento a utilização de pelo menos 10% de modelos negros, afrodescendentes ou indígenas. O TAC considera afrodescendente aquele com ascendência por consaguinidade até o 2º grau. A Luminosidade também "terá de enviar ao MP, no prazo de 30 dias, após cada edição, a comprovação de cumprimento da cláusula e a relação de todos os modelos, por desfile e por grife, apontando aqueles que se inserem nesse critério." Caso o evento não cumpra alguma das cláusulas, a multa será de R$ 250 mil.
"Não se trata de querer impor uma cota racial, mas de promover a inclusão social de afro-descendentes e indígenas nesse segmento", ressalta a promotora de Justiça coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Inclusão Social (Gaeis), Deborah Kelly Affonso. Caso alguma grife não cumpra o acordo, o MP estudará o caso. De acordo com a temática do desfile, a grife poderá apresentar justificativa para não seguir a recomendação.