Alerta no treino: quando o corpo avisa que algo não vai bem
O corpo dá sinais no treino que podem indicar problemas silenciosos e precisam de atenção
Desconfortos intensos podem servir de alerta para problemas de saúde, inclusive os silenciosos
Os indícios mais evidentes de que o treino está na intensidade correta são justamente o aumento da frequência cardíaca, a respiração acelerada e até a conhecida dor pós-treino que surge no dia seguinte — um leve incômodo muscular que desaparece em até 72 horas. Até aí, tudo dentro do esperado. Mas e quando há algo além disso?
Tontura, palpitações, falta de ar acentuada, dor no peito, suor frio, náuseas ou queda repentina de desempenho são exemplos de manifestações que sinalizam a ultrapassagem do limite do esforço saudável. "Esses sinais podem estar associados a condições cardiovasculares silenciosas, distúrbios hormonais — como hipotireoidismo —, anemia ou até desequilíbrios eletrolíticos", destaca Sebastião J. Rodrigues Junior, médico do esporte, professor da Faculdade de Medicina de Assis (Fema) e mestre em interações estruturais e funcionais na reabilitação.
Benefícios do treino
Todos conhecem os inúmeros benefícios dos exercícios para a saúde, mas esse aspecto é pouco ressaltado: mudanças bruscas no padrão de atividade física, como uma fadiga muito maior que o habitual, podem ser justamente o primeiro aviso de que algo não vai bem. "O corpo possui mecanismos de autorregulação muito precisos. Quando algo foge do padrão — seja no desempenho, na recuperação ou na resposta fisiológica ao exercício —, o organismo está emitindo um alerta", explica o médico.
Identificar esses sinais é essencial não apenas para prevenir lesões, mas também para detectar doenças em fases iniciais, quando o tratamento é mais eficaz. "A fadiga, por exemplo, é uma resposta fisiológica esperada ao exercício. No entanto, quando ela se manifesta de forma desproporional à intensidade do treino, ou vem acompanhada de sintomas, é preciso atenção."
O motivo é biológico
Uma rotina mais ativa significa, entre outras coisas, que o corpo está melhor preparado para situações de estresse físico. "O exercício físico é, em essência, um teste de estresse fisiológico. Ele exige que os sistemas cardiovascular, respiratório, endócrino e muscular trabalhem em sincronia. Quando há alguma disfunção oculta, ela tende a se revelar primeiro durante o esforço", complementa o especialista.
Alterações no desempenho, na tolerância ao treino ou na recuperação podem ser os primeiros indicadores de doenças que ainda não aparecem em exames laboratoriais convencionais. "Por isso, a prática supervisionada — unindo o olhar do educador físico ao acompanhamento médico — é uma das formas mais eficazes de detecção precoce de condições clínicas silenciosas."
Sinais de alerta no treino
Nem toda dor ou desconforto será sinal de problema, mas é preciso observar com equilíbrio e considerar a dificuldade em se recuperar do esforço. "A falta de ar esperada, por exemplo, surge gradualmente, acompanha a intensidade do esforço e melhora rapidamente quando o ritmo é reduzido. Já a dispneia patológica é súbita, desproporcional e tende a persistir mesmo após o término da atividade", explica Sebastião.
O mesmo raciocínio vale para a dor torácica: uma sensação de queimação muscular é comum, mas um aperto ou peso no peito que irradia para o braço, pescoço ou costas pode indicar isquemia cardíaca. "Nesses casos, o exercício está apenas revelando uma limitação que, em repouso, o organismo consegue compensar. Outro sinal de alerta é a queda brusca de rendimento durante o exercício, que pode indicar diversas disfunções metabólicas, como anemia, que reduz a capacidade de transporte de
oxigênio; hipotireoidismo, que diminui o metabolismo energético; e doenças inflamatórias ou infecciosas subclínicas, que interferem na recuperação muscular."
Nesses casos, é comum observar aumento da frequência cardíaca para cargas habituais e maior tempo de recuperação pós-esforço. O médico reforça que qualquer suspeita deve ser investigada por meio de exames laboratoriais e avaliação médica.
"Treine para sobreviver a uma UTI"
A frase impactante é da bióloga, influencer e divulgadora científica Mari Kruger, em um vídeo recente feito por ela e pelo influenciador Vittor Fernando, que em outubro sobreviveu a uma tentativa de homicídio após ter seu carro atingido por mais de 13 tiros. Uma das razões para sua sobrevivência? Justamente a vida saudável, com treinos regulares e acompanhamento de es pecialistas, apontados como fundamentais para o sucesso da internação. "Em uma semana internado, perdi 12 quilos, e esse tipo de perda expressiva é comum em pacientes de UTI, já que se fica muito tempo parado, deitado, e isso nos faz perder muita massa muscular", revelou.
Mari acrescentou explicando algo já amplamente documentado na literatura médica: "Em pacientes críticos, a perda de massa muscular pode chegar a 2% ao dia. Para se recuperar de um trauma, o corpo precisa de proteína, e a massa muscular pode ser a diferença entre a vida e a morte". Ou seja: um treino de qualidade não só nos alerta para possíveis problemas internos, como também fortalece o corpo para enfrentar traumas externos. Para 2026, tenha como meta também desenvolver músculos!