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A epidemia do pensamento acelerado: por que tanta gente não consegue desligar a mente?

Quando o corpo está cansado, mas a mente não desacelera, o excesso de pensamentos pode revelar um padrão silencioso de sobrecarga emocional

28 abr 2026 - 06h21
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Tem gente que deita o corpo, mas não consegue deitar a mente. O dia termina, as luzes se apagam, o silêncio chega. Mas dentro da cabeça, alguma coisa continua funcionando como se fosse meio-dia. Pensamentos se acumulam, cenas se repetem, conversas são reencenadas, preocupações ganham novas versões. A pessoa tenta relaxar, tenta se distrair, tenta dormir. E quanto mais tenta, mais parece que a mente insiste em continuar.

Não consegue desligar a mente? Entenda por que os pensamentos acelerados surgem, como a ruminação afeta a saúde mental e como desacelerar
Não consegue desligar a mente? Entenda por que os pensamentos acelerados surgem, como a ruminação afeta a saúde mental e como desacelerar
Foto: Reprodução: Canva/Charday Penn / Bons Fluidos

No consultório, isso aparece de forma muito clara. Pessoas que dizem que estão cansadas, mas não conseguem descansar é como se o corpo estivesse em uma maquinaria na qual o botão de desligar não funciona! querem parar de pensar, mas não conseguem. Uma paciente até me disse: "doutora, parece que tem um liquidificador na minha mente". A mente é um lugar barulhento, acelerado, difícil de controlar. Muitas vezes não é um pensamento específico que incomoda, mas a sensação de que não existe pausa.

Esse fenômeno não é raro. Na verdade, ele tem se tornado cada vez mais comum, existe uma espécie de padrão emergindo na forma como pensamos, sentimos e reagimos ao mundo. Um estado de aceleração constante, como se a mente tivesse perdido a capacidade de desacelerar sozinha.

Nesse contexto, entrevistei a Dra. Amanda Mota, especialista em psicogeriatria e saúde mental humanizada, que traz uma leitura muito precisa sobre o que estamos vivendo. Diante do "workaholismo" e da "corrida dos ratos" dos últimos tempos, viver com a mente acelerada, a curto prazo, pode até não ter consequências evidentes. Porém, pensar em tudo ao mesmo tempo, não conseguir desligar, pular de uma preocupação para outra e ainda chamar isso de "rotina" ou "normal", traz prejuízos e sofrimento clinicamente significativos em vários âmbitos da vida ao médio prazo.

Como psiquiatra, ela relata escutar com frequência frases como: "Dra, não posso parar" ou "Dra, quero um remédio para aumentar minha capacidade mental". E faz um ponto que muda completamente a forma de enxergar esse quadro: muitas dessas pessoas não estão exaustas pelo que fazem, mas pelo volume de pensamentos que não cessam  e que muitas vezes nem se conectam.

Na prática, esse excesso vai retirando algo essencial de forma silenciosa: a capacidade de descansar, de viver o hoje e até mesmo de sentir com clareza. Nem sempre isso significa um transtorno, mas é um sinal importante de que o ritmo cerebral já passou do que o corpo consegue sustentar. E talvez o ponto não seja pensar mais… mas começar a perceber e se perguntar: o quanto eu estou pensando  e o que isso tem me trazido? Evolução, prosperidade, autoconhecimento ou sofrimento?

Vale um teste simples. Pare por um minuto após essa leitura. Um minuto de verdade. E se faça essa pergunta. A primeira coisa importante de entender é que pensar não é um problema. O pensamento é uma das funções mais sofisticadas do cérebro humano. Ele nos permite planejar, antecipar, refletir, criar. O problema começa quando o pensamento deixa de ser uma ferramenta e passa a funcionar quase como um ruído de fundo permanente.

Em muitos casos, a mente não está resolvendo nada. Ela está repetindo. Voltando ao mesmo ponto, reorganizando as mesmas ideias, tentando antecipar cenários que nem existem ainda. É um tipo de atividade que dá a sensação de movimento, mas não necessariamente de resolução.

Esse padrão tem relação com um mecanismo bastante conhecido na psicologia, a ruminação. A ruminação acontece quando a mente fica girando em torno dos mesmos conteúdos, geralmente associados a preocupação, culpa, medo ou insegurança. Ao invés de produzir clareza, ela aumenta a sensação de desconforto.

Mas o que chama atenção hoje é que esse padrão não está mais restrito a pessoas com algum transtorno específico. Ele começa a aparecer em pessoas que, teoricamente, estão bem. Pessoas que trabalham, se relacionam, funcionam no dia a dia, mas que carregam uma sensação constante de inquietação mental. Uma parte dessa história tem a ver com o mundo em que estamos vivendo.

Vivemos em uma era de estímulo contínuo. A mente raramente fica em silêncio. Quando não estamos resolvendo algo, estamos consumindo alguma coisa. Vídeos, mensagens, notícias, conteúdos curtos, informações fragmentadas. Existe sempre alguma coisa ocupando o espaço mental.

Com o tempo, o cérebro se adapta a esse padrão. Ele começa a funcionar em um estado de alerta constante, sempre esperando o próximo estímulo, a próxima informação, a próxima demanda. E quando esse estímulo não vem, a própria mente começa a produzi-lo. É como se o silêncio passasse a ser desconfortável.

Além disso, existe uma mudança importante na forma como nos relacionamos com o futuro. Hoje, as pessoas são constantemente expostas a possibilidades, expectativas, comparações. A mente começa a tentar antecipar tudo. O que pode dar errado, o que poderia ser melhor, o que ainda falta conquistar.

Esse excesso de antecipação gera um tipo específico de ansiedade. Não é necessariamente um medo concreto. É uma sensação difusa de que algo precisa ser resolvido o tempo todo.

O cérebro, nesse contexto, funciona como um sistema de previsão. Ele tenta reduzir incertezas, organizar cenários, prever consequências. O problema é que, quando o ambiente é instável e cheio de variáveis, esse sistema entra em hiperatividade. A mente passa a trabalhar sem pausa, tentando controlar algo que, na prática, não é controlável.

Existe também um fator mais sutil, que muitas vezes passa despercebido. Pensar demais pode dar uma sensação ilusória de controle. A pessoa sente que, se continuar analisando, refletindo, antecipando, em algum momento vai encontrar uma resposta que traga alívio. Mas, na maioria das vezes, o efeito é o contrário. Quanto mais a mente gira, mais ela se distancia de um estado de clareza. 

Outro ponto importante é que o corpo participa desse processo. A mente não está separada do organismo. Quando o sistema nervoso está ativado, quando há tensão, estresse ou privação de sono, o padrão de pensamento também muda.

O cérebro entra em um modo mais reativo. Os pensamentos ficam mais rápidos, mais repetitivos, mais focados em possíveis ameaças. Isso cria um ciclo em que o corpo alimenta a mente e a mente retroalimenta o corpo.

Muitas pessoas tentam resolver esse problema tentando parar de pensar. Mas essa abordagem costuma gerar frustração. Pensamento não é algo que simplesmente se desliga. Quanto mais tentamos bloquear, mais ele tende a voltar.

Talvez a questão não seja parar de pensar, mas mudar a relação com os próprios pensamentos. Perceber quando a mente está repetindo ao invés de resolvendo. Notar quando um pensamento não está levando a lugar nenhum. Criar pequenos espaços de pausa ao longo do dia.

Sobre a autora

Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.

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