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A cidade onde quase 80% dos pacientes do SUS estão acima do peso

28 abr 2026 - 10h52
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Caso de Viradouro, no interior de São Paulo, expõe relação entre renda, acesso à alimentação saudável e desigualdades na prevenção da obesidade.A possível chegada ao Sistema Único de Saúde (SUS) de medicamentos à base de semaglutida, como o Ozempic, abriu uma nova frente no debate sobre o tratamento da obesidade no Brasil. A discussão ocorre no momento em que dados oficiais indicam que o problema já atingiu níveis críticos em parte do interior do país.

A urgência aparece nos dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), do Ministério da Saúde, que reúne informações de pessoas acompanhadas pela rede pública. Em Viradouro, no interior de São Paulo, por exemplo, 77,41% dos pacientes acompanhados pela rede pública estão com sobrepeso ou obesidade — uma das maiores taxas encontradas no levantamento feito pela DW entre municípios paulistas.

Embora o indicador se refira à população atendida pelo SUS, ele revela onde a obesidade é mais intensa: entre os grupos mais vulneráveis, em cidades pequenas e médias, inclusive no estado mais rico do país, segundo especialistas.

Interiorização da obesidade

Localizada a quase 400 km da capital paulista, Viradouro tem cerca de 17 mil habitantes e uma rotina típica de cidade pequena do interior: comércio concentrado no centro, vida em torno da praça principal e encontros aos domingos na igreja.

É neste ambiente pacato e comum do Brasil profundo que emerge um contraste silencioso e preocupante sobre a saúde do brasileiro. De acordo com dados do SISVAN, 30,04% da população atendida pelo sistema público na cidade está com sobrepeso; 24,05% está com obesidade nível 1; 14,92% com obesidade nível 2; e 8,4% com obesidade nível 3 — um total de 77,41%.

Segundo o Ministério da Saúde, a obesidade é definida com base no Índice de Massa Corporal (IMC), calculado pela divisão do peso, em quilos, pela altura ao quadrado. Valores abaixo de 18,5 indicam baixo peso; entre 18,5 e 24,9 correspondem ao peso normal; de 25 a 29,9 caracterizam sobrepeso; e, a partir de 30, configuram obesidade, que ainda é dividida em três graus conforme a gravidade.

"O sobrepeso e a obesidade aumentam muito o risco de várias doenças importantes. A gente está falando desde diabetes tipo 2, colesterol alto, gordura no fígado e doenças cardiovasculares, como infarto e AVC, até alguns tipos de câncer. Além disso, existem impactos mecânicos, como dor nas articulações, apneia do sono, refluxo, e também consequências emocionais, como estigma, baixa autoestima e depressão", enumera Luiza Vercelli, médica residente em Medicina do Esporte no IAMSPE (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual).

Para além dos problemas, Viradouro representa, portanto, um fenômeno maior: o da interiorização da obesidade. E isso, longe de ser um fato aleatório, é reflexo de uma mudança estrutural no ambiente em que as pessoas vivem, afirma Rafael Appel Flores, doutor em Ciências Fisiológicas e pesquisador no Laboratório de Neuroendocrinologia na USP em Ribeirão Preto.

"O impacto de viver em municípios menores vai muito além da questão de acesso, ele interfere diretamente na progressão da obesidade", explica.

Segundo ele, a falta de estrutura e equipes especializadas nessas cidades limita o tratamento da obesidade.

"Quando há menor estrutura de saúde e prevenção, o que vemos na prática é um atraso sistemático no diagnóstico e no início do tratamento. Muitas pessoas sequer têm conversas estruturadas sobre peso com profissionais de saúde, o que faz com que a obesidade evolua de forma silenciosa e contínua."

Sem prevenção e acompanhamento contínuo, o problema se agrava e o risco de doenças aumenta e se perpetua entre gerações, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social, aponta.

Flores, que vive na região, aponta ainda para a expansão dos alimentos ultraprocessados. "Esses alimentos são desenhados para hiperpalatabilidade, facilitando a hiperfagia [ingestão excessiva] ao modular negativamente sinais de saciedade e ativar circuitos de recompensa. Na prática, o indivíduo não está apenas comendo mais, ele está sendo biologicamente induzido a comer mais, em um ambiente que favorece esse comportamento de forma contínua", explica.

Procurada, as secretarias de Saúde municipal e estadual não responderam aos questionamentos da DW.

A desigualdade por trás do excesso de peso

Os dados também revelam um padrão claro: a obesidade se concentra mais onde a renda é menor, sugerindo que isso interfere na qualidade da alimentação e saúde.

Em Viradouro, onde a renda média por pessoa gira em torno de R$ 1,6 mil mensais, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), praticamente oito em cada dez atendidos pelo SUS têm excesso de peso.

Já em cidades paulistas mais ricas, como São Caetano do Sul, onde a renda média ultrapassa R$ 3,5 mil por pessoa, o número cai para cinco em cada dez.

Segundo Flores, estudos mais representativos da população brasileira como um todo mostram que essa tendência se mantém: a obesidade tem crescido mais justamente entre os mais pobres.

"O que isso revela, na prática, é uma mudança no padrão da doença: a obesidade deixa de ser apenas uma questão individual e passa a refletir desigualdades estruturais. Hoje, ela está fortemente associada a fatores como renda, acesso a alimentos, escolaridade e contexto social, além de recortes importantes de gênero e raça. O problema é amplo, mas socialmente desigual", pontua o pesquisador.

Por isso, ele diz que para entender a obesidade é preciso "olhar menos para escolhas individuais e mais para o ambiente em que essas escolhas são feitas".

Os limites da resposta farmacológica

Uma das soluções para o problema da obesidade pode estar nos novos medicamentos popularmente conhecidos como "canetas emagrecedoras". O tratamento, que virou febre no Brasil, pode custar milhares de reais.

De acordo com o Ministério da Saúde, a quebra de patente de medicamentos à base de semaglutida, como o Ozempic, que ocorreu no mês passado, deve fazer com que os preços também caiam — fator "determinante para a análise da possível incorporação de uma nova tecnologia ao SUS", informou o órgão em nota à DW.

"Visando a futura produção nacional de medicamentos que simulam o hormônio GLP-1, o Ministério da Saúde solicitou à Anvisa prioridade no registro de medicamentos com esses princípios ativos para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Com a entrada de novos medicamentos genéricos no mercado e aumento da concorrência, os preços devem cair de forma significativa — em média, estudos apontam que os genéricos induzem queda de 30% nos preços", declarou a pasta.

A semaglutida é um medicamento que reproduz a ação de um hormônio naturalmente liberado pelo intestino após a alimentação. Seu principal efeito ocorre no cérebro, onde reduz o apetite. Além disso, ela desacelera o esvaziamento do estômago, prolongando a sensação de saciedade.

"Na prática, a pessoa sente menos fome, come menos e consegue manter esse padrão ao longo do tempo. Além disso, ela melhora o controle da glicose, da insulina e reduz inflamação e gordura visceral. Os estudos mostram uma perda de peso bastante significativa, em torno de 15% em média, além de benefícios cardiovasculares", afirma Vercelli, do IAMSPE.

Mas a médica pontua que, embora a semaglutida oferecida pelo SUS possa ser uma ferramenta importante no enfrentamento da obesidade, ela não é uma solução simples.

"O tratamento precisa ser contínuo, porque quando o paciente para, existe uma tendência de recuperar o peso. Então, para ser viável no sistema público, provavelmente seria necessário definir critérios bem claros, priorizando pacientes de maior risco, como aqueles com obesidade mais grave ou com doenças associadas, além de negociar preços e sempre associar com mudanças de estilo de vida. Não é um tratamento que substitui alimentação adequada e exercício físico", completa.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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