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O planeta anão Ceres foi um mundo oceânico que pode ter sido habitado

O planeta anão Ceres já abrigou um oceano com condições semelhantes às que encontramos em fontes termais na Terra.

28 ago 2025 - 10h19
(atualizado em 28/8/2025 às 16h40)
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Ceres visto com cores aprimoradas com base em imagens da sonda Dawn: dados da missão da Nasa mostram que planeta anão abrigou um oceano sob sua superfície com condições favoráveis à vida semelhantes às encontradas em fontes hidrotermais na Terra NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA
Ceres visto com cores aprimoradas com base em imagens da sonda Dawn: dados da missão da Nasa mostram que planeta anão abrigou um oceano sob sua superfície com condições favoráveis à vida semelhantes às encontradas em fontes hidrotermais na Terra NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA
Foto: The Conversation

Ele é o maior asteroide do Sistema Solar, e o maior corpo do cinturão localizado entre Marte e Júpiter. Ceres tem um diâmetro próximo ao limite do que definimos como planeta, mas ainda assim é um planeta anão, como Plutão.

A missão Dawn, da Nasa, orbitou Ceres há uma década, mapeando-o em detalhes. Neste período, obteve informações sobre sua gravidade e topografia, e concluiu-se que ele é diferenciado internamente, com camadas com composições distintas em diferentes profundidades.

Foto: The Conversation

O interior do planeta anão Ceres, incluindo a transferência de água e gases do núcleo rochoso para um depósito de água salgada. O dióxido de carbono e o metano estão entre as moléculas que transportam energia química sob a superfície de Ceres. NASA/JPL-Caltech, CC BY

Agora, um novo estudo com os dados obtidos pela sonda Dawn, publicado na revista científica Science Advances e liderado por Samuel W. Courville, da Universidade do Estado do Arizona (EUA) e do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa (JPL), revela que Ceres já teve um oceano, com implicações importantes na astrobiologia.

Habitável para vida microbiana

O novo estudo aponta que Ceres já abrigou um oceano global abaixo da superfície em sua história inicial. Nesse ambiente, ocorreu a interação entre rochas e água, gerando os minerais detectados pela missão Dawn.

Considerando a mineralogia superficial de Ceres, combinada com sua alta abundância de carbono, o planeta anão pode ter sido habitável para a vida microbiana.

Diante disso, Ceres pode ter sido povoado por organismos semelhantes aos descobertos nas profundezas da crosta terrestre e em chaminés hidrotermais submarinas. Eles são chamados de quimiotróficos porque são capazes de usar compostos inorgânicos reduzidos, que surgem do interior de um corpo planetário, como substratos para obter energia e utilizá-la no metabolismo respiratório.

Nas origens de Ceres

O novo trabalho apresenta um modelo detalhado da evolução química e térmica no ambiente aquático interno de Ceres em suas origens. Os autores chegam à conclusão de que, se o interior rochoso atingiu uma temperatura superior a cerca de 277° C, os fluidos liberados pelas transformações da rocha em profundidade teriam promovido condições favoráveis à habitabilidade de Ceres.

A transformação dos minerais pelo processo de alteração aquosa gerou reações redox, nas quais alguns compostos são oxidados (cedem elétrons) e outros são reduzidos (os aceitam). Se a vida surgiu em Ceres, os microrganismos poderiam ter aproveitado esse desequilíbrio redox no oceano como fonte de energia para seu metabolismo.

Esse período favorável à vida não foi desprezível, uma vez que pode ter se estendido entre cerca de 500 milhões e 2 bilhões de anos após a formação do planeta anão.

A hipótese parece comprovável, particularmente agora que há décadas estudamos melhor as comunidades de microrganismos quimiotróficos que habitam as profundezas do oceano e da crosta do nosso planeta.

Um futuro objetivo astrobiológico

Assim, o novo estudo posiciona Ceres como um objetivo astrobiológico interessante para uma missão de coleta e retorno de amostras, como propusemos há alguns anos.

Ceres é um corpo planetário único, ideal para estudar a possível evolução de mundos oceânicos com cerca de 1.000 km de raio. Há mais de vinte anos, suspeitava-se que seu interior gelado contivesse mais água do que toda a Terra. De fato, nos primórdios, esses corpos poderiam ter representado o tipo mais abundante de ambiente habitável em nosso Sistema Solar.

Em grande profundidade

Mas encontrar vestígios dessa vida passada atualmente não será tarefa fácil. Os estudos realizados pela sonda Dawn revelaram as profundidades em que esses processos ocorreram: abaixo da crosta, que tem cerca de 40 km de espessura. Lá existe um manto dominado por rochas hidratadas, como as argilas.

A própria crosta gelada já nos dá uma ideia da enorme quantidade de água armazenada em Ceres. Essa água não seria fácil de reutilizar porque é uma mistura complexa de gelo, sais e minerais hidratados, em proporções provavelmente variáveis à medida que nos aprofundamos em sua estrutura.

Entre as duas camadas, tudo indica que há um líquido rico em sais acumulados, uma espécie de salmoura que se estende até 100 quilômetros de profundidade, remanescente do oceano que existia antigamente.

Um possível objetivo astrobiológico poderia ser coletar amostras perto de um ambiente próximo a algum dos criovulcões de Ceres. Em vez de rocha derretida, os vulcões de lama salgada, ou "criovulcões", expelem água fria e salgada, muitas vezes misturada com lama.

Foto: The Conversation

O criovulcão Ahuna Mons, com 20 km de diâmetro e cerca de 4 km de altura acima do nível da superfície de Ceres. NASA/JPL/Dawn mission

Os autores do estudo publicado na Science Advances apontam que a distância que o fluido percorreria desde o núcleo rochoso de Ceres seria maior do que a dos sistemas hidrotermais terrestres análogos, e isso poderia afetar a habitabilidade. Os fluidos no fundo dos oceanos terrestres só precisam circular hidrotermalmente a profundidades de poucos quilômetros abaixo do fundo oceânico, enquanto em Ceres eles deveriam se originar a profundidades de dezenas de quilômetros.

Foto: The Conversation

Ilustração da estrutura sugerida para o interior do asteroide Ceres com base em uma imagem topográfica real da missão Dawn, da Nasa. NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA

Só a exploração espacial nos permite conhecer a natureza e a estrutura desses mundos gelados. Missões futuras nos permitirão compreender melhor seu papel no transporte de água para planetas rochosos como a Terra, formados principalmente pela junção de corpos desidratados, muito diferentes de Ceres.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Josep M. Trigo Rodríguez recebe recursos do projeto do Plan Nacional de Astronomía y Astrofísica PID2021-128062NB-I00 financiado pelo MICINN e pela Agencia Estatal de Investigación da Espanha.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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