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Por que demorou tanto para a Humanidade voltar à Lua?

A exploração sustentável da Lua continua sendo um desafio para as democracias modernas

2 abr 2026 - 08h48
(atualizado às 17h57)
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Às 13h24m59s no horário padrão central dos EUA do dia 19 de dezembro de 1972, o módulo de comando da Apollo 17 amerissou no Oceano Pacífico, a cerca de 350 milhas náuticas a sudeste de Samoa, encerrando a última missão tripulada americana à Lua.

Durante sua carreira, o comandante da Apollo 17, Eugene A. Cernan, registrou 566 horas e 15 minutos no espaço, das quais mais de 73 horas foram passadas na superfície da Lua. Cernan foi o segundo americano a caminhar no espaço e a última pessoa a deixar suas pegadas na superfície da Lua.

A conclusão da jornada da Apollo 17 marcou não apenas o fim de uma missão, mas o fim de uma era. Entre 1969 e 1972, 12 astronautas caminharam na Lua em seis pousos distintos.

Meio século depois, a Nasa está retornando à Lua, com seu programa Artemis. Para a missão Artemis II, que foi lançada no dia 1º de abril de 2026, quatro astronautas farão um sobrevoo do lado oculto da Lua dentro de uma cápsula tripulada - a Órion .

Mais de 50 anos é um longo intervalo, e é natural perguntar: se os americanos conseguiam chegar à Lua rotineiramente no início da década de 1970, por que demoraram tanto para tentar voltar?

A missão Apollo 17, em 1972, marcou a última vez que humanos pisaram na Lua. Nasa
A missão Apollo 17, em 1972, marcou a última vez que humanos pisaram na Lua. Nasa
Foto: The Conversation

A resposta não é simples. Tem pouco a ver com tecnologia e muito mais com a forma como a política, o dinheiro e o apoio global funcionam. O ponto de partida é o próprio programa Apollo: seu modelo de exploração não foi construído para durar, e claramente não era sustentável.

Em 25 de maio de 1961, perante uma sessão conjunta do Congresso americano, o presidente John F. Kennedy comprometeu os EUA com a meta de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança à Terra antes do fim daquela década.

Após o assassinato de Kennedy em 1963, o presidente Lyndon B. Johnson garantiu que essa meta de pouso na Lua fosse cumprida. Mas os custos crescentes da Guerra do Vietnã e das reformas internas reduziram o interesse em novos investimentos espaciais.

O discurso de John F. Kennedy na Universidade Rice em 1962 reafirmou o compromisso dos Estados Unidos com chegar à Lua. JFK Library
O discurso de John F. Kennedy na Universidade Rice em 1962 reafirmou o compromisso dos Estados Unidos com chegar à Lua. JFK Library
Foto: The Conversation

Na verdade, o orçamento da Nasa atingiu seu pico em 1966 e começou a cair mesmo antes do sucesso do programa Apollo, prejudicando as perspectivas de uma exploração sustentável. O financiamento adicional foi rechaçado, missões planejadas foram canceladas e o programa Apollo chegou ao fim em 1972 - não porque tivesse fracassado, mas porque havia cumprido sua missão.

A exploração sustentável (tanto no espaço quanto na Terra) requer um compromisso político estável, financiamento previsível e um objetivo claro de longo prazo. Após o Apollo, os EUA tiveram dificuldades para manter esses três aspectos simultaneamente.

Os formuladores de políticas começaram a questionar qual direção a Nasa deveria tomar a seguir. Em 1972, o então presidente Richard Nixon instruiu a agência espacial a iniciar a construção do ônibus espacial. Isso levaria a Nasa a mudar seu foco da exploração do espaço profundo para operações na baixa órbita terrestre.

‘Caminhão espacial’: o ônibus espacial foi promovido como uma forma de acesso acessível à baixa órbita da Terra, mas a realidade se mostrou um tanto diferente. Nasa
‘Caminhão espacial’: o ônibus espacial foi promovido como uma forma de acesso acessível à baixa órbita da Terra, mas a realidade se mostrou um tanto diferente. Nasa
Foto: The Conversation

Divulgado como um "caminhão espacial" reutilizável, o ônibus espacial tinha como objetivo tornar o acesso à órbita da Terra algo rotineiro e relativamente barato. Mas ele acabaria se revelando um veículo de incrível complexidade, marcado por falhas técnicas e tragédias humanas - os acidentes com o Challenger e o Colúmbia, nos quais 14 astronautas perderam a vida.

Oito anos após o início do programa do ônibus espacial, alguns integrantes da comunidade aeroespacial acreditavam que era hora dos EUA voltarem a mirar a Lua - e a perspectiva tentadora de um pouso em Marte. Em 20 de julho de 1989, no 20º aniversário do primeiro pouso lunar da Apollo 11, o presidente George H.W. Bush anunciou a Iniciativa de Exploração Espacial (SEI).

O plano visava um compromisso de longo prazo para construir a Estação Espacial Freedom, levar astronautas de volta à Lua "para ficar" e, finalmente, enviar humanos ao planeta vermelho.

Mas os altos custos estimados da SEI, que chegavam a centenas de bilhões de dólares, levaram ao seu fracasso. O fraco apoio no Congresso, juntamente com outros fatores, levou ao seu cancelamento durante o governo do presidente Bill Clinton.

Durante a década de 1990, o projeto da Estação Espacial Internacional (ISS) consolidou a baixa órbita terrestre como prioridade para a exploração humana. O ônibus espacial foi o meio utilizado pelos EUA para construir a estação e transportar tripulações de e para o posto avançado em órbita.

A ISS tornou-se um símbolo de cooperação científica internacional e de proeza técnica. As experiências realizadas na estação geraram insights valiosos em tudo, desde a pesquisa médica até a ciência de materiais. Mas também consumiram recursos que, de outra forma, poderiam ter apoiado a exploração do espaço profundo.

O desastre do Colúmbia em 2003 - no qual o ônibus espacial se desintegrou sobre o Texas, causando a morte de toda a tripulação - levou a uma nova reflexão sobre a direção da exploração espacial nos Estados Unidos. Como resultado, o presidente George W. Bush anunciou a Visão para a Exploração Espacial.

O objetivo dessa proposta, que daria origem ao que ficou conhecido como Programa Constellation, era reconstruir a capacidade da Nasa de chegar à Lua, tendo Marte como meta de longo prazo. Mas análises independentes alertaram que os custos e cronogramas eram irreais. O Congresso americano nunca deu apoio financeiro total ao Constellation, levando ao seu cancelamento em 2010, durante a Presidência de Barack Obama.

Esse ciclo repetido de projetos espaciais cancelados expõe algumas limitações inerentes ao sistema de financiamento da exploração lunar. Um programa lunar sustentável precisa de um forte compromisso multissetorial e de mecanismos para garantir financiamento por várias décadas.

O programa Constellation teria enviado astronautas à superfície lunar em um módulo de pouso chamado Altair. Nasa
O programa Constellation teria enviado astronautas à superfície lunar em um módulo de pouso chamado Altair. Nasa
Foto: The Conversation

Mas programas de tal magnitude precisam competir anualmente com gastos com defesa, saúde e assistência social. A rotatividade eleitoral e as mudanças na liderança das comissões nos EUA enfraquecem ainda mais a perspectiva de continuidade.

A exploração lunar também tem sofrido com uma questão estratégica não resolvida: por que voltar, afinal? O objetivo do programa Apollo era em grande parte geopolítico e, após a Guerra Fria, nenhuma justificativa igualmente convincente realmente surgiu.

Os retornos científicos das missões espaciais tripuladas são limitados em comparação com a exploração robótica. As perspectivas comerciais permanecem incertas, e o prestígio por si só raramente sustenta ou garante grandes orçamentos.

Talvez uma pergunta mais adequada seja: por que o Artemis parece ter escapado desse padrão? Bem, a Nasa argumenta que enviar astronautas de volta à superfície lunar - e, em particular, estabelecer uma presença sustentada lá - ajudará os pesquisadores a aprender "como viver e trabalhar em outro mundo enquanto nos preparamos para missões tripuladas a Marte". Isso é verdade, até certo ponto.

A Nasa também enfatiza que o Artemis será construído por meio de parcerias comerciais e cooperação internacional, criando a primeira presença humana de longo prazo na Lua.

Com o Artemis, a Nasa finalmente encontrou uma justificativa para manter uma presença mais duradoura na Lua? NASA
Com o Artemis, a Nasa finalmente encontrou uma justificativa para manter uma presença mais duradoura na Lua? NASA
Foto: The Conversation

O programa parece situar-se numa interseção cuidadosamente elaborada entre a liderança do governo dos EUA, as capacidades de lançamento comercial e uma ampla coalizão de parceiros internacionais reunidos sob os Acordos Artemis. Os acordos são um conjunto de princípios comuns relativos ao uso da Lua e de outros alvos no espaço sideral, acertados entre os EUA e outros países.

A principal diferença em relação às promessas anteriores de retornar à Lua é que isso, pelo menos em teoria, distribui o risco e amplia a base de apoio político. Na prática, porém, o Artemis continua sendo caro e está exposto a mudanças nos orçamentos e nas prioridades.

Há também uma dimensão cultural nessa questão. O programa Apollo criou um mito poderoso - embora frágil - de avanço tecnológico rápido e heroico. O Artemis está construindo sua ampla base tecnológica em sociedades e contextos democráticos onde investimentos e compromissos tendem a evoluir lentamente, moldados por negociações, acordos e interesses concorrentes.

Se o Artemis for bem-sucedido, será porque todos os incentivos políticos, econômicos, sociais e científicos finalmente se alinharam de forma duradoura. Mas, até que esse alinhamento seja comprovado, o intervalo de 50 anos entre o Apollo e o Artemis é menos um quebra-cabeça de engenharia do que um lembrete de como a exploração espacial sustentada é difícil para as democracias modernas.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Domenico Vicinanza não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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