Mudanças climáticas: adaptação ao aquecimento global depende do diálogo para construção coletiva de soluções
Plataforma desenvolvida no INPE produz o retrato da situação e dos riscos de cada um dos 5.570 municípios brasileiros, sempre a partir da lente climática
As mudanças climáticas são um fato. E os efeitos associados a elas vêm se manifestando de maneira cada vez mais frequente, consistente e intensa. Mas a crise não é só climática: a ela se somam outras crises, como a da biodiversidade, a da poluição (nos ambientes terrestres e nos oceanos) e a crise social.
A relação da sociedade com essas várias crises se expressa de múltiplas formas: diante da clara e profunda desigualdade social, são as pessoas, os sistemas socioecológicos e os sistemas de produção mais vulnerabilizados os que mais sofrem os impactos desses problemas.
A solução para essas questões, portanto, está no diálogo. Diálogo entre diferentes atores, com respeito à pluralidade da sociedade — seja ela global ou local —, num processo de co-construção. Nenhum indivíduo ou setor sobrevive sozinho e a construção coletiva de soluções dentro do contexto de mudanças climáticas não é algo inatingível. Ela não só é possível como é uma necessidade nos tempos atuais.
Vivemos um processo de transformação social, em razão das mudanças climáticas, e precisamos nos adaptar a esse novo mundo que habitamos, o que só é possível com o engajamento da sociedade de uma maneira co-participativa.
Adaptação às mudanças que já chegaram
Há pouco mais de uma década, quando discutíamos mudanças climáticas, pouco se falava em adaptação. O foco principal era a mitigação — afinal, ao minimizarmos seus impactos negativos, as mudanças climáticas ficariam, de certa forma, sob controle, e não haveria necessidade de nos adaptar a um novo clima.
Mas, essa não é mais uma possibilidade. Já estamos em uma trajetória em que a mitigação sozinha não vai dar conta. Precisamos, cada vez mais, desenvolver mecanismos para nos adaptarmos às mudanças climáticas.
E foi com o esse foco que criamos, no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em parceria com o Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI) e Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), o Sistema de Informações e Análises sobre Impactos das Mudanças do Clima (AdaptaBrasil), uma plataforma que consolida e disponibiliza informações sobre os riscos de impactos que podem ser usadas como estratégia de planejamento para ações e políticas de adaptação.
O Brasil já havia proposto um plano de adaptação em 2016. Mas, em razão da conjuntura política, esse plano acabou não avançando. Desde 2023, o país iniciou a construção um novo plano nacional de adaptação, de forma participativa, com envolvimento da sociedade e de atores de vários setores (público e privado).
Os estudos científicos indicam que os eventos climáticos extremos estão aumentando, como dias consecutivos de seca, chuvas intensas, ondas de calor e muitos outros. O AdaptaBrasil é uma ferramenta — com dados abertos e acessíveis — que ajuda os gestores públicos de todo o país a planejar suas estratégias de redução de risco diante desses eventos climáticos extremos. Para isso, usamos projeções climáticas para criar diagnósticos e análises de risco dos impactos dos eventos climáticos no presente e futuro
Atualmente, a plataforma apresenta nove setores estratégicos: recursos hídricos, segurança alimentar, segurança energética, saúde, infraestrutura portuária, desastres geo-hidrológicos, infraestrutura ferroviária, infraestrutura rodoviária e biodiversidade. Para cada um desses setores, indicadores vão compondo os riscos, de forma a produzir um retrato da situação de cada um dos 5.570 municípios brasileiros, sempre a partir da lente climática.
O AdaptaBrasil apresenta indicadores para cada setor, e esses indicadores são referências importantes aos municípios para avaliação e mapeamento dos riscos aos quais a sociedade e sistemas produtivos locais estão expostos, com particular preocupação às populações mais vulnerabilizadas.
Por exemplo, no setor de saúde: é óbvio que combater surtos do mosquito Aedes aegypti é importante para a saúde da população. Entretanto, ao entender os riscos que condições climáticas, como aumento de temperatura e de chuvas, determinam para a ocorrência abundante do mosquito, a gestão local pode trabalhar a priori no planejamento do controle integrado do inseto para evitar surtos de dengue em sua cidade.
Outro exemplo, agora no setor de recursos hídricos. Todo gestor sabe da importância do tratamento de esgoto para a saúde e bem estar de suas cidades e comunidades. Quando acrescentamos a lente climática ao diagnóstico, fica claro que os problemas associados à falta de tratamento do esgoto tendem a se exacerbar no caso de uma seca intensa. Afinal, o esgoto continua sendo gerado, e a falta de água leva a uma concentração maior do material orgânico, comprometendo o abastecimento público, ciando condições para problemas de saúde e impactando a biodiversidade do corpo d'água.
Adaptação e mitigação não são dissociadas. Trabalhar em uma frente pode ajudar a outra também. Um planejamento urbano que inclua a criação de parques, por exemplo, pode ao mesmo tempo oferecer uma solução de adaptação (permitindo que as pessoas encontrem conforto à sombra de árvores em uma onda de calor) e de mitigação (ao garantir a remoção de CO2 da atmosfera por meio dessas mesmas árvores).
E esse caminhar rumo à mitigação e à adaptação das mudanças climáticas é também um caminhar para uma sociedade mais justa e mais inclusiva. Não há dúvidas sobre a importância de se trazer o discurso da emergência e da urgência, mas também precisamos cultivar a semente da esperança: a Terra não está saindo da órbita, mas a vida no planeta vai mudar. O grande desafio está em conseguirmos fazer a adaptação para um ambiente diferente, que não exclua a vida de ninguém, nem de humanos nem da biodiversidade planetária.
Jean Ometto não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.