Desastre do Nepal pode acontecer na América do Sul? Especialistas explicam os riscos
Andes reúnem condições semelhantes às do Himalaia, e episódios de deslizamentos e corridas de detritos já provocaram grandes tragédias
Pelo menos 160 pessoas morreram após fortes inundações atingirem, nesta quarta-feira, 26, a região do Himalaia na fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China. Segundo o Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP), não houve um terremoto que provocou o deslizamento. O movimento de uma enorme massa de rochas, água e gelo foi o responsável por gerar energia sísmica de um terremoto de magnitude 5,2. O caso levanta uma questão: um desastre do tipo poderia acontecer na América do Sul?
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Segundo especialistas ouvidos pelo Terra, a resposta é sim. Os Andes reúnem condições para produzir eventos semelhantes, como deslizamentos de grandes proporções, avalanches de gelo e rocha e corridas de detritos. E não se trata apenas de uma possibilidade. Desastres desse tipo já aconteceram na América do Sul, alguns deles com número de vítimas muito superior ao registrado até agora no Nepal.
A situação dos Andes
Segundo Bruno Collaço, sismólogo do Centro de Sismologia da USP, o episódio do Nepal está relacionado à combinação de características encontradas em grandes cordilheiras com gelo, como relevo muito inclinado, degradação do permafrost e presença de rios e áreas ocupadas.
"O que ocorreu no Nepal é o resultado de uma combinação de condições que existe em qualquer cordilheira alta com gelo: relevo muito íngreme e de grande desnível, gelo e permafrost em degradação (o gelo dentro da rocha funciona como um cimento que mantém o maciço coeso), lagos glaciais represados por morainas ou por gelo, e um vale com rio onde há ocupação de pessoas, estradas, hidrelétricas, etc".
Collaço ressalta que o fenômeno desta quarta-feira não deve ser confundido com o rompimento de um lago glacial. Segundo as primeiras análises mencionadas pelo especialista, o que ocorreu foi o colapso de uma grande massa de gelo e rocha em altitude elevada. Embora os dois processos possam provocar consequências parecidas, são mecanismos diferentes.
"São dois caminhos distintos, que produzem consequências parecidas, mas não devem ser confundidos".
Na América do Sul, segundo Collaço, há áreas com características semelhantes principalmente em regiões montanhosas dos Andes. "Aqui na América do Sul é possível encontrar essa mesma configuração em Ancash e em Cusco, no Peru; na Cordilheira Real, na Bolívia; em alguns vulcões com gelo no Equador e na Colômbia; e também no Chile e na Argentina. Por exemplo, Mendoza teve o rompimento do lago represado pelo Glaciar Grande del Nevado em 1934, no Río Plomo".
Quais países estão mais expostos?
Diogo Coelho, doutor em Geodinâmica e Geofísica, sismólogo e pesquisador do Observatório Nacional, também afirma que a região andina reúne condições para a ocorrência de eventos destrutivos. Ele explica que as chamadas corridas de detritos podem transportar lama, rochas e outros materiais em alta velocidade.
Para que uma tragédia desse tipo aconteça, é necessário que diferentes fatores ambientais estejam presentes ao mesmo tempo. Coelho resume os principais elementos: encostas muito inclinadas, grande quantidade de água e material disponível para ser transportado. De acordo com o pesquisador, praticamente toda a região montanhosa dos Andes está sujeita ao risco, mas algumas áreas merecem atenção especial.
"A região andina reúne as condições geológicas e climáticas perfeitas para o desencadeamento das destrutivas corridas de detritos: possui montanhas de altíssima declividade, vales profundos e instabilidade tectônica, tudo isso frequentemente combinado com eventos de chuvas extremas ou degelo acelerado".
"Praticamente toda a extensão montanhosa andina está sob risco, com destaque para encostas e vales estreitos de países como Colômbia, Venezuela, Peru, Equador e Chile".
O risco aumenta quando essas áreas montanhosas são ocupadas por cidades e comunidades. Segundo Coelho, regiões conhecidas como leques aluviais, onde o material naturalmente se deposita, podem se tornar especialmente perigosas.
O aquecimento global pode aumentar o risco
Embora não seja possível estabelecer hoje uma probabilidade precisa para esse tipo de evento, Collaço afirma que há uma tendência de aumento associada ao aquecimento global. Segundo o sismólogo, o derretimento do gelo pode reduzir a estabilidade de estruturas rochosas que permaneceram preservadas durante milhares de anos.
"Com o aquecimento global, a tendência é que esses eventos aumentem em quantidade, pois o gelo que estabiliza paredes rochosas em grandes altitudes derrete e maciços que estavam estáveis há milhares de anos podem ceder".
Grandes tragédias já aconteceram na América do Sul
A possibilidade de um desastre desse tipo na América do Sul não é apenas teórica. Há registros históricos de avalanches, deslizamentos e corridas de detritos com grande número de vítimas.
Em 1962, uma avalanche de gelo na região de Ancash, no Peru, destruiu Ranrahirca e deixou de 4.000 a 5.000 mortos. O episódio chama atenção também porque não esteve associado a um terremoto.
Já na Colômbia, a erupção do vulcão Nevado del Ruiz em 1985 derreteu as geleiras e gerou fluxos de lama que soterraram a cidade de Armero e matou mais de 20 mil pessoas.
Coelho usa os dois episódios para mostrar que o continente já enfrentou eventos semelhantes em escala devastadora.
"Para ilustrar como esse cenário já faz parte da nossa realidade sul-americana, podemos citar duas das maiores tragédias recentes geradas por esse exato fenômeno: A Tragédia de Vargas, na Venezuela, em 1999, e o desastre de Mocoa, na Colômbia, em 2017".
No primeiro caso, estimativas apontam entre 10 mil e 30 mil mortes. "Considerado um dos piores desastres naturais da história da América Latina, o evento foi desencadeado por dias de chuvas torrenciais fora do normal. Encostas inteiras cederam, gerando gigantescos fluxos de detritos que varreram a costa do estado de Vargas, destruindo cidades inteiras, alterando o mapa do litoral e deixando dezenas de milhares de vítimas", conta Coelho. Na Colômbia, o mesmo processo deixou mais de 250 mortos.
E o Brasil?
Embora o foco do risco semelhante ao do Nepal esteja nos Andes, o Brasil também pode registrar fluxos de detritos. A diferença está principalmente nas condições que desencadeiam o fenômeno.
Em vez de grandes massas de gelo em altitudes extremas, o principal fator de risco brasileiro é a combinação entre chuva intensa, encostas inclinadas e ocupação do solo.
"O fenômeno ocorre quando uma mistura de material terroso, água e ar desce muito rapidamente por canais de drenagem de alta declividade. De proporções menores, no Brasil, um país tectonicamente estável, os fluxos de detritos são desencadeados principalmente por deslizamentos de terra provocados por chuvas, sendo a Serra do Mar a principal área de ocorrência, devido às suas encostas íngremes e aos elevados índices pluviométricos", afirma Coelho.
Coelho também cita duas das maiores tragédias brasileiras provocadas por movimentos de massa e chuvas extremas.
"No Brasil temos que os maiores desastres ambientais são: Serra das Araras (1967), onde as estimativas do número de vítimas calculam um total de 2.000 mortos, sendo 300 vítimas identificadas e cerca de 1.700 desaparecidas nos soterramentos; e a região serrana do Rio de Janeiro (2011), a maior tragédia climática da história do Brasil, quando a chuva que caiu no dia 11 de janeiro de 2011 deixou mais de 900 mortos e quase 100 desaparecidos".
Segundo o pesquisador, características naturais e ocupação humana ajudam a aumentar a vulnerabilidade.
"Aqui temos condições geológicas favoráveis para isso, devido ao alto volume de chuva e a alta declividade na cadeia de montanhas. Além do uso problemático do solo que retira a vegetação e expõe o material à intempéries".
É possível prever um desastre assim?
A ciência ainda não consegue determinar com precisão quando uma grande massa de gelo, rocha ou terra irá se desprender. Existem, no entanto, tecnologias capazes de monitorar sinais de instabilidade e ajudar na emissão de alertas.
Segundo Collaço, redes sismográficas podem registrar esse tipo de evento mesmo a milhares de quilômetros de distância. Isso não permite prever o colapso, mas pode oferecer alguns minutos ou até horas de vantagem em determinados cenários, "se houver um sistema montado para isso".
Outras tecnologias também podem acompanhar alterações nas encostas e em áreas sujeitas a rompimentos. "Mas prever quando exatamente vai romper, não é possível".
Para Coelho, sistemas de alerta eficientes devem combinar diferentes tipos de dados. Entre eles estão informações meteorológicas, vazão dos rios e histórico de chuvas da região.
"O sistema ideal opera combinando tecnologia de monitoramento em tempo real e o conhecimento dos desastres prévios da região: instalação de estações meteorológicas e medidores de vazão nos rios, modelos matemáticos para comparar em tempo real a chuva, e com base no histórico da região, deve-se estabelecer uma 'linha limite' de chuva. Se a precipitação cruza essa linha, o sistema dispara o alerta de que uma corrida de detritos é iminente".
Ainda existem obstáculos para instalar e manter equipamentos em regiões de difícil acesso. "As principais limitações estão relacionadas aos equipamentos utilizados nessas regiões, onde dependem de manutenção constante, pois os equipamentos de alta precisão ficam expostos na natureza e exigem conservação rigorosa".
Collaço acrescenta que, em grandes altitudes, a própria instalação de equipamentos é um desafio. Além disso, nem todos os eventos apresentam sinais que permitam uma antecipação.
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