Denise Fraga diz que discutir a finitude chama para a vida: "Vamos todos morrer, sinto em dizer"
Atriz, produtora e roteirista é uma das convidadas do Encontro Futuro Vivo, evento que acontece no dia 1º de setembro
O brilhantismo para protagonizar histórias trágicas, cômicas e complexas sempre foi uma marca dos trabalhos de Denise Fraga. Na montagem O Que Só Sabemos Juntos, em que dividiu os palcos com Tony Ramos, a atriz convidou o público a refletir sobre a importância da escuta e da coletividade. Agora, o debate sobre a finitude está no centro do debate da artista.
- Com curadoria da Mandalah, consultoria global de inovação consciente, o Encontro Futuro Vivo acontece em 1º de setembro para promover reflexões sobre o presente e o futuro que queremos construir coletivamente.
Se você espera qualquer tipo de tabu, você não ainda não é um grande conhecedor da carreira de Denise Fraga, que começou a falar sobre o tema após a “trajetória do fim da mãe”. De acordo com a atriz, ela e a mãe tiveram coragem de conversar sobre a finitude e foi uma “experiência muito intensa, triste e bonita”.
“Se você soubesse que vai morrer daqui a uma semana, por exemplo, você iria talvez fazer uma festa, (...) mas você não sabe que vai morrer, então pensa em fazer um dia e não faz nunca. Você adia a vida vivida. Eu sinto que eu passei a prestar mais atenção para viver, vivendo” – Denise Fraga em entrevista ao Terra
No entanto, a cronista faz um alerta importante: “pensar fora do modus operandi letárgico não precisa estar ligado à morte”. Esse convite aparece nas pequenas coisas cotidianas. Há quanto tempo você não se questiona coisas, como: “O que eu posso fazer de legal essa semana que eu nunca fiz? Quando foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez?
Para Denise, a “finitude chama a gente para a vida”. “Não perca essa oportunidade, porque vamos todos morrer, sinto em dizer. Essa jornada é muito linda, apesar do caos. Inclusive eu acho que transitar no meio do caos, com alegria, fazendo disso um desafio, tentando olhar no olho de alguém, chamar pelo nome, chamar a pessoa à presença, tem sido para mim um desafio divertido. E fica mais divertido tentar transitar na vida estando presente.”
A “urgência de viver como se fosse morrer” também se reflete na maneira como os ser humano se relaciona com a natureza. Porém, o erro do homem está em achar que o prazer está apenas em ganhar dinheiros. “Se tem milionário infeliz, tomando tarja preta e nada aplaca aquela angústia, então deu errado”, pontua Denise.
“Deu errado esse plano de ‘tudo por dinheiro’, de querer se satisfazer enquanto tem outras pessoas passando necessidade. Essa sociedade perdeu a coisa que é primordial, a sensação de que você pode contar uns com os outros” – Denise Fraga
Se fosse chefe do mundo, como ela mesmo disse, o plano para conectar as pessoas seria simples: inundar o mundo com arte.
“Precisamos de história compartilhada. Se cada pessoa que dá uma opinião, contasse um caso que dissesse aquilo que ela quer dizer, eu acho que estaríamos vivendo em um mundo com muito menos ódio. Por que teríamos experiência compartilhada, e não opinião compartilhada sem vivência. E opinião compartilhada sem vivência cria opiniões falsas, com um pilotis fincado em terrenos muito frágeis.”
Para isso, Denise diz que é preciso praticar o exercício do afeto do dia a dia. “Hoje ele [afeto] está tão em desuso que parece ironia. Precisamos cuidar da nossa presença”, argumenta, destacando que o mundo está sem escuta ou com escuta esquisita.
Encontro Futuro Vivo
Denise Fraga é uma das convidadas do Encontro Futuro Vivo, evento que reunirá nomes como a educadora e pesquisadora da ecologia da mente Nora Bateson; a econometrista e especialista em economia do bem-estar Gaya Herrington; a escritora mineira Conceição Evaristo; o escritor amazonense Milton Hatoum; a líder indígena Raquel Tupinambá, entre outros, para refletir sobre o futuro da vida no planeta e as relações humanas. O Encontro acontece no dia 1º de setembro no Teatro Vivo, com transmissão do Terra.