Brasileiro abandona carreira como economista e reconstitui expedição de Darwin na Patagônia : 'Queria conhecer a humanidade'
Expedição do explorador Marcio Pimenta foi adaptada para um livro, publicado por ele neste mês de maio, três anos após a viagem
Se aproximar das pessoas e contar suas histórias foi a premissa que fez com que Marcio Pimenta, 51, abandonasse uma carreira consolidada como economista e a desbravasse o mundo como fotógrafo, explorador e escritor. A virada de chave, inspirada pela ‘busca por respostas sobre a humanidade’, o levou a retraçar a jornada de Charles Darwin pelos territórios extremos da Patagônia, viagem que ajudou o naturalista britânico a publicar a obra A Origem das Espécies e a radicalizar a Biologia com sua Teoria da Evolução.
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A mudança de carreira aconteceu há cerca de 13 anos. À época com 38 anos, Pimenta se dividia entre a carreira como escritor de artigos e as pesquisas para o doutorado. Mas, apesar de estável, a profissão já não o agradava mais.
“Eu não estava feliz. E eu percebi que para eu realmente conhecer a humanidade, eu precisava me aproximar mais dela, ao invés de ficar escrevendo teorias. Então, decidi abandonar a carreira acadêmica e escolhi a fotografia como um meio de comunicação para me aproximar das pessoas e contar suas histórias”, relembra.
As câmeras e lentes o tiraram do escritório e o levaram a lugares até então impensáveis para ele, como à Guerra Civil do Iraque, em 2016 e 2017, e a diferentes jornadas pela Amazônia. Mas foi seguindo os passos de Darwin pela Patagônia e pelos canais austrais da América do Sul que Pimenta se descobriu, também, como um explorador.
Com o apoio da National Geographic Society, Pimenta percorreu, sozinho, 11 mil km pelo território, refazendo parte do caminho descrito nos diários de Darwin durante a expedição do HMS Beagle, entre 1832 e 1835. O roteiro, revisitado e documentado de maneira contínua pelo brasileiro, percorreu desertos, costas, mares e geleiras.
A gente vive em um mundo de muitas certezas, todo mundo tem certeza de tudo. E qualquer diferença de pensamento leva à guerra. E, quando li os diários de viagem do Darwin, percebi que, ao contrário de nós, ele tinha muitas dúvidas. No momento em que ele está aberto a novas informações, ele começa a transformar seus próprios preconceitos, suas próprias concepções sobre a vida no planeta. Foi uma transformação que aconteceu quilômetro a quilômetro; à medida que eu via as pessoas, observava as paisagens que ele tinha visto, comecei a perceber que isso foi transformando a mim, também.
Assim como Darwin registrou sua expedição em diários de viagem, Pimenta também o fez. E foi na adaptação de seus diários para a publicação do livro Encontrando Darwin - Uma expedição pelos confins do mundo que ele percebeu a maneira como fora impactado pela jornada na Patagônia.
“As mudanças são lentas, quase imperceptíveis. Quando fiz a expedição, o objetivo era fazer as fotografias, entregar e acabou, a missão estava cumprida. Mas, aos poucos, foram tantas informações que era impossível fotografar certas situações, certas histórias que percebi que só conseguiria registrar através da escrita. Então comecei a escrever, reuni minhas anotações e comecei a organizar os pensamentos. Aquilo ficou pausado por um tempo, até que ano passado concluí o livro e percebi que eu já não era aquela pessoa. Era um outro, que estava mais feliz do que aquele eu anterior”.
‘A Patagônia é uma terra muito dura e honesta’
A bordo de um Jeep e equipado com o necessário para sobreviver no território selvagem da Patagônia, Pimenta partiu de Porto Alegre (RS) até a cidade argentina de Ushuaia, no arquipélago da Terra do Fogo. A viagem, que teve início em fevereiro de 2023, durou 40 dias.
Apesar de ter decidido realizar a expedição sozinho, Pimenta logo se deparou com o desafio imposto pelo isolamento na Patagônia: “Eu não queria ruídos. Eu queria ter meu tempo e não ter sombras nas fotografias, nos textos. E isso leva ao desafio que é estar lá. A Patagônia é uma terra muito dura, honesta, e que exige presença”.
Não é o lugar para estar divagando, exige você estar 100% com você mesmo. Lá não existem distrações como em uma viagem urbana, por exemplo, que é cheia de atrativos. Lá você percorre centenas de quilômetros sem um posto de gasolina. Em 500 quilômetros, você pode não ver uma única pessoa. Então você começa a se ouvir, a se reconhecer.
A proposta inicial da expedição, segundo Pimenta, era simples: fotografar locais por onde Darwin passou em sua jornada pela Patagônia. Mas um ‘conselho’ do britânico logo o levou a reconhecer o verdadeiro ‘tesouro’ da viagem.
“Segui o conselho do Darwin, que é estar aberto e ter dúvidas, e foi a melhor coisa que aconteceu. Anos depois aconteceu o livro, eu jamais esperava escrever um livro com relato que não é sobre o Darwin, especificamente, mas em que ele passa a ser meu guia de viagem. Fui conduzido por ele e aprendi sobre a questão do tempo, da presença e como tudo muda o tempo todo”, diz.
O processo de produção do livro de Pimenta também coincidiu com um doloroso momento pessoal: a perda, em sequência, de seus pais: “Me recordo que eles gostavam muito mais do que eu escrevia do que eu fotografava, então começar a escrever foi uma forma de homenagem para eles, além da minha esposa”.
Três anos após a expedição, Pimenta olha, com carinho, para o legado deixado pela reconstituição dos passos do famoso naturalista britânico: “Primeiro é se permitir ter dúvidas. Segundo é permanecer, é como um namoro. Namorar a vida, dar tempo às coisas. Nem tudo acontece no tempo que a gente quer. Então é permanecer, conhecer e explorar. E compartilhar. Enquanto estava descobrindo, fiz a digestão de todo o processo de conhecimento que estava acontecendo, ele ficou na gaveta e, no momento certo, ganhou a vida. Tudo sem pressa, sem a busca do holofote”.
O livro Encontrando Darwin - Uma expedição pelos confins do mundo, escrito por Pimenta e publicado pela editora Solisluna, já está disponível nas principais livrarias.

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