Guia F1 2022 – A Mercedes e seu maior desafio em muitos anos
Dominante na Fórmula 1 há oito anos, a Mercedes pode ter sua temporada mais desafiadora em muito tempo. Mas chega motivada a se provar
Nome oficial: Mercedes-AMG PETRONAS F1 Team
Carro: W13
Motor: Mercedes-AMG F1 M13 E Performance
Pilotos: #44 Lewis Hamilton e #63 George Russell
Posição em 2021: 1º de 10
A equipe
A Mercedes chegou onde nenhuma outra equipe havia chegado na história da Fórmula 1: venceu nada menos que oito títulos de construtores seguidos. Simplesmente todos desde que os motores turbo híbridos passaram a ser adotados, em 2014. Entre os pilotos, o período foi marcado por nada menos que seis títulos de Lewis Hamilton e um de Nico Rosberg, sempre de Mercedes. Sete de oito campeonatos. E esse único campeonato perdido machucou.
2021 foi o primeiro golpe na longa hegemonia da equipe alemã. O mundial de pilotos foi perdido por Lewis Hamilton na volta final e de forma polêmica. Nem ele nem a equipe engoliram a vitória de Max Verstappen, e atribuem o resultado a uma lambança da direção de prova nos momentos finais do campeonato. Michael Masi, o então Diretor de Provas, foi afastado pela FIA, o que, de certa forma, valida a reclamação mercedista.
Mas, tão relevante quanto o resultado em si é o fato de a Mercedes chegar à última volta do ano com a disputa ainda em aberto. Até então, isso beirava o inimaginável, já que o campeonato sempre vinha sendo liquidado com grande antecedência pelos carros prateados (ou pretos). O crescimento da Red Bull acendeu um alerta na fábrica de Woking: era preciso reagir.
O novo regulamento fez com que todas as equipes fizessem seus carros do zero, o que poderia anular a vantagem da Mercedes. A equipe, então, botou suas cabeças pensantes para trabalhar em algo que pudesse lhe dar alguma vantagem. O resultado foi um carro revolucionário, diferente de tudo que tem sido visto na categoria nos últimos anos. Se vai dar certo ou não, só o tempo dirá. Mas não se pode acusar o corpo técnico de acomodação com o sucesso.
Para pilotá-lo, também há novidades. Lewis Hamilton segue como o grande nome da Mercedes e da Fórmula 1, e agora terá nova companhia. Valtteri Bottas deixa o time depois de cinco temporadas rumo à Alfa Romeo. Para seu lugar, aquele que já vinha sendo cotado para a vaga havia anos e finalmente recebe sua chance: George Russell.
A dupla de pilotos
#44 Lewis Hamilton:
o inglês é daqueles poucos que rompem a bolha da Fórmula 1 e até do esporte, sendo tratado como supercelebridade onde quer que esteja. Seu currículo na categoria lhe garante esse status, afinal, trata-se do maior vencedor da história e, para alguns, o maior piloto de todos os tempos. E vai muito além da F1, sendo voz relevante globalmente em causas sociais das mais diversas, sem contar sua relação íntima com o mundo artístico. Uma quebra de paradigmas ambulante, basicamente.
Mas voltemos a falar de pista. E nelas, Hamilton se viu perdendo um campeonato pela primeira vez desde 2016. Mais do que o fato de perder, lhe doeu a forma como isso aconteceu, que ele entende ser injusta. O piloto fez um detox de redes sociais e sumiu por semanas durante as férias. Foi respirar outros ares e se preparar fora dos holofotes. Houve até quem apostasse em sua aposentadoria.
No entanto, mesmo aos 37 anos, Hamilton segue em plena forma e não dá sinais de declínio. Ele ressurgiu quando do lançamento do carro da Mercedes afirmando nunca estar tão preparado para uma temporada como agora. Sua motivação é recuperar o trono do qual foi retirado de maneira polêmica, e mostrar ao mundo que não perdeu a majestade.
Porém, antes de pensar em caçar Verstappen, Hamilton tem um desafio interno: marcar território dentro da equipe. Se com Bottas já havia uma hierarquia clara, Russell chega à Mercedes jovem, motivado e querendo provar seu talento. Hamilton, que já peitou Fernando Alonso em 2007, em situação semelhante à de Russell hoje, precisará demarcar o espaço de novo colega logo no começo do ano para se manter a força dominante dentro da equipe.
#63 George Russell: tratado como uma das grandes promessas da nova geração, o inglês ganha sua primeira oportunidade em uma equipe de ponta. O vínculo com a Mercedes existe desde quando corria em categorias inferiores. Sem espaço na equipe principal, Russell passou os três últimos anos acumulando experiência na fraca Williams. Fez apenas uma corrida pela Mercedes nesse período, quando substituiu Hamilton em 2020, e a boa atuação chamou a atenção. Mas apenas em 2022 a chance como titular chegou.
Russell, que acaba de completar 24 anos, conseguiu mostrar seu valor na Williams mesmo com carros limitados. Se impôs com enorme facilidade contra seus companheiros de equipe e conseguiu resultados improváveis, como um pódio na Bélgica e alguns Q3. Agora, seu jogo muda de fase. Ele será treinado para ser o sucessor de Lewis Hamilton dentro da Mercedes.
Russell prega humildade e declarou que quer tirar o primeiro ano para aprender com o veterano. Mas é óbvio que ele tentará agarrar cada oportunidade que tiver para mostrar sua capacidade contra o heptacampeão. Hamilton, por sua vez, terá que se impor para continuar na briga por títulos antes de pensar em passar o bastão. Será um capítulo interessante a se observar da F1 2022.
O carro
A Mercedes voltou a usar o prata depois de dois anos com os carros pintados de preto. A cor havia sido adotada em 2020 em solidariedade à Hamilton, uma voz ativa no combate ao racismo e à desigualdade. Segundo a equipe, as duas temporadas com o carro na cor especial foram importantes para levantar as bandeiras desejadas, mas o efeito novidade já havia passado. Por isso a opção por voltar à cor oficial da marca.
Quanto ao carro em si, o W13 já se tornou o centro das atenções antes de mesmo da primeira corrida oficial. Tudo por conta de uma inovação introduzida na segunda rodada de testes, realizada no Barein.
A Mercedes surgiu com um carro extremamente enxuto nas laterais. As tomadas de ar foram colocadas na vertical, bem estreitas e rentes ao cockpit. Para isso, radiadores foram deslocados mais para dentro e o capô passou a concentrar tudo que havia nos sidepods. O resultado é um carro muito mais estreito que a média, ficando basicamente as suspensões e rodas para fora do conjunto central. Leia mais sobre a lateral do W13 aqui.
A novidade, que pode ser considerada revolucionária, pegou muita gente do paddock de surpresa. Houve quem alegasse que a estrutura de proteção lateral estava fora do regulamento, pois deveria estar coberta por alguma área carenada, e não exposta. O posicionamento dos retrovisores também foi questionado. No entanto, até o momento a FIA não sinalizou nenhuma irregularidade, e o carro está pronto para o jogo até que se prove o contrário.
A pré-temporada
Os testes não foram tão positivos quanto a Mercedes gostaria. Não que o carro seja ruim ou problemático. Longe disso. A equipe foi a segunda a acumular mais quilometragem em Barcelona e a primeira no Barein. Nesse quesito, só perde para a Ferrari. Hamilton chegou a ser o mais rápido de Barcelona, enquanto Verstappen foi o líder no Barein.
O que preocupa os engenheiros é o acerto do carro. Os pilotos relataram dificuldades na tocada, e a equipe sofre para encontrar o acerto ideal. Muito desse problema pode ser atribuído ao efeito porpoising, que afeta bastante o W13. A Mercedes ainda não tem uma solução para se livrar do problema, mas acredita que pode ter um ganho significativo quando contorná-lo.
Por enquanto, as simulações apontam que o time está atrás de Red Bull e Ferrari. Hamilton chegou a declarar durante os testes do Barein que não vê a Mercedes brigando por vitórias na primeira parte da temporada.
No entanto, não custa lembrar que esse discurso é recorrente na equipe, e quase sempre se mostra um blefe. Há quem aposte que a Mercedes escondeu o jogo, mas há mais gente do que em anos anteriores apostando que, dessa vez, as queixas podem ser reais.
Expectativas para 2022
De uma equipe que vem de que oito títulos de construtores seguidos, qualquer coisa que não seja mais uma taça pode ser considerado um fracasso. A Mercedes criou um domínio tão grande que é impossível imaginá-la fora da briga. E é lá que ela deve estar mais uma vez. Mas a hegemonia foi parcialmente quebrada em 2021, com a perda do título de pilotos para Max Verstappen, da Red Bull.
A temporada que se inicia é encarada pela Mercedes com a chance de reagir e mostrar ao mundo que ainda manda na Fórmula 1. O mesmo vale para Lewis Hamilton, que chega renovado e motivado para reconquistar a coroa e marcar seu nome como único piloto oito vezes campeão do mundo. Para isso, a Mercedes precisa encontrar um delicado equilíbrio entre manter o jovem George Russell motivado sem que incomode a principal estrela da companhia.
E, para que a engrenagem funcione, é preciso que o carro corresponda. Num primeiro momento, o inovador W13 se mostrou um tanto arisco para ser domado. Mas o corpo técnico da Mercedes já se provou competente inúmeras vezes, e não deve tardar para fazer o carro funcionar como o esperado e se colocar na briga pela ponta.