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GP da Arábia Saudita: o resumo do que é a F1 2021

O fim de semana em Jeddah foi um retrato acabado do que é a F1 hoje. Mesmo assim, a gente gosta

6 dez 2021 21h54
| atualizado às 21h57
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Verstappen e Hamilton: o que importou foi a briga dos dois. O resto foi resto
Verstappen e Hamilton: o que importou foi a briga dos dois. O resto foi resto
Foto: Getty Images - Red Bull Content Pool / Lars Baron

Desta vez, resolvi esperar. Deixei o garçom botar as cadeiras em cima da mesa e jogar água no chão para poder falar sobre o que foi o GP da Arábia Saudita. Em tempos de redes sociais, muitos acabam tendo voz. Nem sempre a correta em várias oportunidades. E muita coisa foi despejada até aqui, ajudando a criar uma toxicidade desnecessária.

Não vou entrar em certos méritos. Mas este fim de semana foi um retrato acabado da F1, tanto para o bem como para mal. 

Temos sim a briga de dois gigantes. Um jovem veterano de 23 anos em sua 7ª temporada. Um veterano de 36 anos em sua 15ª jornada. Ambos de um talento tão grande que nenhum dos fãs cegos que fazem parte da torcida de cada piloto pode negar. Cada um, a sua forma, tem sua vontade de vencer a frente de tudo. Verstappen ainda de uma forma a ser domada, enquanto Hamilton usa a experiência para saber tocar as coisas.

Tudo acaba sendo representativo. Ambos chegam empatados para Abu Dhabi. Embora Verstappen tenha a vantagem de uma vitória a mais do que Hamilton, o inglês chega em um momento psicológico muito mais favorável. Venceu as últimas três etapas e está no seu máximo. Verstappen e a Red Bull soam como o policial que tem que encarar bandido de fuzil usando uma pistola 38.

A expressão corporal de Verstappen após a batida na qualificação em Jeddah tenha sido reveladora. Até então, aquela volta vinha sendo uma verdadeira pintura, uma daquelas que temos de guardar muito bem na memória.  Mas veio o erro na última curva e o encontro no muro. E depois o próprio comportamento durante a prova. Max foi duro mais uma vez e encontrou mais uma vez um Hamilton não disposto a ceder. Como já escrito neste espaço, não há santos na F1.

O lance capital acontecido na volta 37 poderia ter sido evitado? Com certeza. Mas este é o ponto mais alto aqui de uma situação criada pela FIA. Cito aqui o colega Lucas Santocchi, do Projeto Motor, onde ele disse que esta temporada é uma final de Copa do Mundo sendo apitada por um juiz ruim. A variação de critérios ao longo dos últimos tempos levou a este ponto. Embora tenha sim a subjetividade em avaliações e a política do “Let them race”, não dá para eximir a culpa da Direção de Prova.

Michael Masi tem seus méritos e não podemos esquecer que vinha sendo preparado para ocupar o lugar de Charlie Whiting. Não é um cara que caiu de paraquedas ali e tem vivência de corrida. Entretanto, ter que coordenar todas as pressões envolvidas no processo vai muito além de dar chutes para acertar barreira de proteção ou coordenar varrição de pista. Muita coisa vai ter que ser revista após esta temporada, embora não se pode ter o discurso de “tudo está uma porcaria”. Talvez o GP da Bélgica tenha sido o ponto mais baixo na gestão esportiva e que não venha a ser usado como o ponto em que seja a decisão para um dos lados.

Até escrevi na semana passada que temia que o campeonato poderia terminar como 1980 (bem lembrado, que o Alan Jones deu uma bela fechada no Piquet no Canadá), 1989, 1990, 1994 e 1997. Este campeonato não merece isso. E o lado perdedor na pista pode sim levar para os tribunais e acabar tirando o brilho de um dos melhores campeonatos dos últimos anos.

A corrida na Arábia Saudita foi o retrato acabado do aspecto comercial da F1. A Liberty Media vem tendo um ótimo trabalho em renovar o público, aumentar o acesso e jogar a categoria nas redes sociais. Esta temporada vem fazendo um ótimo trabalho para ela no campo financeiro, valorizando as ações da categoria na Bolsa de Valores de Nova Iorque em mais de 50% desde o início do ano. Mas não se iludam com campanha de “We Race as One”, busca de neutralização de marca de carbono, inclusão social (a proposta de colocar 1 indivíduo em cada equipe a título de aumento de diversidade chega a ser digno de piada de salão). O que a categoria quer (equipes inclusas) é dinheiro! Por isso acordos com países árabes e taxas de inscrição junto aos promotores cada vez mais altas. O circuito de Jeddah foi liberado para o evento “daquele jeito” e tivemos um pouco de sorte em algumas situações. Mas como o dinheiro pingou na conta, está tudo certo. Não sejamos hipócritas. O dinheiro aqui não fala, grita. E a política sempre bateu ponto. Sempre foi assim, segue e será por muito tempo. Deixemos de ser puristas e, no mínimo, realistas. 

O resto ficou para trás. Ocon fazendo uma bela escalada, Ferraris se batendo, Alonso tentando fazer volta mais rápida, Ricciardo marcando ponto depois de uma seca que começou em Austin...tudo isso ficou esquecido. O que importou foi Verstappen x Hamilton e Arábia Saudita. Tudo ficou perdido na penumbra dos holofotes. Quem sabe daqui a algum tempo nós nos dedicaremos a analisar estes pequenos tesouros perdidos no meio dos escombros da temporada.

Mesmo com isso tudo, estaremos ligados no próximo domingo, acompanhando tudo por TV, Rádio, Twitter, sinal de fumaça e o que mais lá seja. O relacionamento do fã da F1 com a categoria pode sim ser enquadrado como abusivo. A gente reclama, briga, fala e escreve um monte de bobagem, porém segue acompanhando. Sabemos de todos os defeitos, mas a gente mesmo assim continua e ainda diz que ama. Que venha Abu Dhabi!

Parabólica
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