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De joelhos, Russell pede perdão no Instagram

Após o acidente na prova e as declarações duras contra Bottas, hoje o piloto da Williams se desculpou publicamente. Mas pode ter sido tarde

19 abr 2021
19h28 atualizado em 20/4/2021 às 14h52
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19h28 atualizado em 20/4/2021 às 14h52
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O saldo do acidente foi prejuízo para todos: financeiro para Mercedes e Williams, no campeonato para Bottas e no futuro para Russell.
O saldo do acidente foi prejuízo para todos: financeiro para Mercedes e Williams, no campeonato para Bottas e no futuro para Russell.
Foto: Reprodução/F1.com

Para George Russell, esta segunda-feira (19) foi um dia para tentar diminuir os prejuízos. No domingo, o jovem piloto inglês ganhou notoriedade ainda maior do que aquela que é normalmente conferida aos pilotos da Fórmula 1, ao protagonizar um seríssimo acidente quando tentava ultrapassar o finlandês Valtteri Bottas.

Russell corre pela equipe Williams, a penúltima na escala hierárquica da Fórmula 1, enquanto Bottas é o contestadíssimo segundo piloto da poderosa Mercedes. Há entre os dois um contencioso desde o Grande Prêmio de Sakhir, disputado em dezembro do ano passado, quando Russell substituiu Lewis Hamilton, que fora acometido pela pandemia do Covid-19.

Uma vez instalado no carro do heptacampeão, Russell se mostrou imediatamente mais veloz do que Bottas, que só conseguiu se impor na pole position pela minúscula diferença de 0s026. Na corrida, Russell o superou com ultrapassagens impositivas, registrou a volta mais rápida da corrida e só não chegou ao degrau mais alto do pódio, reservado aos vencedores, por um erro da equipe na troca de pneus.

Essa excelente atuação levou os “juízes” das redes sociais a sentenciarem o fim da era Bottas na Mercedes e a ascensão de Russell ao paraíso da estrela de três pontas em 2022, quando termina o contrato do finlandês. Pelo que se viu no domingo, essa onda virou um tsunami na cabeça de Russell.

Russell (carro azul à direita) deixa Hamilton ultrapassá-lo pela parte molhada da pista na volta nº 31...
Russell (carro azul à direita) deixa Hamilton ultrapassá-lo pela parte molhada da pista na volta nº 31...
Foto: Reprodução/F1.com

Inegavelmente habilidoso, Russell vislumbrou sua chance quando o Grande Prêmio da Emilia Romagna, no exigente circuito de Imola, se aproximava da metade. Todos os carros tinham passado dos pneus de pista molhada para os slick, próprios para pista seca – mas a verdade é que o asfalto ainda estava úmido em diversos trechos, exigindo enormes doses de controle dos pilotos.

A bordo de sua Williams, Russell tinha aproveitado as dificuldades para escalar o grid até a nona posição, quase uma vitória para uma equipe como a Williams atualmente. Foi quando ele viu Bottas pela frente. Até aquele momento, o finlandês vinha em uma atuação obscura, bem abaixo do potencial do seu carro.

Na sua cabeça, Russell se imaginou coroado de sucesso por ultrapassar uma Mercedes com sua humilde Williams. Por seu lado, Bottas se imaginou insuportavelmente humilhado pela suposta manobra do adversário.

O desfecho foi o choque – inevitável, diante do quadro psicológico de seus protagonistas. Com a asa traseira aberta, um expediente da Fórmula 1 para facilitar as ultrapassagens, Russel se aproximou a uma velocidade bem mais alta do que a de Bottas. Que fez o que todos os pilotos na mesma situação fariam: moveu seu carro para o lado pelo qual se aproximava Russell, mas com o cuidado de deixar espaço suficiente para um carro – e nem mais um milímetro.

As imagens da TV mostraram o desenlace: Russell reagiu com certa surpresa e puxou seu carro um pouco mais para a direita do que o necessário. Seu pneu traseiro direito tocou a grama molhada que margeia o asfalto e fez o carro se projetar contra o de Bottas. Fim da corrida para os dois pilotos, perda total para os dois carros.

... obrigando o heptacampeão a sair da pista para não rodar. Por sorte, Hamilton conseguiu retornar à disputa.
... obrigando o heptacampeão a sair da pista para não rodar. Por sorte, Hamilton conseguiu retornar à disputa.
Foto: Reprodução/F1.com

Exacerbado, Russell saiu dos destroços de seu carro em direção a Bottas, que ainda estava atordoado pelo choque e não se livrara do cinto de segurança. Depois de poucas palavras, o piloto da Williams desferiu um tapa contra o capacete do rival e vociferou poucas e boas no rádio, recorrendo a um linguajar pouco admirável nos padrões da Fórmula 1.

Não satisfeito, declarou aos microfones do mundo que Bottas teria jogado sujo contra ele e que não teria feito isso se fosse outro piloto a tentar ultrapassá-lo. Era uma alusão clara à suposta disputa pelo segundo carro da Mercedes em 2022. A repercussão foi absolutamente negativa. Consultado sobre a teoria conspiratória aventada pelo jovem Russell, o chefe supremo da equipe Mercedes (e de suas ramificações) mostrou seu desagrado com poucas palavras: “bull shit”, respondeu Toto Wolff, expressão de baixo calão que significa algo como besteira em inglês.

E completou dizendo que Bottas está com ele há cinco anos e nada tem a provar; que um piloto, por mais jovem que seja, precisa ter em mente o quadro geral, não apenas o que lhe afeta diretamente. Wolff se referia ao fato de Russell ser piloto júnior da Mercedes, e que, portanto, deveria ser mais cuidadoso.

O pedido de desculpas de George Russell, publicado no Instagram, pode ter sido feito tarde demais
O pedido de desculpas de George Russell, publicado no Instagram, pode ter sido feito tarde demais
Foto: Reprodução/Instagram

Era uma referência a outro erro de Russell. Pouco antes do acidente com Bottas, ele havia dificultado uma ultrapassagem de Lewis Hamilton, que acabou saindo da pista por ser obrigado a frear na parte úmida da pista. Naquela situação, toda a equipe Mercedes esperava que Russell cedesse a Hamilton a melhor trajetória.

Não contente, Wolff ainda lamentou as consequências financeiras do acidente – tanto para os cofres da sua equipe quanto para os da exaurida Williams. “Os custos deste acidente terão consequências seríssimas. Pelas novas regras, todos nós temos de operar dentro de um limite de gastos que já estava nos obrigando a economizar cada centavo. Reconstruir um carro com certeza nos impedirá de investir em atualizações aerodinâmicas”.

Provavelmente, algum bom conselheiro lembrou George Russell que o francês Esteban Ocon foi “cedido” à equipe Renault (sem nenhuma compensação financeira) quando ainda era piloto reserva da Mercedes. Depôs contra ele a atitude hiperagressiva que o levou a se chocar por mais de uma vez contra seu companheiro de equipe Sergio Perez quando corriam pela Force India. Isso em uma época em que os gastos das equipes eram livres.

Hoje, Russell publicou seu “mea culpa” no Instagram, que ecoou como as trombetas de Jericó junto à mídia da Fórmula 1. Pelo que se depreende da reação pouco tolerante de Toto Wolff, tudo que Russell pode ansiar é o adiamento do seu sonhado ingresso na equipe Mercedes. A maioria aposta no cancelamento, simples e seco. E já o chamam de “o novo Ocon”.

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