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Adeus da Ford encerra milhares de histórias de brasileiros

Ex-assessora de imprensa da Ford nos anos 1990 conta uma parte de sua história e a de seu pai, engenheiro da montadora por três décadas

12 jan 2021
17h56
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Era entrar no carro, bater a porta e dizer, em uníssono: “Ah, o conforto do silêncio!”. O Ford Del Rey foi o primeiro carro com ar-condicionado que tivemos e aquela novidade merecia mesmo ser celebrada todo santo dia, por isso inventamos essa espécie de slogan improvável que saudava a vantagem de andar confortável pelo trânsito paulistano, mesmo com a janela fechada. 

Meu pai, José Henrique Alves, engenheiro mecânico formado em 1967, trabalhou na Ford por quase trinta anos. Durante toda minha infância e adolescência, só vi entrar na garagem carro com o logotipo oval. A maioria deles ficava só um ano na família. Entre os benefícios oferecidos a supervisores – a função dele na maior parte da carreira – estava o de poder alugar veículos zero quilômetro. 

Eventualmente, ele aproveitava um benefício atrelado a esse, o de comprar o carro com desconto no final do período de aluguel, de modo que eu demorei a me acostumar com a ideia de que, para comprar carro, era preciso ir a uma concessionária ou a uma loja de usados. Para mim, criança, os carros simplesmente chegavam com o meu pai.

Como chegavam também as cestas de Natal da empresa, que vinham em uma caixa de papelão com desenhos de personagens da Turma da Mônica. Dentro, latas de goiabada, marmelada, marrom-glacê, massa de tomate. Não lembro se vinham panetones e champanhes, itens mais típicos para o final do ano. O que me chamava a atenção definitivamente eram os produtos “da Mônica” e eu ficava feliz e orgulhosa porque meu pai trabalhava em uma empresa que dava essas coisas para nós.

Além da cesta, todo ano vinham também dois presentes, um para mim e outro para o meu irmão. Era geralmente uma boneca e um carrinho, nada muito sofisticado. Garotinha mal-acostumada de classe média, certa vez comentei com meu pai que gostava daqueles presentes, mas achava-os muito simples perto de outros que eu ganhava a cada Natal. E ele, sempre generoso nas explicações, mas desta vez mais sério que o habitual, me explicou que, para muitos funcionários da Ford, aqueles eram os únicos presentes que teriam para dar aos filhos.

Comecei a entender, à distância, o que era uma multinacional como a Ford, uma espécie de microcosmo da sociedade, com muitas pessoas agrupadas em células diferentes entre si, e continuei achando legal demais ter um pai que trabalha em um lugar tão grande e complexo.

Nesses trinta anos, ele sempre trabalhou em São Bernardo do Campo ou na fábrica “do Ipiranga”, que na verdade ficava na Vila Prudente, e nós sempre moramos na Zona Norte de São Paulo. Ou seja, ele sempre viajou vários quilômetros para ir e voltar do trabalho. Algumas vezes por ano, tinha de ir à fábrica de Taubaté, e aí seu retorno para casa ganhava um outro sabor, com os célebres biscoitos de Jacareí, que ele comprava no caminho de volta. 

Certa vez, acho que no lançamento do Escort, a Ford promoveu um daqueles “Open House”, em que os funcionários podem levar a família para conhecer a fábrica e os escritórios. Se eu já era entusiasta da marca, aí virei fã. Conhecer o local onde meu pai trabalhava já foi incrível: andei por escritórios com cara de anos 1950, divisórias de madeira, móveis robustos. Mas a grande revelação foi a linha de montagem, aquela com a qual Henry Ford mudou o mundo. Não foi exatamente a tecnologia que chamou minha atenção, mas um detalhe prosaico: o fato de que todos os carros eram prateados até passarem pela área de pintura. Desde então, passei a associar carro prata a “carro que não foi pintado” e nunca, nunca mesmo, comprei nenhum carro dessa cor.

A atuação do meu pai, na maior parte dessa jornada, foi em controle de poluição e proteção contra incêndio. Ainda no início da carreira, a Ford investiu em sua especialização nessas áreas, para atender às normas ambientais que começavam a surgir no Brasil. Ele tinha orgulho genuíno de ter dedicado a vida a uma área nova, mas infelizmente não viveu para testemunhar termos como sustentabilidade e desenvolvimento sustentável tornarem-se itens fundamentais de muitos negócios (dos que pretendem sobreviver, pelo menos). 

Muitos anos depois, já adulta e formada em Jornalismo, fui convidada pelo querido jornalista Luiz Carlos Secco para integrar a equipe de Assessoria de Imprensa da Ford, em 1995. Minha aproximação com ele vinha de um período anterior e, como quase tudo de realmente importante que aconteceu na minha vida, foi a Fórmula 1 que me aproximou desse emprego. No último ano de faculdade, em 1991, decidi desenvolver meu Trabalho de Conclusão de Curso na Universidade de São Paulo em torno da cobertura jornalística de automobilismo. À medida que evoluía na pesquisa, quase todos os entrevistados me perguntavam: “você já entrevistou o Secco?”. 

Entendi que precisava desse testemunho. Nessa época, ele era gerente de Imprensa da Autolatina havia muitos anos. Procurei-o e ele gentilmente me atendeu, no antigo Centro Administrativo Autolatina, o CAL, que ficava no bairro paulistano de Santo Amaro. Secco, o pioneiro das coberturas de corridas, quando ainda era repórter no Estadão, descreveu condições inimagináveis para obter informações de pilotos brasileiros no exterior no final dos anos 1960, começo dos 1970.

Ligações internacionais eram caras e difíceis de fazer. Não raro, a família Fittipaldi ia até a redação do Estadão para tentarem um contato telefônico com Emerson, em início de carreira. Nessa ligação, ele transmitia o relato da corrida para Secco, o repórter, e aproveitava para matar as saudades e tranquilizar o Barão e de Dona Juze Fittipaldi.

A pesquisa universitária ficou a contento, concluí a faculdade e, anos depois, quando a Ford e a Volkswagen dissolveram a Autolatina, Secco, já aposentado, foi chamado para assumir a assessoria de imprensa da Ford, e me convidou para integrar o time. Foi uma época feliz: eu trabalhava na fábrica de São Bernardo do Campo, atendia jornalistas, acompanhava entrevistas com executivos, escrevia releases. Faltavam poucos anos para meu pai se aposentar quando fui contratada. Resultado: íamos e voltávamos juntos do trabalho, eventualmente nos encontrávamos no restaurante da fábrica e aquele orgulho que eu sentia do trabalho dele, em várias dimensões, passou a ser um orgulho meu.

Há muitas razões para o fim da produção de veículos da Ford no Brasil. Erros estratégicos da empresa, um tradicional desprezo da matriz pelo conhecimento das equipes locais, o contexto social, político e econômico do Brasil, instável há vários anos. Todos fazem sentido, todos cabem no debate. Nenhum deles dá conta de uma história que mistura cestas de natal, cheirinho de carro novo, ar-condicionado, divisórias de madeira, biscoito de Jacareí, trabalhar com um ícone da imprensa, tornar-se colega do próprio pai.

Não foi só a Ford, 102 anos de Brasil, que encerrou parte fundamental da sua história ontem. Ainda que a marca se mantenha no Brasil, importando veículos de outros países, milhares de “fordianos” viram nesta semana pedaços de sua vida transformarem-se em vestígios de um passado que simplesmente morreu.

 

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