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Trump sai derrotado em seus objetivos iniciais no Irã

17 jun 2026 - 13h46
(atualizado em 18/6/2026 às 03h47)
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Ao atacar o Irã em fevereiro, Trump falou em troca de regime, fim do apoio de Teerã a milícias aliadas e extinção da capacidade nuclear do país. Bilhões de dólares foram gastos, milhares morreram - e pouco foi alcançadoQuando anunciou o acordo com o Irã, no domingo passado (14/06), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, destacou a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do suprimento mundial de petróleo. "Navios do mundo, liguem seus motores. Que o petróleo flua!", escreveu o presidente.

Reabrir o Estreito de Ormuz nada mais é do que retornar à situação que havia antes do início da guerra - e especialistas alertam que a reabertura dessa via marítima, agora minada pelo Irã, nem mesmo será imediata.

Trump havia delineado objetivos bem mais ambiciosos quando anunciou que os Estados Unidos estavam entrando na guerra, logo após os ataques iniciais de Israel ao Irã. Em seu discurso, ele falou em troca de regime, impedir que o Irã obtenha armas nucleares e acabar com o apoio do Irã a milícias na região, como os houthis e o Hezbollah.

Mesmo que não se conheça o conteúdo do "memorando de entendimento" que Estados Unidos e Irã deverão assinar nesta sexta-feira em Genebra, o que já foi divulgado indica que Trump ficou bem aquém do que ele mesmo havia estabelecido.

Aniquilar a indústria de mísseis

"Vamos destruir os mísseis deles e arrasar completamente a sua indústria de mísseis. Ela será totalmente aniquilada mais uma vez", afirmou Trump em 28 de fevereiro.

Relatos de serviços de inteligência ocidentais às agências de notícias Reuters e Bloomberg indicam que nem os estoques de mísseis do Irã nem sua indústria de misseis foram "aniquilados".

Cerca de um mês após o início da guerra, fontes dos EUA informaram à Reuters que um terço do arsenal iraniano havia sido destruído, enquanto outro terço provavelmente estava danificado, destruído ou soterrado.

Já a Bloomberg noticiou no domingo passado que estimativas de inteligência de março indicavam que o Irã ainda dispunha de cerca de 60% de seu arsenal de mísseis. Segundo essas mesmas fontes, o regime em Teerã dispõe hoje de cerca de três quartos das munições que tinha antes da guerra.

Numa estimativa mais otimista, o próprio Trump disse na semana passada que restavam ao Irã de 21% a 22% de seus mísseis.

Segundo a Bloomberg, que cita serviços de inteligência ocidentais, o regime iraniano pode ter aproveitado o cessar-fogo iniciado em 8 de abril para recompor seus estoques. Isso inclui mísseis russos não especificados que provavelmente saíram das linhas de produção no último ano, apontou uma das avaliações citadas pela agência de notícias.

Aliados ocidentais acreditam que o Irã muito provavelmente incorporou ao seu inventário armamentos russos recém-fabricados e recompôs grande parte de seu arsenal de mísseis durante o cessar-fogo de oito semanas, conferindo à República Islâmica poder de fogo para revidar com capacidade quase total caso as hostilidades sejam retomadas.

Antes da guerra, o Irã possuía o maior arsenal de mísseis balísticos do Oriente Médio, com um contingente entre 2.500 e 6 mil mísseis de diversos tipos. Alguns tinham capacidade de alcançar Israel, com alcances de até 2 mil quilômetros, e alguns carregavam ogivas de munição cluster, contra as quais é mais difícil se defender.

O Irã também é um grande fabricante de drones de longo alcance, em particular do drone Shahed de uso único (kamikaze).

O almirante americano Brad Cooper declarou ao Congresso, em 14 de maio, que a capacidade do Irã de fabricar e estocar mísseis e drones de longo alcance havia sofrido um retrocesso de anos. Ele afirmou que mais de 1.500 mísseis e 6 mil drones foram interceptados pelos EUA e seus aliados durante o conflito.

Se não está claro quantos mísseis restam ao Irã, certo está que o país ainda mantém a capacidade de atingir aliados dos EUA, como ocorreu em 6 de junho, quando lançou mísseis contra o Kuwait e o Bahrein, e em 7 de junho, quando disparou mísseis contra Israel.

Destruir as Forças Armadas convencionais

"Vamos aniquilar a Marinha deles", prosseguiu Trump, em seu discurso de 28 de fevereiro.

Os EUA afirmam ter reduzido a capacidade militar convencional do Irã de projetar poder na região ou ameaçar operações americanas. De fato parece ter havido um grande retrocesso no potencial militar iraniano.

Cooper informou ao Congresso que os militares dos EUA destruíram 161 embarcações navais iranianas e neutralizaram 82% de seus sistemas de defesa aérea. Ele afirmou que a força aérea iraniana, que realizava até cem missões diárias antes da guerra, não realiza mais nenhuma.

Mesmo assim, é fato que o Irã conseguiu bloquear efetivamente o Estreito de Ormuz durante o conflito, retendo navios mercantes que transportam um quinto do suprimento mundial de petróleo e gás natural, utilizando para isso lanchas rápidas, minas, drones e embarcações equipadas com mísseis.

Acabar com o apoio aos grupos terroristas no Oriente Médio

"Vamos garantir que os grupos terroristas que atuam como seus representantes [do Irã] na região não possam mais desestabilizar a região ou o mundo, nem atacar as nossas forças", afirmou Trump, ao delinear mais um objetivo, em 28 de fevereiro.

Em 2 de março, Trump acrescentou que não se pode permitir que Teerã continue a armar e financiar grupos que atuam como seus representantes no Iraque, no Líbano, em Gaza e no Iêmen.

O Irã não demonstrou disposição para interromper o apoio a esses grupos desde o início da guerra, mas avaliações militares dos EUA e análises independentes constataram que essa rede de representantes está bem menos eficaz.

Porém, grande parte desse cenário já era realidade antes do início da guerra. Israel havia eliminado muitos dos principais líderes do Hamas e milhares de seus combatentes em Gaza após o ataque ao seu território em 7 de outubro de 2023, além de ter abatido muitos líderes da milícia Hezbollah no Líbano.

O Irã também perdeu uma via importante para o reabastecimento do Hezbollah com o colapso do governo do ex-presidente Bashar al-Assad na Síria, em 2024. Sanções e as dificuldades econômicas do Irã também minaram sua capacidade de financiar esses grupos.

A exceção do Hezbollah, os grupos aliados ao Irã não desempenharam um papel relevante na guerra. O Hamas não atacou Israel a partir de seu enclave em Gaza, enquanto os houthis não causaram perturbações significativas à navegação no Mar Vermelho a partir do Iêmen.

Cooper disse ao Congresso, em maio, que o Irã não tem mais capacidade de fornecer, de forma confiável, armas avançadas a esses grupos, embora não tenha especificado o que isso significa.

Já o Irã deixou claro, nesta segunda-feira, que continua apoiando seus grupos aliados ao insistir que o acordo alcançado com os Estados Unidos inclui também o Líbano, onde o Hezbollah atua.

Troca de regime

"Quando terminarmos, assumam o controle do governo. Ele estará ao alcance de vocês. Essa será, provavelmente, a única chance de vocês em gerações", declarou Trump, dirigindo-se à população iraniana, em 28 de fevereiro.

Em 6 de março, Trump declarou que a guerra só terminaria com a "rendição incondicional" do Irã, acompanhada de um novo líder "aceitável".

O objetivo da troca de regime claramente não foi alcançado, e no curso da guerra, Trump parou de incentivar os iranianos a derrubarem o regime dos mulás.

O que os Estados Unidos e Israel conseguiram foi trocar o comando do regime, com as mortes do líder supremo Ali Khamenei e vários outros líderes importantes. Mas isso tornou a Guarda Revolucionária ainda mais poderosa, e os novos líderes iranianos já indicaram adotar uma linha ainda mais dura, apesar de Trump, em 29 de março, ter descrito a nova liderança como "um regime novo e mais razoável".

"Quando as bombas começaram a cair, Trump disse ao povo iraniano que 'a hora da sua liberdade está próxima'. Agora ele está fazendo um acordo com o regime que tentou derrubar", observou a revista britânica The Economist.

Acabar com o programa nuclear

"E vamos garantir que o Irã não obtenha uma arma nuclear", prometeu Trump em 28 de fevereiro. Depois disso, ele até mesmo colocou esse como seu principal objetivo.

Mas, pelo que se sabe sobre o acordo alcançado, é isso que os 60 dias de negociação vão agora definir. O programa nuclear do Irã passará a ser uma questão central para os negociadores assim que o "memorando de entendimento" for formalmente assinado, nesta sexta-feira.

Ou seja, Estados Unidos e Irã retornam agora à mesma situação de três meses e meio atrás, quando já estavam negociando, antes de Israel e os EUA iniciarem, em 28 de fevereiro, a guerra que deixou milhares de mortos na região, desencadeou uma crise energética global e abalou a economia americana com uma disparada da inflação.

O regime em Teerã há anos afirma que não tem a intenção de construir uma bomba nuclear e que seu programa nuclear tem fins pacíficos, apesar de haver motivos para duvidar disso.

Especialistas dizem que o Irã possui 440,9 kg de urânio enriquecido a até 60% de pureza, o que é um passo técnico curto até os níveis de grau militar de 90%, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica.

A guerra não alterou significativamente essa capacidade nuclear. No mês passado, a inteligência dos EUA estimou que o Irã precisaria de menos de um ano para produzir uma arma nuclear - o mesmo prazo indicado após os ataques de Israel e EUA em junho de 2025 a instalações nucleares iranianas, quando Trump já havia declarado que o programa nuclear iraniano havia sido "obliterado".

Trump defende que o urânio enriquecido do Irã seja retirado do país, enquanto o líder supremo iraniano, aiatolá Mojtaba Khamenei, teria defendido que o material não deve ser enviado para o exterior.

Tudo indica que essas negociações não serão fáceis - como nunca foram. O acordo nuclear anterior entre o Irã e as potências mundiais, alcançado em 2015, durante o governo do ex-presidente Barack Obama, e do qual Trump retirou os EUA durante seu primeiro mandato, levou quase 20 meses para ser negociado.

as (Reuters, OTS, AFP, AP)

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