Trump quer esferas de influência na América Latina - como o Brasil deve agir?
América Latina, Mercosul e Brasil enfrentam o desafio de formular projetos próprios de desenvolvimento e integração para reduzir vulnerabilidades externas, em vez de aceitar o lugar que outros lhes reservam em mapas de esferas de influência
As declarações de Donald Trump em Davos, neste dia 21 de janeiro de 2026, confirmam de forma explícita que o conceito de esferas de influência voltou ao centro da política internacional.
A América Latina, o Mercosul e o Brasil ocupam uma posição delicada nesse tabuleiro. Ao associar recursos estratégicos, fronteiras e mudanças de regime a uma agenda de negócios para os Estados Unidos, o presidente norte‑americano transforma a histórica Doutrina Monroe na sua versão atualizada e agressiva - a Doutrina Donroe -, feita sob medida para o século XXI.
Estado dominante organiza sua "vizinha estratégica"
Na tradição das relações internacionais, esferas de influência designam áreas em que uma grande potência exerce influência predominante, condicionando alinhamentos diplomáticos, decisões econômicas e escolhas de segurança de Estados formalmente soberanos. Não se trata de conceito jurídico, mas, para o bem o para o mal, de prática recorrente: o Estado dominante estabelece limites informais à atuação de rivais e organiza ao redor de si uma espécie de "vizinhança estratégica".
Stephen Walt descreve as esferas de influência como resultado quase inevitável de um sistema internacional anárquico, em que Estados mais fortes se mostram especialmente sensíveis ao que ocorre em seu entorno imediato. Proximidade geográfica, concentração regional de comércio e facilidade de projeção militar criam incentivos permanentes para que uma potência maior molde o comportamento de vizinhos mais fracos, por meios que vão de acordos preferenciais a sanções e ameaças.
A Doutrina Monroe consagrou, no século XIX, a ideia de que o hemisfério ocidental constitui área de interesse especial dos Estados Unidos, com exclusão de interferência europeia. Em Davos, Trump leva essa lógica a um novo patamar: em vez de limitar a rejeição à presença de terceiros na "sua" região, apresenta uma estratégia global de aquisição de territórios e de captura de regimes hostis, com referência direta à Venezuela e à Groenlândia.
Relatos de seu discurso registram elogios ao desfecho da crise venezuelana, apresentado como "vitória da liderança norte‑americana" e oportunidade econômica sem precedentes para empresas dos EUA em petróleo e gás. No mesmo tom, o presidente insiste em "negociações imediatas" para aquisição da Groenlândia, convertendo uma proposta antes ridicularizada em prioridade oficial de política externa e em símbolo de um novo expansionismo territorial e estratégico.
América Latina aparece como região de teste
Nesse contexto, a América Latina aparece como região de teste para a versão trumpista das esferas de influência. O continente experimenta, há cerca de duas décadas, diversificação de parcerias: a China assume papel de grande compradora de commodities e investidora em infraestrutura, enquanto a União Europeia, potente investidora, conclui, depois de longas negociações, o acordo comercial com o Mercosul, frequentemente interpretado por analistas como resposta ao protecionismo norte‑americano.
O curioso é que, no mesmo dia em que Trump pressiona os líderes europeus sobre a Groenlândia em Davos, o Parlamento Europeu decide, por 334 votos a favor, 324 contra e 11 abstenções, submeter o acordo de livre‑comércio Mercosul‑UE ao Tribunal de Justiça da União Europeia, em razão de preocupações com cláusulas ambientais, impactos agrícolas e limites da competência externa da União.
Trump enxerga esse binômio - maior presença chinesa + ativismo europeu na América Latina, em nosso caso concretamente no Mercosul - como ameaça direta ao domínio dos EUA no hemisfério. A captura de Nicolás Maduro funciona como recado a outros líderes da região: distanciamentos excessivos em relação a Washington podem resultar em respostas duras, inclusive de natureza coercitiva.
O Mercosul encontra‑se, nesse cenário, dividido entre governos que se aproximam de Washington e outros que apostam em maior autonomia estratégica. A assinatura do acordo Mercosul-União Europeia reforça a percepção de que o bloco busca alternativas, mesmo diante de exigências ambientais e comerciais bastante rigorosas por parte de Bruxelas, ao mesmo tempo em que a dependência de exportações agrícolas para os Estados Unidos e para a China torna qualquer ruptura uma escolha de alto risco econômico.
O Brasil ocupa posição central nessa equação. Como maior economia do bloco, detém capacidade de travar ou acelerar projetos de integração, negociar com múltiplos centros de influência e articular posições regionais comuns nos cada vez mais fragilizados fóruns multilaterais.
A reação brasileira à captura de Maduro e à escalada recente de tarifas norte‑americanas sobre exportações brasileiras, inclusive de bens industrializados, ilustra essa ambivalência. De um lado, o governo condena o precedente jurídico e político aberto na Venezuela, classificando a operação dos EUA como violação grave da soberania e da Carta da ONU. De outro, adota postura cautelosa no desenho de contramedidas comerciais, priorizando protestos diplomáticos, consultas na OMC e tentativas de negociação para evitar um confronto econômico frontal com Washington.
Divisões do mundo em blocos rivais mantém crises recorrentes
Walt lembra que esferas de influência, embora recorrentes, não equivalem a fórmula de paz. O exemplo da Europa na Guerra Fria mostra que divisões rígidas em blocos rivais reduzem, em certo grau, o risco de confronto direto entre superpotências, mas mantêm intensa competição indireta, crises recorrentes e graves violações de direitos em áreas sob domínio de cada lado.
No mundo atual, cadeias globais de valor, interdependência financeira e fluxos digitais tornam inviável o isolamento completo de uma região em relação a outras (modelo autárquico). Mesmo que Washington busque consolidar sua esfera no hemisfério ocidental, empresas, bancos e governos latino‑americanos mantêm interesses crescentes na Ásia e na Europa, o que limita o alcance de qualquer projeto hegemônico exclusivo e abre espaço para disputas permanentes entre grandes potências.
A intervenção discursiva de Trump em Davos, ao reivindicar sem pudor o direito dos Estados Unidos a redefinir fronteiras e destinos políticos em nome de sua segurança e prosperidade, antecipa um ciclo ainda mais tenso na relação entre centros de poder e periferias.
América Latina, Mercosul e Brasil enfrentam, assim, um desafio estratégico decisivo: formular projetos próprios de desenvolvimento e integração, capazes de reduzir vulnerabilidades externas, em vez de aceitar passivamente o lugar que outros lhes reservam em mapas de esferas de influencia cada vez potenciados.
Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.