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Preocupado com a relação entre WhatsApp e Facebook? Melhor prestar atenção no Instagram

O app de fotos é mais permissivo com os dados enviados para a rede social

22 jan 2021
05h10
atualizado em 26/1/2021 às 18h52
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Parece um caminho sem volta: nas últimas semanas, todo mundo voltou os olhos para as novas políticas de privacidade do WhatsApp — o que fez barulho foi o fato de o Facebook oficializar o compartilhamento de algumas informações entre o app de mensagens e a rede social, algo que já ocorria desde 2016. Muita gente se incomodou com o intercâmbio de informações — ainda que os conteúdos das conversas não sejam o alvo da iniciativa. O resultado foi a migração em massa para outros apps de mensagem, como Signal e Telegram.

Para quem está preocupado com a possibilidade de o Facebook bisbilhotar informações e usá-las para fins comerciais, vale ficar atento ao outro grande serviço do império de Mark Zuckerberg: o Instagram. Comprada em 2012 pelo Facebook, a rede de fotos pode ser mais permissiva que o app de mensagens. Embora o propósito do app de fotos seja diferente do zap, a lista de dados que você fornece para ele é grande em comparação ao seu 'irmão'.

As letras miúdas — ou as abas de política de privacidade e segurança que poucas pessoas lêem — revelam que as informações fornecidas pelo usuário podem chegar a um número quase ilimitado de órgãos, que incluem desde autoridades legais (desde que sigam um processo legal para isso, o que envolve decisões judiciais) à múltiplos parceiros do Instagram.

Muitas das diferenças entre o app de fotos e o serviço de mensagens são resultado de diferenças nos modelos de negócios dos aplicativos. O Instagram tem como sua principal fonte de renda anúncios comerciais, o que não acontece com o WhatsApp. Veja as diferenças abaixo.

Compartilhamento de informações

Segundo a política de dados do Instagram, ao cadastrar uma conta no app, a empresa pode ter acesso a dados como: contatos, modelo do telefone, tipo de conexão com a internet usada, metadados, fotos, localização, informações de cartão de crédito e até os movimentos que o usuário faz na tela durante o uso do app.

O compartilhamento dessas informações não significa que os dados dos usuários se tornarão públicos, mas podem estar disponíveis para outros apps — chamados de "produtos" nos termos da rede social — controlados pelo Facebook e, eventualmente, para seus parceiros.

Para os parceiros diretos e indiretos do Facebook — aqueles conectados ou com serviços no app como lojas, jogos e sites diversos — todos esses dados também podem chegar com o objetivo de personalizar publicidade. Além disso, as informações coletadas no Instagram podem ser utilizadas em pesquisas acadêmicas, serviços de análise e mensuração de informações. Também, os dados podem ser usados por fornecedores e provedores de serviços e autoridades legais. O Facebook não informa quais são as empresas na sua lista de parceiros. O Instagram, porém, afirma que os dados são compartilhados de maneira agregada. Ou seja, informações dos vários perfis são compiladas, indicando tendências - isso significa, que dados específicos de cada perfil não são compartilhados.

Existem ferramentas, disponibilizadas pelo Instagram, que podem limitar que alguns dados sejam exibidos para os contatos ou para a web. Elas, porém, não impedem que eles sejam compartilhados com o Facebook. O que existe é uma ferramenta dentro das configurações para bloquear alguns aplicativos de acessar os dados informados no app — é possível encontrá-la na aba de Configurações> Segurança> Apps e sites.

Nesse ponto, o app se sai pior que o WhatsApp em relação à privacidade. No mensageiro, o compartilhamento de dados é mais discreto. Os mesmos dados de contato, identificação do celular, localização e interação serão compartilhados com o Facebook, segundo os novos termos. Os dados, porém, não serão utilizados para fins publicitários em outros apps da empresa.

Criptografia

O Instagram não tem como função principal ser um app de conversas, mas oferece, pelas mensagens diretas, a possibilidade de comunicação com seguidores, amigos e outros contatos do app. A fusão do Facebook Messenger com o Instagram, em 2020, também facilitou essa integração, um plano bastante divulgado por Zuckerberg para unir suas redes sociais. Com o movimento, os usuários podem, agora, usar uma rede social para se comunicar com contatos da outra, além de padronizar a identidade visual dos chats.

Isso já é um ponto de diferença em relação ao WhatsApp, que não integra seu serviço com o Facebook Messenger. O ponto central que diferencia os dois apps é o nível de segurança e privacidade dos conteúdos trocados na caixa de mensagens do Instagram. Ao contrário do WhatsApp, as mensagens diretas do Instagram não tem criptografia de ponta-a-ponta, que protege o conteúdo das conversas dos servidores da empresa e garante a privacidade dos usuários. O Facebook chegou a comentar, em 2019, sobre a possibilidade de implementar a tecnologia nos chats integrados, mas ainda não atualizou os apps.

Com criptografia, Facebook não consegue acessar o conteúdo das mensagens - mesmo que queira. Sem a tecnologia, o conteúdo das conversas pode ser interceptado e acessado porque ficam sem uma camada de proteção de código — o que não significa que funcionários do Facebook irão acessar as mensagens. O Instagram diz que a falta de criptografia é uma escolha para usar algoritmos de IA para detectar situações de risco, como usuários colocando a própria vida em perigo. O app de fotos também diz que não usa comercialmente o conteúdo das mensagens embora sua IA seja capaz de ler o que está na caixa de entrada.

No WhatsApp, a criptografia de ponta-a-ponta é uma configuração padrão que garante o sigilo da conversa entre os contatos. É uma tecnologia que a empresa não consegue quebrar e, por isso, não tem acesso ao conteúdo das conversas, fotos, vídeos e dados como o compartilhamento privado de localização dentro dessas mensagens. Aqui, o WhatsApp fica muito na frente para quem quer privacidade total.

Segurança

Em relação à segurança do app, o Facebook trabalhou de forma a implementar também no Instagram a verificação em duas etapas. A função precisa ser habilitada nas configurações, e permite duas formas de autenticação: por SMS ou por um aplicativo próprio.

A verificação por SMS envia um código para o número de telefone cadastrado que deve ser informado na hora do login. Nesta opção, o Instagram também oferece seis códigos numéricos diferentes que podem ser usados caso o usuário não tenha acesso ao celular, como em caso de roubo, por exemplo. Cada código pode ser inserido apenas uma vez.

Já o outro método exige que o usuário instale um aplicativo chamado Duo Mobile, que gera códigos diferentes para cada vez que o Instagram solicitar a verificação. Nesse sentido, o Instagram parece se preocupar mais com a segurança do app do que o WhatsApp, que conta apenas com um método para a verificação em duas etapas: ele exige uma senha fixa de seis dígitos de tempos em tempos.

*é estagiária sob supervisão do editor Bruno Romani

Veja também:

Por que o Facebook bloqueou conteúdos na Austrália?
Estadão
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