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'Não vamos voltar à era da TV por assinatura', diz diretor do YouTube

Para Robert Kyncl, proliferação de serviços de vídeo aumenta opção para consumidor, mas não o prejudica

29 nov 2020 05h11
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Veterano do mercado de vídeo, Robert Kyncl já viu muita coisa no setor - do auge da TV a cabo ao surgimento de plataformas online. Nascido na Tchecoslováquia comunista e morador dos EUA desde os anos 1990, ele passou por diversas pontas do mercado, incluindo HBO e Netflix. Hoje, é o diretor de negócios do YouTube - um cargo que faz o executivo não só cuidar de um site usado por bilhões de pessoas diariamente, mas também pensar o futuro do consumo de conteúdo.

Na visão dele, o que vivemos hoje é uma reta sem volta - a despeito de quem acredite que a proliferação do vídeo na rede recrie o universo da TV paga, com muita oferta de conteúdo e pouca coisa útil de fato. "Hoje, ninguém vai pagar por conteúdo que não quer ver. Há muito mais opção", diz ele, em entrevista exclusiva ao Estadão.

Além de falar sobre o futuro do vídeo - um cenário cada vez mais competitivo, afirma o executivo -, Kyncl também reflete sobre o impacto da pandemia no YouTube e se posiciona sobre questões como desinformação, liberdade de expressão e moderação de conteúdo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Muita gente não consegue imaginar como seria sua quarentena sem o YouTube. Como foi viver os últimos meses do lado de dentro da plataforma?

Foi um ano bem diferente para todos nós. O YouTube é uma plataforma aberta e sempre percebemos o impacto que causamos no mundo, mas a pandemia ressaltou várias coisas para nós. Uma delas foi o acesso à informação. Viramos uma plataforma onde as pessoas buscam informações, ajudando empresas, emissoras e sistemas nacionais de saúde para distribuir as principais informações sobre as mudanças na saúde e na vida cotidiana. Na quarentena, muita gente também virou professor, porque tinha de ajudar os filhos a estudar online. Ajudamos instituições de ensino a se digitalizar e fizemos a curadoria dos melhores vídeos de educação. E claro, em meio às notícias ruins e ao isolamento, muita gente usou o YouTube para entretenimento. Vimos artistas e apresentadores de TV aderindo ao site pela primeira vez. De repente, todo mundo virou youtuber. E o Brasil foi um fenômeno nisso: toda semana chegava um email dizendo que o Brasil tinha quebrado um novo recorde de audiência numa live. Vocês foram um farol do que era possível fazer em transmissões ao vivo. Sinto que a empresa trabalhou duas vezes mais para fazer isso funcionar, mas valeu a pena.

Antes da pandemia, já havia a noção de que estava cada vez mais difícil fazer sucesso na internet. Com ícones consagrados da TV e do cinema, a competição online fica ainda pior. Como manter o YouTube como vitrine para novos talentos? E como evitar a competição com outras plataformas, como Facebook e TikTok?

Ouço reclamações nesse sentido há pelo menos seis anos. Elas vão continuar, porque é uma questão exponencial. Quando há uma plataforma aberta para todos, sempre haverá maior competição. A TV era limitada: você tinha uma barreira para entrar, mas uma vez lá dentro, a competição era menor. Nós somos abertos, é diferente. Sabemos que está cada vez mais difícil de fazer sucesso, mas o que estamos de olho é se as pessoas conseguem faturar. Um indicador que usamos é se a receita média de um criador consegue passar o salário médio em seu país. Com isso, ele consegue virar um youtuber em tempo integral - e aí seu sucesso pode crescer exponencialmente. Estamos de olho se conseguimos atrair criadores e se eles se afiliam ao nosso programa de parceiros. São métricas importantes e é assim que sabemos que o ecossistema é saudável. Para nós, não faria sentido limitar o espaço. Precisamos é trazer mais dinheiro para dentro da plataforma, seja com publicidade, assinatura ou venda de bens digitais e merchandising nos canais. E é o que nos faz diferentes do TikTok e do Facebook: nós temos um programa de parcerias e pagamos em bases regulares. É algo em que os criadores podem confiar e é sustentável.

A publicidade é o ganha pão do YouTube, mas a empresa tem um serviço pago, o YouTube Premium. Como ele se diferencia de outras plataformas de vídeo?

Ninguém precisa pagar pelo YouTube Premium para acessar conteúdo. O conteúdo dele é o mesmo do YouTube. O que vendemos são funcionalidades: você deve pagar se não quiser ver anúncios e se quiser baixar vídeos para assistir quando estiver sem conexão. Já tivemos conteúdo exclusivo, mas não funcionava bem. As pessoas não entendiam e os criadores que faziam o conteúdo exclusivo queriam liberá-lo para todos. Agora, quando fazemos conteúdo original, ele é gratuito.

Como o sr. vê a proliferação de serviços de streaming, com estúdios criando seus próprios apps? Há quem diga que estamos voltando ao mundo da TV por assinatura, em que se paga por conteúdo não visto. O sr. concorda?

Com a TV a cabo, o que havia é um monte de combos. Uma empresa tinha um ou dois canais que você queria ver, mas você pagava por muitos canais para poder tê-los. Não vamos voltar a isso. Vamos pagar por conteúdo, seja na Netflix, na Disney+, na Apple TV+ ou em outros serviços, mas ninguém vai pagar por conteúdo que não quer ver. Ainda temos a TV paga, ok, mas acredito que não vamos voltar à era da TV por assinatura, a esse padrão anterior, porque as pessoas estão pagando pelo que querem ver.

Hoje se discute nos EUA uma reforma de leis que poderiam tornar o YouTube responsável pelo conteúdo publicado na rede. Aqui no Brasil também houve essa discussão ao longo do ano. Por que é importante que a empresa não seja responsabilizada pelo conteúdo que vai ao ar?

Se uma plataforma se torna responsável pelo conteúdo que vai ao ar, será preciso verificar todo o conteúdo antes de publicá-lo. E aí não seremos mais uma plataforma aberta. Isso impediria a criatividade e a expressividade dos criadores, bem como a liberdade de expressão. Teríamos de vigiar todos os vídeos que fossem publicados. É preciso entender se, como sociedade, valorizamos ou não plataformas abertas. Hoje, nós moderamos o conteúdo, com ajudas de máquinas para ganhar escala e de pessoas para ter contexto correto. É o que fazemos. As máquinas têm dificuldade de entender discurso de ódio, porque cada país entende isso de forma diferente. Temos 10 mil moderadores e as máquinas fazem o trabalho de 200 mil pessoas. Com a responsabilização, esse trabalho fatalmente seria limitado. Creio que o debate em torno disso é importante, mas as pessoas precisam entender as consequências de suas decisões. Sinto que somos como jardineiros, tentando tirar as ervas daninhas e deixar as flores aparecerem.

Hoje, nos EUA, há também discussões sobre antitruste. O Google foi recentemente processado pelo Departamento de Justiça. Há mais casos vindo aí e fala-se até em divisão das empresas, como no caso da Standard Oil. O que aconteceria se o YouTube tivesse de se separar do Google?

É difícil imaginar como seria esse futuro. Fomos criados sobre as bases do Google, com software da companhia, a partir dos avanços incríveis que eles fizeram em busca. Somos empresas superconectadas, também na área de vendas e de anúncios, os vendedores que vendem anúncios no YouTube. Tanto do ponto de vista de tecnologia como do ponto de vista corporativo, somos uma empresa bem próxima. Para nós, é algo inimaginável.

Estadão
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