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Unicórnio indiano de hospedagem Oyo faz planos para o Brasil

Há menos de um ano no País, startup de hospedagem já tem rede de 450 hotéis em 40 cidades diferentes

19 fev 2020
05h10
atualizado às 10h52
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Quem anda pelo centro de grandes cidades pelo Brasil pode já ter reparado em um logotipo vermelho marcando a fachada de hotéis por aí. São os primeiros capítulos da estratégia da startup indiana Oyo no País. Apesar de ter feito pouco alarde, a empresa já soma números em sua operação local: afirma ter uma rede de 450 hotéis afiliados em 40 cidades, somando cerca de 12 mil quartos - muitos deles, habitações simples, mas que podem ser reservadas por cerca de R$ 50. Avaliada em US$ 10 bilhões desde outubro do ano passado, quando recebeu um aporte liderado pelo grupo japonês SoftBank, a empresa já está presente em quase todas as capitais.

Fundada na Índia em 2013 pelo empreendedor Ritesh Agarwal, na época com 19 anos, a Oyo é comumente confundida com outra startup do ramo de hospedagem: o Airbnb. Mas há grandes diferenças nos modelos de negócios das duas empresas. Enquanto o Airbnb conecta hóspedes a gente que tem um espaço em casa para receber pessoas, a Oyo atua no setor hoteleiro tradicional por meio de parcerias. "Buscamos oferecer um serviço que tenha bom custo-benefício e um padrão mínimo de qualidade", explica Henrique Weaver, gerente-geral da empresa no Brasil. "Para isso, nós investimos nos hotéis. Eles ganham a marca da Oyo e a tecnologia, mas a operação segue sob a responsabilidade do hoteleiro."

Oyo aposta em expansão no Brasil
Oyo aposta em expansão no Brasil
Foto: Reprodução Facebook

Segundo Weaver, o investimento em um hotel pode chegar a "algumas dezenas de milhares de reais", em itens que vão da qualidade dos lençóis até o tamanho da TV no quarto. Além da "transformação", feita por uma equipe de engenheiros e arquitetos da indiana, os hoteleiros também passam a usar ferramentas da startup para gestão de preços e de ocupação. "Com inteligência artificial, conseguimos fornecer ao hoteleiro a informação de qual é o preço mais correto em momentos de alta e baixa demanda", diz. O executivo evita falar em números, mas em seu site, a empresa mostra casos de hotéis no País que tiveram até 80% de alta nas receitas e dobraram a ocupação.

Em troca do apoio, a indiana fica com uma fatia das receitas de hospedagem. O porcentual varia a partir do aporte feito pela Oyo no estabelecimento e de como a reserva foi feita - é possível alugar um quarto de um hotel da rede da startup por meio de site, app, telefone ou a partir de sites de viagem como Booking, Expedia e similares. "Normalmente, fechamos um contrato que vai de três a cinco anos com os hotéis. Não cobramos pelas receitas obtidas pelos hotéis com comidas e bebida, por exemplo", diz o executivo, que comanda um time de 700 pessoas espalhado pelo País.

O crescimento tem sido rápido: só de janeiro para cá, a equipe adicionou 100 novos hotéis à base da startup. "Hoje, já somos a maior rede hoteleira em número de empreendimentos e queremos ser, em breve, também líderes em quartos", afirma Weaver. Hoje, a liderança em quartos é ocupada pela rede Accor, que tem 312 empreendimentos e cerca de 49 mil apartamentos, segundo o Raio-X da Hotelaria Brasileira, publicado em 2019.

Colchão apertado

No mundo, a Oyo também tem alguns números impressionantes: são mais de 1 milhão de quartos em 800 cidades, com cerca de 43 mil hotéis parceiros. Recentemente, fez uma aquisição de porte ao comprar, por cerca de US$ 135 milhões, o hotel e cassino Hooters, em Las Vegas. Ao longo de sua história, a empresa recebeu US$ 3,2 bilhão em aportes, incluindo investidores como o Airbnb, a startup chinesa Didi (dona da brasileira 99), o fundo Sequoia e o já citado SoftBank.

Mas sua história recente não é digna de um hotel cinco estrelas: nos últimos três meses, a startup fez mais de 3 mil demissões ao redor do mundo, em um processo de reestruturação que fez muita gente questionar a avaliação da empresa no mercado. Maior startup da Índia, a Oyo também tem uma trajetória de incidentes problemáticos: reportagens recentes publicadas na imprensa americana mostraram que a empresa por vezes lista hotéis em sua plataforma que não estão mais disponíveis.

Milhares de quartos na Índia e em outros países também estão disponíveis em hotéis que não tem licença para funcionar. Para completar, há frequentes reclamações de hoteleiros que dizem ter sido sobretaxados pela startup. "É uma bolha prestes a estourar", disse ao New York Times em novembro último Saraubh Mukhopadhyay, ex-gerente de operações da Oyo no norte da Índia. Além disso, a empresa tem perdido dinheiro há algum tempo - nesta semana, divulgou resultados para o ano fiscal de 2019 (entre abril de 2018 e março último) com prejuízo de US$ 335 milhões. "A nossa expectativa é de dar lucro esse ano na operação global. Já o Brasil é uma operação recente, mas com boa trajetória", diz Weaver.

Questionado sobre as queixas e denúncias feitas sob a empresa ao redor do globo, o executivo afirma que são reflexos de um período de aprendizado. "Crescemos muito rápido e tivemos pontos que precisavam ser reajustados. Encontramos redundâncias na empresa e por isso demitimos", diz. "Aqui no Brasil, estamos focados em fazer as coisas certas e mostrar que estamos fazendo as coisas certas. Precisamos ser éticos."

Na visão de Rafael Ribeiro, chefe de operações do fundo Bossa Nova e ex-presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), o aprendizado da empresa pode não ser suficiente. "O Brasil é um país burocrático e regulado e é preciso saber se o time da Oyo está pronto para encarar isso", afirma. Para ele, porém, a proposta da startup de reciclar a rede hoteleira pode funcionar. "A injeção de capital pode trazer competitividade ao mercado", diz.

Já para Felipe Matos, autor do livro 10 Mil Startups, o modelo da empresa funcionou bem na Índia e pode rodar bem no País, apesar das diferenças de mercado. "Há muitas regiões com déficit de estabelecimentos e falta profissionalização", diz. A indiana, porém, ainda precisa validar completamente seu modelo de negócios e pode sofrer com a supervalorização do mercado, afirma o especialista. "Há uma diferença entre empresas que são de tecnologia ou que usam tecnologia para problemas reais. E o mercado têm tratado as duas igualmente, apesar das segundas terem um caminho de escalabilidade bem mais complexo."

Reservas

Para se estabelecer no Brasil, a startup teve um apoio estratégico de seu principal investidor, o SoftBank. "Eles ajudaram bastante em conexões, apresentando parceiros e talentos", explica Weaver. A startup também faz parte de uma rede intrincada de relações comerciais entre as investidas do grupo - o executivo afirma que, em muitas cidades, os escritórios da Oyo estão dentro de edifícios gerenciados pelo WeWork, startup que é uma das principais apostas dos japoneses lá fora. Na visão de Matos, a ligação entre as fintechs investidas pelo SoftBank e a rede de clientes da Oyo pode ser interessante, com a criação de linhas de crédito específicas, por exemplo.

Os tropeços recentes do WeWork, inclusive, com crescimento desordenado e governança complicada, foram o primeiro sinal de luz amarela no universo do SoftBank - para analistas, os problemas da startup de escritórios compartilhados fizeram muitos fundos e startups reverem suas estratégias. A Oyo faz parte do grupo. "Aprendemos bastante com o que acontece no mercado", diz Weaver, que nega, porém, sofrer pressão dos japoneses. Com suas 3 mil demissões, porém, a Oyo puxa a fila de empresas apoiadas pelo grupo de Masayoshi Son que fizeram cortes - uma lista que inclui também a colombiana Rappi e a brasileira Loggi.

Além de continuar crescendo pelo País, a Oyo também está de olho em estratégias para conquistar o viajante brasileiro - esteja ele se deslocando por negócios ou em férias. Uma delas é o Wizard, sistema de fidelidade da startup, bastante parecido com o que outras redes oferercem. Segundo Weaver, a operação local já começa a ganhar escala suficiente para que o serviço seja implementado por aqui - o que deve acontecer nos próximos meses.

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Estadão
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