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Startup que aluga apartamentos por hora explode na quarentena

Disponível apenas nos EUA, Globe ganha espaço com usuários que precisam ficar uma ou duas horas longe da família ou do colega de apartamento - e não se importam em pagar por isso

23 mai 2020
05h10
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Há muitas marcas que estão se dando bem com o novo "estilo de vida" da quarentena. A Netflix é uma delas. Serviços de entrega de refeições também. Mas existe uma, nos Estados Unidos, da qual muita gente ainda não ouviu falar: a Globe. Seu público-alvo são todas aquelas pessoas que estão cansadas das pessoas com as quais vivem. Criada em junho do ano passado por Emmanuel Banfo, de 30 anos, e Eric Xu, de 36 anos, o Globe é uma versão "diária, paga por hora" do Airbnb.

O Globe é para quem não consegue mais, no meio deste período de isolamento social, passar um segundo sequer ouvindo as "piadas corporativas" do marido numa reunião do Zoom. Ou não aguenta mais o colega de apartamento fazendo barulho ao comer cereal.

Todos precisam de pausas - e como não dá para ir para o trabalho, um espaço de coworking ou a um café, é possível alugar uma sala no Globe. Ou um apartamento inteiro, de uma vez, por algumas horas. Não é possível passar a noite em nenhum desses locais e, por conta do coronavírus, o usuário tem de mandar uma foto para mostrar que não está com febre. "Em um período em que as pessoas estão à beira de um ataque, uma vez que ninguém imaginou que ficaríamos tanto tempo juntos, nós damos um alívio às pessoas", diz Bamfo.

Foi o caso de Brittney Gwynn, de 32 anos, que está em quarentena com seu namorado no Brooklyn. "Nosso amor é sem limites, mas estamos passando tempo demais juntos e estávamos sempre numa pilha de nervos", disse ela. Gerente de projetos de uma empresa de arte online, ela descobriu o Globe no ano passado, quando buscava um local para uma festa luxuosa com colegas de trabalho.

Durante a quarentena, ela prestou bastante atenção até ver se algum apartamento próximo se tornava disponível - e não hesitou em alugar um espaço por US$ 100 por apenas duas horas. "Trouxe meus lenços antibactericidas. Limpei a mesa e a maçaneta, o interruptor de luz e qualquer área do apartamento em que estive", disse ela. Enquanto esteve no apartamento, fez uma conferência do trabalho por 45 minutos. Depois relaxou por mais uma hora.

Antes do Globe, Emmanuel Bamfo já havia tentando um negócio na área de aluguel de "curtissimo prazo". Ele e dois amigos da Universidade de Washington tinham criado o Recharge, uma startup que ligava profissionais que faziam bicos com quartos de hotéis vazios. A ideia era que essas pessoas - motoristas de aplicativo, entregadores - pudessem tirar um cochilo ou tomar um banho nos quartos, quando estivessem longe de casa. A ideia era boa, mas os funcionários de hotéis protestaram por ter de limpar os quartos muitas vezes.

Bamfo, então, decidiu expandir o conceito para qualquer pessoa que precisasse de um lugar para relaxar. Na outra ponta, qualquer pessoa que quisesse ganhar uma grana com suas casas. E se juntou com outro amigo dos tempos de faculdade, Eric Xu, que trabalhava como engenheiro no Reddit. Em seus primeiros meses, o Globe ia bem: havia oferta e demanda, mas faltava descobrir como o negócio poderia escalar. E aí veio o coronavírus.

Hoje, o Globe tem 5,5 mil anfitriões e 10 mil usuários que têm acesso às ofertas. Enquanto isso, mais de 100 mil pessoas esperam por uma chance de se tornar usuário da plataforma, disse Bamfo. Destes, 20 mil fizeram o pedido desde o início de março. Segundo a empresa, seu maior problema agora é que há poucas empresas colocando suas casas e apartamentos à disposição para estranhos, no meio de uma pandemia.

Funcionário de uma startup em San Francisco, Abe Disu, de 24 anos, é um dos anfitriões do Globe. Ele já alugou sua casa cerca de 70 vezes entre agosto de 2019 e abril deste ano, ganhando cerca de US$ 50 por hora, já descontados os custos de limpeza. Em março, ele recebeu um kit com máscaras, luvas, álcool em gel e termômetros para os usuários do serviço mostrarem que não estavam com o coronavírus. Ele chegou a alugar o espaço duas vezes. Mas, conforme também teve de trabalhar em sua casa, ele parou de oferecê-la. "O tempo que não estou em casa ficou bem limitado", disse.

Agora, o Globe espera atrair mais gente como Matt Earnest, de 37 anos, que gerenciava propriedades na região de São Francisco. Ele costumava oferecê-las em sites como o Airbnb, mas passou a negar turistas por medo de contágio. No entanto, ele acredita que pessoas locais, usando os lugares por duas ou três horas, oferecem menos risco. "Quero ser responsável e esse tem sido um jeito útil de complementar a renda perdida", disse.

Em abril, ele teve seis agendamentos, faturando entre US$ 100 e US$ 150. Entre os usuários, havia uma mulher cujo namorado tinha sido demitido - ela não se sentia confortável fazendo chamadas de negócio na frente dele. E um homem que queria um lugar melhor que a sua casa para fazer uma reunião profissional via Zoom. "Aqui em São Francisco, muita gente tem quatro ou cinco colegas de apartamento. E é fácil um lugar desses virar um chiqueiro quanto todos estão trabalhando de casa", disse Earnest.

Oliver Page, de 27 anos, usou o Globe pela primeira vez em abril, depois de esperar por um lugar por dois meses. Empreendedor de Miami, Page disse que precisava de uma pausa de seu primo. "Somos sócios, dividimos um apartamento… é quase como se fôssemos um casal do coronavírus agora", disse. Quando um apartamento em seu condomínio apareceu no app, ele gastou US$ 75 para ficar uma hora e meio sozinho. "Fiz algumas chamadas e adorei ter um tempo só pra mim. Estar dentro de casa com alguém é um pouco chato, né?" / TRADUÇÃO DE BRUNO CAPELAS

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Estadão
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