Nos EUA, startups buscam modernizar o setor de cadeira de rodas

Após décadas de estagnação, novas empresas apostam em alta tecnologia para reinventar o setor

18 mar 2021
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Há anos, os carros vêm se tornando mais inteligentes e aparentemente mais seguros graças ao trabalho de companhias que os modernizaram com sensores, câmeras e mais conectividade. Scooters e bikes também. Mas, e quanto às cadeiras de rodas?

Startups estão agora competindo para melhorar a vida das pessoas com problemas de mobilidade, adicionando inteligência artificial (IA) às cadeiras de rodas. A ideia é de que a visão computacional e sistemas de freios inteligentes tornam a cadeira mais segura e mais fácil de operar. Algumas empresas já vêm tendo sucesso na empreitada, de maneira que as cadeiras de rodas do futuro oferecerão mais do que apenas transporte de um lugar para outro.

"Há coisas que a indústria tem se mostrado capaz de fazer nos últimos 24 meses, que vêm tornando as cadeiras de rodas melhores", afirmou Bill Mixon, CEO da National Seating & Mobility, uma das maiores companhias de tecnologia no campo da assistência a deficientes. "O fato de ficarem mais conectadas permitirá que elas evoluam e se tornem receptores de informações e dados".

Empresas que atuam no campo têm se mostrado lentas em termos de inovação, em parte porque planos de saúde nos EUA cobrem somente as necessidades básicas. O setor de manufatura de cadeiras de rodas também é dominado por algumas organizações internacionais focadas mais em lançar produtos com novas cores e tamanhos em vez de inserirem as cadeiras de rodas na era digital, segundo especialistas.

Algumas companhias querem mudar isso. A empresa Luci anunciou uma parceria com a National Seating & Mobility com o objetivo de dar aos cadeirantes acesso a um novo dispositivo de segurança de alta tecnologia que é acoplado às cadeiras. Em dezembro, o inventor escocês Andrew Slorance, CEO e fundador do estúdio de design Phoenix Instinct, venceu um concurso com um prêmio milionário da Toyota para trazer o seu conceito de cadeira de rodas "inteligente" para o mercado.

As duas empresas atendem diferentes necessidades dos usuários. O aparelho da Luci readapta cadeiras de rodas elétricas existentes para pessoas com problemas nos membros superiores e inferiores. A Phoenix Instinct foca na remodelação das cadeiras manuais, que o usuário comanda. O principal problema que ambas as empresas visam solucionar é o das lesões causadas por acidentes com tombamento da cadeira. A maior parte dos acidentes ligados às cadeiras de rodas tem a ver com isso.

Quando o indivíduo procura redistribuir seu peso, ou passando por um obstáculo ou procurando pegar um objeto, a cadeira pode tombar para trás e causar ferimentos importantes. Num estudo realizado, 87% dos usuários de cadeira de rodas reportaram pelo menos uma inclinação da cadeira ou queda nos últimos três anos.

Os cofundadores da empresa Luci, Jered e Barry Dean, fundaram a companhia em 2017 depois de pesquisarem maneiras de aprimorar uma cadeira de rodas para a filha de Barry, Katherine.

O sistema de hardware e software se apoia nos sensores de radar e um trio de câmeras que permitem ao usuário ver o que ocorre no seu entorno. O software para evitar colisão atua para impedir os usuários de colidirem com paredes e objetos. A empresa integrou um software de detecção para o usuário reconhecer degraus e declives repentinos. Se ele sobe uma rampa íngreme e há perigo de tombar, o software dá um alarme, alertando pessoas que estão por perto para prestarem ajuda.

A empresa adiciona 10% ao custo da sua cadeira, cujo preço inicial é de US$ 1.500 e pode alcançar US$ 12.000.

Os acidentes com cadeira de rodas são um problema. Janette Aragon, 33 anos, sabe muito bem. Ela está entre os quatro milhões de americanos que utilizam o dispositivo. Diagnosticada com paralisia cerebral ainda bebê, ela usa cadeira de rodas desde os seis anos de idade. Seu problema torna difícil ver o que está atrás dela, afirmou.

Seu médico, do Center for Inclusive Design and Engineering, da universidade do Colorado, ajudou-a a adicionar o sistema da Luci à sua cadeira de rodas, o que foi feito em dezembro.

"Gostaria que essa tecnologia já existisse quando eu ainda era criança porque isso teria evitado muitos acidentes - queda de escadas, tombamentos. Ela agora se tornou meu vigia. É uma mudança imensa".

A cadeira vem com um aplicativo que fornece dados de saúde que o usuário pode enviar para médicos ou parentes. A câmera é usada internamente para criar um mapa do mundo. Os dados do usuário são apagados antes de serem armazenados na nuvem; eles não são compartilhados com outras companhias, segundo os responsáveis da Luci.

Caminho para o futuro

Sensores, câmeras e conectividade são o primeiro passo para se chegar à direção autônoma no futuro, segundo a National Seating & Mobility. A parceria da companhia com a Luci dá à esta empresa acesso a uma rede de 170 clínicas de mobilidade no país.

A Phoenix Instinct tem pelo menos mais um ano antes de as pessoas usarem sua cadeira de rodas alternativa de fibra de carbono.

O fundador da empresa, Slorance, que usa uma cadeira de rodas mecânica, sofreu uma lesão na medula espinhal quando era adolescente. Insatisfeito com a cadeira de rodas padrão, decidiu desenvolver outras alternativas.

"Quase 40 anos depois, as empresas na verdade não fizeram nada. Produziram cadeiras de rodas mais leves, menores. Mas ainda são uma caixa sobre rodas", afirmou. Ele vendeu sua primeira startup, a Carbon Black, há 10 anos. A empresa produzia cadeiras modernas, sob encomenda. Sua próxima ideia é lançar cadeiras de rodas esteticamente atrativas, equipadas com a tecnologia mais recente.

A Phoenix utiliza um sistema que ajusta automaticamente seu sistema de gravidade, tornando a cadeira mais estável e mais fácil de manobrar. A empresa participou de um concurso patrocinado pela Toyota Mobility Foundation e a fundação Nesta Challenges com vistas a novas tecnologias no campo da mobilidade. Seu protótipo, uma cadeira de rodas preta, com as extremidades arredondadas, tem um sistema de freio que detecta quando o usuário está num declive e controla sua descida.

Com menos de 4,5 quilos, a cadeira é leve e tem dispositivos elétricos para minimizar a tensão dos músculos. O plano é fabricar a cadeira com portas para outras companhias adicionarem sensores e outros componentes que desenvolverem, disse Slorance.

O preço inicial da cadeira é de US$ 7.000. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Estadão
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