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Neon reforça time e muda comando de olho em expansão

Startup recruta veteranos do mercado financeiro e de tecnologia para mesclar experiência com juventude e acelerar crescimento

8 jul 2020
05h10
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Com apenas quatro anos de existência, a fintech Neon já tem bastante história para contar, cheia de altos - incluindo um aporte de R$ 400 milhões liderado pelo fundo General Atlantic e pelo BV - e baixos - a liquidação extrajudicial do parceiro mineiro Banco Neon (ex-Pottencial), a quem a startup emprestou o nome em uma parceria já desfeita. Em todo esse tempo, quem comandou a empresa foi Pedro Conrade, de 28 anos. Agora, porém, a empresa se prepara para entrar numa nova fase - e, para isso, foi buscar gente experiente no mercado para se reforçar, mesclada à juventude que já é sua marca.

Desde dezembro, em uma mudança bastante discreta, não é mais Conrade quem cuida do dia a dia da empresa, mas sim Jean Sigrist, ex-Itaú e ex-sócio da Guide Investimentos. Com 55 anos de idade - e de 31 de carreira no mercado financeiro -, ele se juntou ao Neon em 2017 como diretor financeiro. Agora, assume o posto de "co-presidente executivo". "Fico com a operação do dia a dia, como governança, gestão financeira e gestão de gente", explica Sigrist. "O Pedro fica sempre com o próximo passo: contato com o mercado, com investidores, desenvolvimento de novos produtos. Ele é o visionário", diz.

É um arranjo que lembra um pouco o que o Google teve durante uma boa fase de seu crescimento: jovens e muito dedicados à tecnologia, Larry Page e Sergey Brin perceberam que precisavam de alguém mais experiente para ajudá-los com o lado financeiro e operacional da empresa de buscas. Foi aí que surgiu a figura de Eric Schmidt, um veterano do Vale do Silício que ajudou a botar de pé a estrutura corporativa da gigante.

Alguém poderia dizer que Sigrist é o Eric Schmidt da Neon, ajudando a empresa a se prepara para competir por espaço não só contra outros bancos digitais - Nubank, Inter, C6, BS2 e outros tantos , mas também contra instituições tradicionais. Já Conrade permanece com o título de CEO, embora ele mesmo reconheça que as nomenclaturas são "esquisitas".

Pacotão

Sigrist, porém, está longe de ser o único executivo experiente a ter um posto novo. Após passar seis anos na consultoria BCG, Tadeu Rocha chegou recentemente para ser o responsável pela área de dados da fintech. Ex-diretor do Santander e do banco Real, Paulo de Tarso é o novo diretor da área de análise de risco. Mas a principal contratação é a de Daniel Mazini: novo diretor de operações do Neon, ele passou os últimos 10 anos como chefe de varejo na Amazon, onde ajudou a implantar e expandir a operação brasileira da varejista.

"Criamos alguns espaços na empresa que são reflexos do nosso crescimento", explica Sigrist. A fintech não revela o número atual de clientes, mas é possível estimar seu tamanho: em 2018, na época do imbróglio com o BC, tinha 600 mil contas. Ao receber o aporte em novembro de 2019, subiu para 2 milhões. Durante a pandemia, o Neon também diz ter crescido: em maio deste ano, o volume de transações de seu cartão virtual subiu 45% em relação a março, em um indício que a empresa soube surfar a demanda por serviços digitais na quarentena.

Nos últimos anos, o número de funcionários também cresceu: em 2018, eram 190 pessoas; na época do investimento, 600. Hoje, após um corte de cerca de 60 pessoas no início da pandemia do novo coronavírus, está com 100 vagas abertas. "A estrutura de janeiro de 2019 não daria conta do momento atual. Crescer o negócio e não o time é a chave para o abismo", afirma Conrade.

Faz e cresce

As contratações acontecem em um momento em que o Neon está de olho em expandir ainda mais sua base, após conseguir estabelecer os pilares de sua estrutura, que inclui o serviço de banco digital para pessoas físicas e jurídicas e um cartão de crédito e débito. É um ciclo que acompanha muitas startups: lança recursos primeiro e depois cresce em número de usuários, para depois lançar mais recursos e assim por diante.

E é aí que se encaixa Mazini. "Não venho para desenvolver novos produtos financeiros, mas para ouvir o cliente e ajudar o time que já estava aqui", diz o ex-Amazon. "O que faz a empresa crescer nem sempre é algo criado agora, é um projeto de longo prazo. Acredito que temos muito a crescer em pessoas jurídicas, especialmente depois da integração da MEI Fácil", afirma, fazendo referência à startup de serviços para microempreendedores comprada pela Neon em setembro do ano passado.

"Com 45 milhões de desbancarizados e muitos clientes mal servidos, as fintechs ainda têm muito espaço para crescer", analisa Edson Santos, fundador da consultoria Co.Link e especialista em serviços financeiros. "Nesse sentido, essas empresas têm oportunidades por serem mais ágeis e por chegarem aos clientes por outros meios, como as redes sociais", explica Ricardo Rocha, professor do Insper. Para o pesquisador, uma consolidação no setor deve acontecer. E a Neon corre para chegar até essa "linha de chegada" com fôlego e capacidade de se diferenciar.

Postura

É provável que parte dessa corrida seja feita de forma discreta, como convém à empresa, ao contrário da postura de outros rivais, que por vezes parecem chamar mais a atenção. "Não acho que perdemos por ser discretos, lo-fi. O que importa é falarmos com os nossos clientes", diz Conrade. Com a casa arrumada, o jovem executivo fica livre para pensar em novas ideias - além de uma conta digital, estão na mesa possibilidades como ferramentas de educação e gestão financeira.

Com a presença de Mazini, a inspiração é evidente: ser uma espécie de Amazon Prime para o dinheiro das pessoas e pequenas empresas. "É uma comparação válida: uma suíte de serviços agregados a um pacote básico muito bem executado", diz o veterano da varejista.

A possibilidade, porém, de se transformar em um "bancão", tradicional, é refutada. "Somos uma empresa de tecnologia", reafirma Conrade. Pelo visto, as fintechs, como a Neon, não querem a reputação dos bancos tradicionais. Só os clientes. E agora alguns executivos. Crescer tem mudanças inevitáveis.

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Estadão
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