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Afterverse é a nova jogada da 'dona do iFood' no mundo dos games

Nova empresa terá games que estavam sob guarda-chuva do PlayKids e já nasce com 25 milhões de jogadores e presença em 14 países; por enquanto, estúdio estará debaixo do app para crianças da Movile

2 dez 2020
05h11
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Delivery de comida e mercados, ingressos para shows e eventos online, carteiras digitais… e games. A partir desta quarta-feira, 2, o grupo Movile, que contém marcas como iFood, Sympla e MovilePay, terá um estúdio de games para chamar de seu. Chamada de Afterverse, a nova empresa nasce como subsidiária do app de crianças PlayKids, com 25 milhões de jogadores e presença em 14 países. Por enquanto, seus três jogos são voltados ao público infantil e a pré-adolescentes, mas a meta da companhia é ter produções para todas as idades, como conta o diretor geral da Afterverse, Breno Masi, em entrevista exclusiva ao Estadão.

"Já tínhamos lançado alguns jogos dentro da PlayKids e percebemos que havia conhecimento dentro de casa para ir além. Queremos fazer jogos sociais, para todo tipo de jogador, sem bullying ou ambiente de hostilidade", afirma o executivo, que antes era diretor de produtos do app de conteúdo para crianças. Em 2019, ele começou um trabalho de criar games dentro da empresa - uma forma, na visão de Masi, de responder à alta disputa no mercado de streaming de vídeo. Ali, os três títulos que compõem o atual portfólio da Afterverse foram criados.

O principal deles é o PKXD, uma espécie de rede social virtual, em que as crianças podem interagir com um avatar digital, realizando missões, construindo suas próprias casas e fazendo atividades - como uma versão infantil do clássico Second Life. Já CraftLands traz Minecraft como inspiração, mas focando mais na parte visual do que na ideia de sobrevivência, ação ou coleta de materiais. Juntos, os dois jogos somam 25 milhões de usuários mensais - quase o triplo dos 9 milhões que possuíam em fevereiro. Além da dupla, há ainda o já descontinuado CraftColors, uma espécie de livro de colorir digital.

Empresa tem planos ambiciosos

"Nossa cara atual ainda está bastante ligada ao PlayKids, mas queremos ir além. Até março, o foco será em consolidar esses games em mercados como EUA e Europa; depois, teremos novidades. Dá pra esperar jogos de esportes, de corrida, de diferentes gêneros", afirma Masi, que vai comandar uma equipe de 70 funcionários. Os planos são ambiciosos: a expectativa "conservadora", nos termos do executivo, é que o time dobre em até 12 meses.

Para o diretor da Afterverse, um dos benefícios colaterais da quarentena foi poder ampliar o foco de contratações: "não precisamos mais ficar restritos ao eixo Campinas-São Paulo, onde a Movile está, porque já nascemos como uma equipe online".

Assim como PKXD e CraftLands, a Afterverse será um estúdio focado em jogos gratuitos, mas com microtransações. "É um modelo que faz sentido no nosso mercado, mas com a diferença de que não vamos limitar o jogo por pagamento. Se o jogador quiser passar o dia todo dentro do PKXD, ele poderá fazer isso sem ficar restrito a vidas ou bônus", diz. O modelo, afirma Masi, também faz a Afterverse já nascer como empresa lucrativa.

A nova empresa também já chega ao mercado com bastante potencial de sinergia com outras investidas do grupo Movile, fundado há duas décadas. Além do PlayKids, cujo público cresce e começa a se tornar alvo da Afterverse, Masi vê ainda integrações com a Sympla e com o iFood. "A gente pode usar a tecnologia da Sympla Play para transmitir campeonatos ou usar as carteiras virtuais do iFood para gerir bens digitais. Há muita coisa em aberto", diz.

Na visão de André Pase, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), a estratégia de ter um estúdio de games faz muito sentido para a Movile. "É uma empresa que sabe falar com criança e sabe muito de aplicativos, de dispositivos móveis. Além disso, a ligação com Playkids abre espaço para jogos de propriedades intelectuais que já estejam dentro do app", afirma o pesquisador.

Companhia já nasce com rival em potencial no Brasil

Se a intenção da Afterverse não é a de ter jogos competitivos, a empresa já nasce com um rival em potencial aqui no Brasil: a Wildlife, produtora de games paulistana que se tornou o primeiro unicórnio nacional do setor em 2019 e hoje está avaliada em US$ 3 bilhões, impulsionada por jogos como Zooba e Tennis Clash. Na visão de Masi, as duas empresas têm focos diferentes: a Wildlife é bastante focada em dados e números, enquanto a Afterverse busca combinar essa habilidade analítica com um senso de comunidade.

"Queremos construir jogos que consigam atrair os jogadores sempre, com um senso de pertencimento. É algo que títulos como Roblox e Fortnite têm", diz ele. "Quero que a geração pandemia pense nos nossos games como algo que os ajudou nesse momento, da mesma forma que eu penso com carinho no meu Pense Bem", afirma Masi, em referência ao protocomputador vendido pela Tectoy no Brasil nos anos 1980 e 1990.

Para Pase, da PUC-RS, a disputa é bem vinda, porque mostra um novo grau de maturidade dentro da indústria brasileira de jogos. Além da dupla Afterverse e Wildlife, ele aponta ainda a gaúcha Aquiris como parte desse movimento - nos últimos anos, a empresa de Horizon Chase fez jogos para marcas como Looney Tunes e agora desenvolve um novo título exclusivo para o serviço de games da Apple, o Apple Arcade. Ainda sem previsão específica de lançamento, Wonderbox também tem uma pegada de jogo social e "em seu próprio universo".

Na visão do especialista, a escolha por jogos sociais não é só uma questão de estética e jogabilidade: também permite um desenvolvimento com menor grau de risco, feito por etapas - e com lançamentos contínuos que fazem o jogador se engajar diversas vezes com o conteúdo. "Uma nova fase ou temporada pode atrair tanto quem nunca jogou como quem já passou um tempo no app e tava pensando em ir embora", afirma.

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Estadão
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